Edição 1964 . 12 de julho de 2006

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Especial
Como se forma um pregador

Além de freqüentar cursos de teologia
e de oratória, candidatos a pastor agora
aprendem a pregar na TV e portar-se à mesa


Juliana Linhares


Fotos Fabiano Accorsi
ESCOLA DA FÉ
Helton (no centro), professor de mídia cristã, e Helba, professora de etiqueta: na tela, sorrir sempre; à mesa, comer devagar


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Usinas de pastores

NESTA EDIÇÃO
Os novos pastores

Não é milagre. O nascimento de um pastor capaz de arrebatar multidões ou comandar programas de televisão campeões de audiência é fruto de uma bem arquitetada operação em que só vocação espiritual não basta. Para conseguir pular dos bancos dos templos para os púlpitos, os jovens candidatos a pregador das igrejas evangélicas de linhas pentecostal e neopentecostal aprendem de noções de teologia a oratória, passando por técnicas para apresentação em rádio e televisão e até etiqueta. Na semana passada, VEJA esteve na sede do Instituto Bíblico das Assembléias de Deus (Ibad), em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo. Todos os anos, o Ibad forma 210 novos pastores que vão comandar os mais de 180.000 templos que a Assembléia de Deus – hoje a maior igreja evangélica do Brasil, com 8,6 milhões de fiéis – tem espalhados por todo o país. Embora o curso seja o mesmo para homens e mulheres, apenas os primeiros podem ser ordenados na função. As alunas, ao fim do treinamento, formam-se missionárias. Sua tarefa é abrir novas igrejas.

Fundado em 1958, o Ibad tem estrutura semelhante à de uma boa universidade. Como grande parte dos alunos vem de regiões distantes do país, seus três prédios abrigam dormitórios com capacidade para até 100 pessoas: homens, mulheres e casados são acomodados separadamente. Além das salas de aula, o instituto dispõe de um moderno estúdio de gravação de rádio e TV com cinco câmeras e duas ilhas de edição, onde são ministradas as aulas de "mídia cristã". Nelas, os alunos aprendem as mesmas técnicas usadas por apresentadores de programas de televisão. "Termine as frases sempre sorrindo", diz o professor Helton Souza à aluna Simone Imroth, que veio de Santa Catarina para cursar os três anos de preparação. "É mais agradável para os telespectadores", explica. "É importante também olhar diretamente para a câmera. Dessa forma, você passa confiança para o público."

O que diferencia o curso de TV do Ibad de uma aula em uma faculdade de comunicação é a rígida disciplina imposta aos alunos. Há um uniforme para os homens e outro para as mulheres. Os primeiros têm de estar sempre barbeados e vestindo camisa de cores sóbrias, com terno e sapatos pretos. As mulheres usam camisa branca, saia, sapato e casaco escuros. Uma leve maquiagem é permitida para elas. Em todas as aulas, os professores transmitem aos alunos a noção de que o pastor é um modelo a ser seguido. "Os fiéis vão observar como vocês se comportam à mesa, se comem devagar ou afobadamente, se limpam a boca no guardanapo ou na borda da toalha", ensina a professora Helba Galvão Lemos, responsável pelas aulas de etiqueta. Nelas, os aspirantes a pastor aprendem desde como posicionar corretamente copos e pratos na mesa até a maneira certa de usar o talher de peixe.

Essa grade curricular – em que aulas destinadas a aperfeiçoar a relação entre o pastor e seus fiéis ganham tanto ou mais ênfase do que os estudos bíblicos – tem sido a tônica dos cursos realizados sobretudo nas igrejas do ramo neopentecostal. Esse grupo, uma dissidência dos pentecostais, é hoje o que mais arrebanha fiéis no Brasil. A velocidade de seu crescimento aumenta na mesma proporção em que diminui o tempo exigido para a formação dos que vão comandar os seus milhares de templos no país. A Universal do Reino de Deus, por exemplo, do bispo Edir Macedo, chegou ao paroxismo ao optar simplesmente por abrir mão dos cursos de formação. Na Universal, os novos pastores são formados no dia-a-dia da igreja. É observando os mais experientes que os aspirantes à carreira aprendem de técnicas de exorcismo e cura a métodos de gerenciamento de templos. "É um modelo funcional para as igrejas. Além de agilizar o processo de formação, reduz o alto investimento na preparação de novas lideranças", diz Ricardo Mariano, professor da PUC do Rio Grande do Sul e autor do livro Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. Entre evangélicos tradicionais, como luteranos e batistas, a formação de um pastor leva até cinco anos. Além de um curso superior em teologia, o candidato tem de passar por um estágio de um ano antes de assumir o comando de um templo.

A diferença nos vários tipos de formação entre os ramos evangélicos resulta em distintos perfis de pastor para cada igreja. Uma pesquisa realizada em 2004 pelo psicólogo Rogério Rodrigues da Silva na Universidade de Brasília mostrou que, enquanto entre os evangélicos históricos o porcentual de pastores com mestrado e doutorado é de 17%, nos ramos neopentecostais esse número baixa para 1%. "A ênfase na preparação prática ajuda no crescimento do número de fiéis, mas a falta de uma base mais sólida pode tornar o atendimento dos pastores mais precário", afirma o teólogo Lourenço Stelio Rega. Nas igrejas católicas, a formação de um padre é um processo que leva dez anos e inclui dois diplomas de graduação – um em teologia e outro em um curso da área de humanas. A manutenção da tradição tem seu preço: atualmente, segundo estudo inédito do professor Marcelo Neri, da FGV, apesar de o número de evangélicos brasileiros ser quase cinco vezes menor que o de católicos, o número de pastores é quatro vezes maior que o de padres.

 
 
 
 
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