Edição 1964 . 12 de julho de 2006

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Música
Teoria do rock'n'roll

Como o crítico Greil Marcus mostrou que
a música pop podia ser assunto sério


Sérgio Martins

O rock se consagrou como fenômeno cultural (e como gerador de fortunas para a indústria fonográfica) na segunda metade dos anos 1960, quando os Beatles e os Rolling Stones conquistavam os Estados Unidos e Bob Dylan criava letras com um pouco mais de sofisticação poética (e política) do que "a-wop-bop-a-loo-lop-a-lop-bam-boo". O novo rock abriu espaço para o surgimento de uma categoria profissional – que, por sua vez, se esforçou para confirmar a seriedade da música pop: o crítico de rock. Não por acaso, nascia em 1967 um marco do jornalismo pop, a Rolling Stone. Dentre os críticos que integraram a equipe da revista, nenhum foi tão influente quanto Greil Marcus, cujo livro A Última Transmissão (tradução de Eduardo Simantob; Conrad; 160 páginas; 24,50 reais) está sendo lançado no Brasil. Marcus, de 61 anos, foi o maior talento de uma geração que também viu surgir o texto coloquial de um Lester Bangs (1942-1982) e as análises musicais definitivas de Robert Christgau (ainda hoje ativo no jornal Village Voice).

"A função do trabalho do crítico não se limita a analisar um disco. Ele deve expandir seu significado para outras áreas, como a política e a literatura", disse Marcus em entrevista a VEJA. De fato, seus textos se esforçam para dar ao rock um contexto mais amplo do que o da mera música de entretenimento. Um bom exemplo dessa expansão crítica está no capítulo de A Última Transmissão dedicado a um show do cantor Bruce Springsteen. A princípio, Marcus mostra-se despretensioso, falando dos convidados vip na platéia e do virtuosismo da banda – mas poucos parágrafos adiante ele já está tecendo considerações sobre Beethoven e literatura. Marcus também é respeitado por sua ética profissional. Orgulha-se de nunca ter participado de festas ou viagens oferecidas pelos executivos de gravadoras. "Eles bajulam o jornalista atrás de matérias favoráveis", acusa. A política editorial da Rolling Stone, garante Marcus, era avessa à badalação. O ex-jornalista e dublê de cineasta Cameron Crowe, diretor de Quase Famosos, teria sido uma exceção. "Era um deslumbrado. Em suas matérias, todos os roqueiros eram simpáticos", espeta Marcus.

Embora Marcus seja inteligente demais para embarcar nesses deslumbramentos de fã, ele às vezes peca por uma reverência romântica. Ao tratar a música pop como grande arte, sua geração contribuiu para que todo adolescente com espinhas na cara e uma guitarra nas mãos se imagine a reencarnação de Mozart. A turma de Marcus levou-se a sério demais, a ponto de cobrar dos artistas canções "sérias" e com mensagens politizadas – é por causa disso que a Rolling Stone execrou bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath por anos. Passado o clima "revolucionário" dos anos 60 e 70, o pop reencontrou sua inconseqüência juvenil. E a crítica também mudou. Hoje, os "pensadores" do rock são figuras como o escritor inglês Nick Hornby, que não tem pudor em elogiar uma canção banal mas agradável como I'm Like a Bird, de Nelly Furtado. Os decanos da Rolling Stone provavelmente considerariam isso uma heresia. Mas o fato é que Hornby redescobriu uma das maiores qualidades da música pop: sua leveza.

 

OS JULGAMENTOS DE MARCUS


Lee Celano/Reuters


"Nunca houve um artista tão consciente da herança do rock'n'roll quanto Bruce Springsteen..."

"Like a Rolling Stone, de Bob Dylan, é a maior canção da história do rock americano."

 

 
 
 
 
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