Edição 1964 . 12 de julho de 2006

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Carta ao leitor
Concorrência virtuosa

 
Anderson Schneider
Auto-ajuda para todos: pastores evangélicos dão conselhos práticos

Tratar com neutralidade de assuntos relacionados a religião é um dos maiores desafios intelectuais que um ser humano pode enfrentar. Ao retratar um dos fenômenos sociais mais interessantes do Brasil nos últimos anos, o da religião ao estilo auto-ajuda – basta chegar, rezar, pagar e sair com alguma graça –, é fácil cair na tentação de exagerar suas vantagens ou execrar suas vulnerabilidades. Entre as virtudes, alguém sempre terminará citando a superioridade funcional do protestantismo, como se o mundo inteiro pudesse reproduzir as condições que geraram o esplendor capitalista dos países anglo-saxões. Entre os defeitos, o mais ressaltado costuma ser a exploração da religiosidade dos crentes por líderes inescrupulosos e argentários.

Na realidade, os evangélicos brasileiros parecem ter pouco de construtores de império com Max Weber debaixo do braço ou de vítimas inermes das raposas dos templos. Um sinal disso é que a geração de pastores especializados em separar os fiéis de seu suado dinheirinho acenando com intervenções milagrosas vem sendo substituída por profissionais com foco em resultados. "Quem está com o cartão de crédito estourado aqui?", pergunta um dos pastores acompanhados pelos jornalistas de VEJA que fizeram a reportagem especial da semana sobre esse tema. Em vez de invocar a oração – e o dinheiro na sacolinha – como forma de convencer Deus a cobrir o rombo, o conselho é de ordem contábil: "Então, vamos para casa fazer uma lista dos gastos que podemos cortar e planejar nossas contas para os próximos três meses". Além de conforto espiritual e do sentimento de inclusão numa comunidade, os brasileiros que aderem às confissões evangélicas encontram nos templos a idéia de que podem assumir o controle de sua vida. Eis aí uma idéia poderosa. Tão poderosa que está afetando outras religiões, em especial a católica. A concorrência na pescaria de almas é feita no Brasil, em contraste com diversas partes do mundo, em clima de coexistência pacífica. Em outras partes do mundo se mata em nome da fé. Entre nós, os pastores de diferentes denominações duelam para ver quem atende melhor às carências espirituais, emocionais e materiais de seu rebanho.

 
 
 
 
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