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André
Petry Arrozita e Feijó "Uma
amostra estupenda da propaganda que o governo julga atender a uma 'grave
e urgente necessidade pública' "
A lei diz que, a três meses da eleição, os governos só
podem fazer campanhas publicitárias em casos de "grave e urgente necessidade
pública". A idéia é evitar que os governantes usem o dinheiro
público para promover a si mesmos ou a seus candidatos, fazendo propaganda
de cada tijolo assentado em casa popular, de cada centímetro de asfalto
novo nas estradas. Desde que a proibição entrou em vigor, o presidente
Lula tem feito freqüentes consultas ao Tribunal Superior Eleitoral. A cada
campanha publicitária que lhe cai sobre a mesa, lá vai o presidente
ou seu preposto perguntar ao tribunal: essa pode? As consultas já passam
de dez. E dão uma amostra estupenda do tipo de propaganda que o governo
julga atender a uma "grave e urgente necessidade pública".
Uma delas é para estimular o consumo de arroz e feijão. É.
O governo acha que, em pleno período eleitoral, é preciso fazer
uma campanha para que os brasileiros não deixem de comer aqueles alimentos
que mais freqüentam nossa mesa ou "o par perfeito do Brasil", conforme
o mote da propaganda. A justificativa apresentada é que "a população
brasileira está reduzindo o consumo de arroz" e é preciso estancar
essa tendência sob pena de contribuir para "a obesidade no país".
Como não se deve descuidar da alimentação, isso pode mesmo
parecer coisa de "grave e urgente necessidade pública", mas o próprio
governo, contraditoriamente, esclarece que essa redução do arroz
vem ocorrendo desde 1975! Há mais de trinta anos!
A cartilha da campanha criou dois personagens: Arrozita e Feijó. Arrozita
é um pequeno grão de arroz, com lábios graciosos e gestos
contidos. Feijó é um robusto grão de feijão, com olhos
enormes e corpo avantajado. O convite da cartilha, dirigida a estudantes do ensino
fundamental, é o seguinte: "Descubra com Arrozita e Feijó maneiras
deliciosas e saudáveis de combinar arroz com feijão". No pedido,
o governo faz parecer que, se os brasileiros se esquecessem de Arrozita e Feijó
no período anterior à eleição, algo grave, algo irreparável
poderia se abater sobre nós.
O Tribunal Superior Eleitoral informou ao governo que a campanha poderia esperar
três meses, é claro. Com indisfarçável ironia, o despacho
do ministro Marco Aurélio Garcia, presidente do TSE, detalhou o que as
palavras "grave", "urgente" e "necessidade" significam segundo quatro dicionários
diferentes e, nisso, ocupou três páginas do despacho. Como
ironia final, frisou que os três vocábulos, quando se juntam num
único texto, formam uma expressão que potencializa o significado
isolado de cada um deles. Há
vários casos parecidos. O governo queria fazer, em pleno período
eleitoral, uma campanha publicitária para reduzir filas do INSS
como se esse sintoma degradante da miséria do serviço público
tivesse aparecido ontem. Queria fazer uma campanha para avisar os estudantes das
olimpíadas de matemática... Outra para anunciar onde se pode obter
dentadura nova... A lei proibindo
a propaganda, e autorizando a divulgação apenas do que é
grave e urgente, nem precisava existir. Aliás, nem existe em democracias
mais maduras. Mas, para isso, bom senso e honestidade de intenção
têm de tomar o lugar do trambique, da esperteza e da malandragem. |