Edição 1964 . 12 de julho de 2006

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A cenografia da maldade

A melhor biografia de Adolf Hitler disseca
os elementos teatrais de sua personalidade


Jerônimo Teixeira

Fotos divulgação

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Trecho do livro

É bem conhecida a admiração que a cúpula nazista nutria pela obra de Richard Wagner – um músico brilhante, mas também um raivoso anti-semita. Entretanto, na segunda parte de sua conceituada biografia Hitler (vários tradutores; Nova Fronteira; 528 páginas; 59,90 reais), que acaba de ser reeditada, o historiador alemão Joachim Fest observa que o führer estava longe de ser um verdadeiro apreciador de música. Adolf Hitler assistia a Tristão e Isolda e a outras óperas de Wagner sempre que podia. Mas nunca saiu do teatro comentando a performance da orquestra ou dos cantores. Sua atenção voltava-se inteiramente para a cenografia. Esse pendor para o teatro é um traço fundamental de sua personalidade e de sua atuação política. Hitler certa vez se intitulou "o maior ator da Europa". Fest demonstra o acerto dessa definição: o talento dramático de Hitler foi um fator essencial da mistificação das massas pelo nazismo.

É comum imaginar Hitler como um líder alucinado, sedento de poder e propenso a ataques de fúria descontrolada – foi mais ou menos assim que ele foi satirizado por Charles Chaplin em O Grande Ditador. Fest promove uma alteração pequena mas significativa no clichê: no lugar da raiva irracional, aparece o ódio calculado. Hitler planejava cada gesto – até mesmo aqueles proverbiais arroubos coléricos em que ele vociferava até ficar com a boca espumando. Amparado em uma documentação massiva (a bibliografia e as notas do livro compreendem mais de setenta páginas), Fest traçou um retrato perturbador do líder que conduziu o genocídio de 6 milhões de judeus e levou a Alemanha a uma guerra que devastou a Europa. O primeiro volume da biografia reconstitui a formação e o início da luta política de Hitler – do nascimento na Áustria, em 1889, até 1933, ano em que ele se torna chanceler da Alemanha. O segundo tomo acompanha o biografado nos anos críticos que conduzem até a eclosão da II Guerra Mundial – e daí ao suicídio, em Berlim, depois da derrota alemã, em 1945. Para a atual reedição, a biografia passou por uma revisão criteriosa – com direito a consultas a especialistas em diversas áreas, como a história militar, para garantir a qualidade da tradução e a acuidade das informações.

Entre os numerosos fanáticos que constituíram o Partido Nacional-Socialista durante a República de Weimar, Hitler não se destacaria como um grande teórico do ódio racial. Sua originalidade estava no teatro. Hitler foi o grande mestre da espetacularização da política promovida pelo nazismo. Nos congressos triunfais do partido, Hitler supervisionava pessoalmente os detalhes cenográficos, criando uma liturgia nacionalista feita de desfiles, bandeiras e hinos exaltados. Angariou a fama de orador genial – e no entanto, nota Fest, não foi capaz de cunhar uma só frase memorável (as citações obrigatórias da II Guerra ficariam a cargo de seu adversário inglês, Winston Churchill, com seu famoso "sangue, suor e lágrimas"). Os gestos e a ênfase eram mais importantes do que a retórica.

Nos planos de Hitler para seu Reich ariano, esse pendor para o espetacular estava incorporado. O ditador tinha no arquiteto Albert Speer um de seus mais próximos colaboradores. Sentia prazer em discutir reformas urbanas para Berlim, mas se importava apenas com grandiosos prédios públicos e arcos do triunfo – entediava-se quando Speer sugeria planos para bairros residenciais. Sempre consciente de sua própria imagem, Hitler não era um homem espontâneo. Tirava fotos toda vez que experimentava roupas novas, para se certificar de que lhe caíam bem, antes de aparecer em público. Também escondia zelosamente todas as manifestações de alegria – costumava encobrir o sorriso com a mão e não gostava de ser surpreendido quando brincava com seus cachorros. Essa vigilância permanente para não desfazer a pose teatral tinha seu custo em neurose. Hitler era hipocondríaco, e não é implausível que a ingestão maníaca de todo tipo de remédio tenha contribuído para a visível decadência física de seus últimos anos (também há quem especule que suas tremedeiras fossem causadas pela doença de Parkinson). Ele era ferozmente reservado. Apesar de submeter seus interlocutores a longos monólogos, não chegava a compartilhar sua intimidade com ninguém. Magda Goebbels, mulher do ministro da Propaganda, foi talvez quem melhor definiu a personalidade do ditador: "Hitler é simplesmente uma impessoa. Não se pode atingi-lo, tocá-lo".

O MAIOR ATOR DA EUROPA
Adolf Hitler em suas longas arengas nos eventos nazistas: o tirano angariou a fama de orador genial, mas não cunhou uma só frase memorável. Seu talento estava nos gestos. Para manter a permanente pose de führer, ele resguardava sua imagem com zelo obsessivo. Nunca aparecia em público com uma roupa nova antes de tirar fotos com ela, para atestar o caimento. Hitler resguardava sua intimidade dos mais próximos – e até escondia a boca quando sorria

 
 
 
 
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