Edição 1964 . 12 de julho de 2006

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Pequenos trechos de um artigo de duas páginas, publicado nesta mesma revista, em 1982. A coisa vem de longe. E não vai parar por aqui.

A arte imita a vida

Há alguns anos, impressionado com o fanatismo (induzido) pelo futebol, coloquei, num espetáculo pro MPB-4 (Bons Tempos, hein?), a gravação dos gous do Brasil na Copa de 70. Ouve-se o locutor, com a jugular quase estourando: "Braasilll! Brasilll! Brasilll! GOOOOOOL!". O grito mistura intenções. Incita o povo e agrada aos poderosos, lá atrás. Ao patrão da tevê, imediatamente. Mas, acima de tudo, obedece ao "presidente" Médici. No espetáculo fundimos o grito ufanista GOOOOL!! com o berro dos torturados políticos. A fusão era perfeita.

"O computador não duvida – o Brasil é campeão!"

Agora, em 82, andando na rua, eu pensava: "Será que só eu vejo que isso é o mais genuíno fascismo? Que não passa de mais uma gigantesca tentativa de nos impor o Big Brother, de calção e chuteira, arrancando o pior da juventude, levando-a à violência em nome do 'espírito esportivo', permitindo-lhe cobrar pedágio na rua, em nome da 'alegria do povo'?"

"O Brasil venceu quando e como quis!"

Quando a televisão começou, ainda era meio tímida. O rádio mentia com uma desfaçatez até cômica. Mas a televisão não ousava tanto. Sabia que, além de ouvida, era vista. Agora, sobretudo depois que foi conseguido o "monopólio" (mais um governo paralelo, além das estatais!), a contrafação perdeu o pudor – você está vendo uma coisa e eles dizem outra flagrantemente contrária, ridiculamente "patrioooótica".

"É o Braaaasiiiiilllll! A maior potência futebolística do mundo!"

Por falar em locução. Nos últimos dez anos os jogadores de futebol, se não melhoraram como craques, progrediram em nível intelectual. Já não ouvimos mais o anedótico: "Abraços aos meus familiares", mas explicações corretas, até sensatas. Isso é verdade não só com respeito a Sócrates – que por ter "diploma" o pessoal respeita –, como também com relação a Eder, Zico e outros, que vi falando coisas tranqüilas, até mesmo modestas. Enquanto isso os locutores, que já eram ruins, com "poder" ficaram piores. E acertam regência com mais dificuldade do que Brasil o gol.

Reprodutores

Não conheço ser humano que mereça, hoje, mais atenção – seja física, psíquica ou econômica –, que seja mais bem tratado, paparicado, envaidecido, do que as odaliscas do pebolismo. A ameaça de uma unha encravada ou de uma espinha no nariz traz preocupações, descrições inacreditavelmente "científicas", tratamentos com superdrogas, cuidados que chegam a banheiras com águas de rosas e leite de cabra, massagens eróticas com especialistas orientais. E manchetes. Manchetes. Manchetes. Nem um garanhão da hípica – cujo sêmen está valendo milhões – tem tal tratamento. Mesmo porque o psíquico cavalar não é cultivável por manchetes de jornais.

"Um futebol de outra galáxia!"

Mas o que me deixou mesmo rubro de vergonha foi o cinismo com que todos, até os jornalistas mais respeitáveis, invectivavam, no dia seguinte: "Eu não disse? É uma vergonha!". Certos de que ninguém ia ler de novo e a memória é curta. Minha memória é razoável e leio pra trás. Tenho uma vasta experiência de mistificação histórica. Sei, por exemplo, que Átila só ficou na História como "o flagelo de Deus" porque fez os romanos arriarem as calças. Claro, tinha que ser chamado de bárbaro. Além disso – erro dos erros! –, não tinha, em sua equipe, nenhum cronista. Nenhum historiador. Você conhece algum historiador huno?

"A Itália é um prato feito"

Relatório, paranóico?, do preparador físico Moacyr Santana: "A Seleção trocou até agora 346 passes nos 3 (três) jogos da 1ª (primeira) fase da Copa, errando apenas 101 passes, numa média de 30 por jogo. Mais importante que isso: foram 389 tentativas de gol, sendo 43 chances reais de marcar, num total de 10 gols a favor e 3 contra, 303 passes contra a União Soviética, 415 contra a Escócia e 548 contra a Nova Zelândia..." Etecétera, etecétera, etecétera. (Dizem os jornais, louvando, que o relatório tinha 28 páginas.)

E AINDA NÃO HAVIA INTERNET

 
 
 
 
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