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Música
Teoria do rock'n'roll
Como o crítico Greil Marcus mostrou que
a música pop podia ser assunto sério

Sérgio Martins
O rock se consagrou como fenômeno
cultural (e como gerador de fortunas para a indústria fonográfica)
na segunda metade dos anos 1960, quando os Beatles e os Rolling
Stones conquistavam os Estados Unidos e Bob Dylan criava letras
com um pouco mais de sofisticação poética (e
política) do que "a-wop-bop-a-loo-lop-a-lop-bam-boo".
O novo rock abriu espaço para o surgimento de uma categoria
profissional que, por sua vez, se esforçou para confirmar
a seriedade da música pop: o crítico de rock. Não
por acaso, nascia em 1967 um marco do jornalismo pop, a Rolling
Stone. Dentre os críticos que integraram a equipe da
revista, nenhum foi tão influente quanto Greil Marcus, cujo
livro A Última Transmissão (tradução
de Eduardo Simantob; Conrad; 160 páginas; 24,50 reais) está
sendo lançado no Brasil. Marcus, de 61 anos, foi o maior
talento de uma geração que também viu surgir
o texto coloquial de um Lester Bangs (1942-1982) e as análises
musicais definitivas de Robert Christgau (ainda hoje ativo no jornal
Village Voice).
"A função do trabalho
do crítico não se limita a analisar um disco. Ele
deve expandir seu significado para outras áreas, como a política
e a literatura", disse Marcus em entrevista a VEJA. De fato, seus
textos se esforçam para dar ao rock um contexto mais amplo
do que o da mera música de entretenimento. Um bom exemplo
dessa expansão crítica está no capítulo
de A Última Transmissão dedicado a um show
do cantor Bruce Springsteen. A princípio, Marcus mostra-se
despretensioso, falando dos convidados vip na platéia e do
virtuosismo da banda mas poucos parágrafos adiante
ele já está tecendo considerações sobre
Beethoven e literatura. Marcus também é respeitado
por sua ética profissional. Orgulha-se de nunca ter participado
de festas ou viagens oferecidas pelos executivos de gravadoras.
"Eles bajulam o jornalista atrás de matérias favoráveis",
acusa. A política editorial da Rolling Stone, garante
Marcus, era avessa à badalação. O ex-jornalista
e dublê de cineasta Cameron Crowe, diretor de Quase Famosos,
teria sido uma exceção. "Era um deslumbrado. Em
suas matérias, todos os roqueiros eram simpáticos",
espeta Marcus.
Embora Marcus seja inteligente
demais para embarcar nesses deslumbramentos de fã, ele às
vezes peca por uma reverência romântica. Ao tratar a
música pop como grande arte, sua geração contribuiu
para que todo adolescente com espinhas na cara e uma guitarra nas
mãos se imagine a reencarnação de Mozart. A
turma de Marcus levou-se a sério demais, a ponto de cobrar
dos artistas canções "sérias" e com mensagens
politizadas é por causa disso que a Rolling Stone
execrou bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath por anos. Passado
o clima "revolucionário" dos anos 60 e 70, o pop reencontrou
sua inconseqüência juvenil. E a crítica também
mudou. Hoje, os "pensadores" do rock são figuras como o escritor
inglês Nick Hornby, que não tem pudor em elogiar uma
canção banal mas agradável como I'm Like
a Bird, de Nelly Furtado. Os decanos da Rolling Stone provavelmente
considerariam isso uma heresia. Mas o fato é que Hornby redescobriu
uma das maiores qualidades da música pop: sua leveza.
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OS JULGAMENTOS DE
MARCUS
Lee Celano/Reuters
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"Nunca houve um artista tão consciente da
herança do rock'n'roll quanto Bruce Springsteen..."
"Like a Rolling
Stone, de Bob Dylan, é a maior canção
da história do rock americano."
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