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VALE
A PENA
LER DE NOVO
Pequenos trechos de um artigo
de duas páginas, publicado nesta mesma revista, em 1982.
A coisa vem de longe. E não vai parar por aqui.
A arte imita a vida
Há alguns anos, impressionado
com o fanatismo (induzido) pelo futebol, coloquei, num espetáculo
pro MPB-4 (Bons Tempos, hein?), a gravação
dos gous do Brasil na Copa de 70. Ouve-se o locutor, com a jugular
quase estourando: "Braasilll! Brasilll! Brasilll! GOOOOOOL!".
O grito mistura intenções. Incita o povo e agrada
aos poderosos, lá atrás. Ao patrão da tevê,
imediatamente. Mas, acima de tudo, obedece ao "presidente" Médici.
No espetáculo fundimos o grito ufanista GOOOOL!! com
o berro dos torturados políticos. A fusão era perfeita.
"O computador não duvida
o Brasil é campeão!"
Agora, em 82, andando na rua,
eu pensava: "Será que só eu vejo que isso é
o mais genuíno fascismo? Que não passa de mais uma
gigantesca tentativa de nos impor o Big Brother, de calção
e chuteira, arrancando o pior da juventude, levando-a à violência
em nome do 'espírito esportivo', permitindo-lhe cobrar pedágio
na rua, em nome da 'alegria do povo'?"
"O Brasil venceu quando e
como quis!"
Quando a televisão começou,
ainda era meio tímida. O rádio mentia com uma desfaçatez
até cômica. Mas a televisão não ousava
tanto. Sabia que, além de ouvida, era vista. Agora, sobretudo
depois que foi conseguido o "monopólio" (mais um governo
paralelo, além das estatais!), a contrafação
perdeu o pudor você está vendo uma coisa e eles
dizem outra flagrantemente contrária, ridiculamente "patrioooótica".
"É o Braaaasiiiiilllll!
A maior potência futebolística do mundo!"
Por falar em locução.
Nos últimos dez anos os jogadores de futebol, se não
melhoraram como craques, progrediram em nível intelectual.
Já não ouvimos mais o anedótico: "Abraços
aos meus familiares", mas explicações corretas, até
sensatas. Isso é verdade não só com respeito
a Sócrates que por ter "diploma" o pessoal respeita
, como também com relação a Eder, Zico
e outros, que vi falando coisas tranqüilas, até mesmo
modestas. Enquanto isso os locutores, que já eram ruins,
com "poder" ficaram piores. E acertam regência com mais dificuldade
do que Brasil o gol.
Reprodutores
Não conheço ser
humano que mereça, hoje, mais atenção
seja física, psíquica ou econômica , que
seja mais bem tratado, paparicado, envaidecido, do que as odaliscas
do pebolismo. A ameaça de uma unha encravada ou de uma espinha
no nariz traz preocupações, descrições
inacreditavelmente "científicas", tratamentos com superdrogas,
cuidados que chegam a banheiras com águas de rosas e leite
de cabra, massagens eróticas com especialistas orientais.
E manchetes. Manchetes. Manchetes. Nem um garanhão da hípica
cujo sêmen está valendo milhões
tem tal tratamento. Mesmo porque o psíquico cavalar não
é cultivável por manchetes de jornais.
"Um futebol de outra galáxia!"
Mas o que me deixou mesmo rubro
de vergonha foi o cinismo com que todos, até os jornalistas
mais respeitáveis, invectivavam, no dia seguinte: "Eu não
disse? É uma vergonha!". Certos de que ninguém ia
ler de novo e a memória é curta. Minha memória
é razoável e leio pra trás. Tenho uma vasta
experiência de mistificação histórica.
Sei, por exemplo, que Átila só ficou na História
como "o flagelo de Deus" porque fez os romanos arriarem as calças.
Claro, tinha que ser chamado de bárbaro. Além disso
erro dos erros! , não tinha, em sua equipe,
nenhum cronista. Nenhum historiador. Você conhece algum historiador
huno?
"A
Itália é um prato feito"
Relatório, paranóico?,
do preparador físico Moacyr Santana: "A Seleção
trocou até agora 346 passes nos 3 (três) jogos da 1ª
(primeira) fase da Copa, errando apenas 101 passes, numa média
de 30 por jogo. Mais importante que isso: foram 389 tentativas de
gol, sendo 43 chances reais de marcar, num total de 10 gols a favor
e 3 contra, 303 passes contra a União Soviética, 415
contra a Escócia e 548 contra a Nova Zelândia..." Etecétera,
etecétera, etecétera. (Dizem os jornais, louvando,
que o relatório tinha 28 páginas.)
E AINDA NÃO HAVIA INTERNET
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