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Carta ao leitor
Concorrência virtuosa Anderson
Schneider
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para todos: pastores evangélicos dão conselhos práticos |
Tratar com neutralidade de assuntos relacionados a religião é um
dos maiores desafios intelectuais que um ser humano pode enfrentar. Ao retratar
um dos fenômenos sociais mais interessantes do Brasil nos últimos
anos, o da religião ao estilo auto-ajuda basta chegar, rezar,
pagar e sair com alguma graça , é fácil cair na tentação
de exagerar suas vantagens ou execrar suas vulnerabilidades. Entre as virtudes,
alguém sempre terminará citando a superioridade funcional do protestantismo,
como se o mundo inteiro pudesse reproduzir as condições que geraram
o esplendor capitalista dos países anglo-saxões. Entre os defeitos,
o mais ressaltado costuma ser a exploração da religiosidade dos
crentes por líderes inescrupulosos e argentários.
Na realidade, os evangélicos brasileiros parecem ter pouco de construtores
de império com Max Weber debaixo do braço ou de vítimas inermes
das raposas dos templos. Um sinal disso é que a geração de
pastores especializados em separar os fiéis de seu suado dinheirinho acenando
com intervenções milagrosas vem sendo substituída por profissionais
com foco em resultados. "Quem está com o cartão de crédito
estourado aqui?", pergunta um dos pastores acompanhados pelos jornalistas de VEJA
que fizeram a reportagem especial da semana sobre esse tema. Em vez de invocar
a oração e o dinheiro na sacolinha como forma de convencer
Deus a cobrir o rombo, o conselho é de ordem contábil: "Então,
vamos para casa fazer uma lista dos gastos que podemos cortar e planejar nossas
contas para os próximos três meses". Além de conforto espiritual
e do sentimento de inclusão numa comunidade, os brasileiros que aderem
às confissões evangélicas encontram nos templos a idéia
de que podem assumir o controle de sua vida. Eis aí uma idéia poderosa.
Tão poderosa que está afetando outras religiões, em especial
a católica. A concorrência na pescaria de almas é feita no
Brasil, em contraste com diversas partes do mundo, em clima de coexistência
pacífica. Em outras partes do mundo se mata em nome da fé. Entre
nós, os pastores de diferentes denominações duelam para ver
quem atende melhor às carências espirituais, emocionais e materiais
de seu rebanho. |