|
|
Especial Como
se forma um pregador Além de freqüentar
cursos de teologia e de oratória, candidatos a pastor agora aprendem
a pregar na TV e portar-se à mesa 
Juliana Linhares
Fotos Fabiano Accorsi  |
ESCOLA DA FÉ
Helton (no centro), professor de mídia cristã, e
Helba, professora de etiqueta: na tela, sorrir sempre; à mesa, comer devagar
|  |
Não é milagre. O nascimento
de um pastor capaz de arrebatar multidões ou comandar programas de televisão
campeões de audiência é fruto de uma bem arquitetada operação
em que só vocação espiritual não basta. Para conseguir
pular dos bancos dos templos para os púlpitos, os jovens candidatos a pregador
das igrejas evangélicas de linhas pentecostal e neopentecostal aprendem
de noções de teologia a oratória, passando por técnicas
para apresentação em rádio e televisão e até
etiqueta. Na semana passada, VEJA esteve na sede do Instituto Bíblico das
Assembléias de Deus (Ibad), em Pindamonhangaba, no interior de São
Paulo. Todos os anos, o Ibad forma 210 novos pastores que vão comandar
os mais de 180.000 templos que a Assembléia de Deus hoje a maior
igreja evangélica do Brasil, com 8,6 milhões de fiéis
tem espalhados por todo o país. Embora o curso seja o mesmo para homens
e mulheres, apenas os primeiros podem ser ordenados na função. As
alunas, ao fim do treinamento, formam-se missionárias. Sua tarefa é
abrir novas igrejas. Fundado em 1958,
o Ibad tem estrutura semelhante à de uma boa universidade. Como grande
parte dos alunos vem de regiões distantes do país, seus três
prédios abrigam dormitórios com capacidade para até 100 pessoas:
homens, mulheres e casados são acomodados separadamente. Além das
salas de aula, o instituto dispõe de um moderno estúdio de gravação
de rádio e TV com cinco câmeras e duas ilhas de edição,
onde são ministradas as aulas de "mídia cristã". Nelas, os
alunos aprendem as mesmas técnicas usadas por apresentadores de programas
de televisão. "Termine as frases sempre sorrindo", diz o professor Helton
Souza à aluna Simone Imroth, que veio de Santa Catarina para cursar os
três anos de preparação. "É mais agradável para
os telespectadores", explica. "É importante também olhar diretamente
para a câmera. Dessa forma, você passa confiança para o público."
O que diferencia o curso de TV do
Ibad de uma aula em uma faculdade de comunicação é a rígida
disciplina imposta aos alunos. Há um uniforme para os homens e outro para
as mulheres. Os primeiros têm de estar sempre barbeados e vestindo camisa
de cores sóbrias, com terno e sapatos pretos. As mulheres usam camisa branca,
saia, sapato e casaco escuros. Uma leve maquiagem é permitida para elas.
Em todas as aulas, os professores transmitem aos alunos a noção
de que o pastor é um modelo a ser seguido. "Os fiéis vão
observar como vocês se comportam à mesa, se comem devagar ou afobadamente,
se limpam a boca no guardanapo ou na borda da toalha", ensina a professora Helba
Galvão Lemos, responsável pelas aulas de etiqueta. Nelas, os aspirantes
a pastor aprendem desde como posicionar corretamente copos e pratos na mesa até
a maneira certa de usar o talher de peixe.
Essa grade curricular em que aulas destinadas a aperfeiçoar a relação
entre o pastor e seus fiéis ganham tanto ou mais ênfase do que os
estudos bíblicos tem sido a tônica dos cursos realizados sobretudo
nas igrejas do ramo neopentecostal. Esse grupo, uma dissidência dos pentecostais,
é hoje o que mais arrebanha fiéis no Brasil. A velocidade de seu
crescimento aumenta na mesma proporção em que diminui o tempo exigido
para a formação dos que vão comandar os seus milhares de
templos no país. A Universal do Reino de Deus, por exemplo, do bispo Edir
Macedo, chegou ao paroxismo ao optar simplesmente por abrir mão dos cursos
de formação. Na Universal, os novos pastores são formados
no dia-a-dia da igreja. É observando os mais experientes que os aspirantes
à carreira aprendem de técnicas de exorcismo e cura a métodos
de gerenciamento de templos. "É um modelo funcional para as igrejas. Além
de agilizar o processo de formação, reduz o alto investimento na
preparação de novas lideranças", diz Ricardo Mariano, professor
da PUC do Rio Grande do Sul e autor do livro Sociologia do Novo Pentecostalismo
no Brasil. Entre evangélicos tradicionais, como luteranos e batistas,
a formação de um pastor leva até cinco anos. Além
de um curso superior em teologia, o candidato tem de passar por um estágio
de um ano antes de assumir o comando de um templo.
A diferença nos vários tipos de formação entre os
ramos evangélicos resulta em distintos perfis de pastor para cada igreja.
Uma pesquisa realizada em 2004 pelo psicólogo Rogério Rodrigues
da Silva na Universidade de Brasília mostrou que, enquanto entre os evangélicos
históricos o porcentual de pastores com mestrado e doutorado é de
17%, nos ramos neopentecostais esse número baixa para 1%. "A ênfase
na preparação prática ajuda no crescimento do número
de fiéis, mas a falta de uma base mais sólida pode tornar o atendimento
dos pastores mais precário", afirma o teólogo Lourenço Stelio
Rega. Nas igrejas católicas, a formação de um padre é
um processo que leva dez anos e inclui dois diplomas de graduação
um em teologia e outro em um curso da área de humanas. A manutenção
da tradição tem seu preço: atualmente, segundo estudo inédito
do professor Marcelo Neri, da FGV, apesar de o número de evangélicos
brasileiros ser quase cinco vezes menor que o de católicos, o número
de pastores é quatro vezes maior que o de padres. |