Edição 1 657 - 12/7/2000

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Os Wright, Dumont
e Batistinha

"Não nos falta imaginação, mas vivemos em uma sociedade em que isso não é aplaudido. Escrevemos trabalhos científicos, mas temos dificuldade para fazer tecnologia, coisas práticas"

Ilustração: Alê Setti


Os irmãos Wright, Santos Dumont e Batistinha viveram na passagem do século. E tinham muito em comum, pois eram educados e de famílias ricas, aristocratas até. Mas eram diferentes de seus contemporâneos por sua criatividade, por ser irrequietos e novidadeiros. Borbulhavam inventos e descobertas.

Contudo, foram muito diferentes em aspectos decisivos. Os irmãos Wright, Wilbur e Orville, eram filhos de um bispo protestante, intelectual de carteirinha. Mas a mãe, filha de fabricantes de carroça, sabia de ferramentas e tudo ensinou aos filhos, que foram cedo desenhar e construir bicicletas. Daí, foram para os planadores, motorizaram um deles e, pouco antes de Santos Dumont, acabaram dando um vôozinho galináceo, catapultado. Prosseguiram com a fabricação de aeroplanos cada vez melhores, que deram origem a uma grande fábrica de aviões.

Santos Dumont, filho de um engenheiro rico, desde cedo mostrou que era fascinado pelo vôo. Mas foi durante sua educação em Paris que pôde começar a experimentar com balões, em seguida, com balões dirigíveis, terminando com o 14 Bis e o Demoiselle, mais competentes que os aviões americanos. Fez mais alguns aviões, brincou com outras idéias (relógio de pulso, chuveiro, degrau de escada), mas, doente e desmotivado, voltou para o Brasil. Vendo que o avião era usado para a guerra, culminou seu desgosto e se suicidou.

Batistinha, revelado na biografia de Maria Inês Lodi, nasceu em Itabira, filho de ilustre político local. Estudou no famoso Colégio Caraça, seguindo direito e farmácia, em Ouro Preto. Era diabolicamente criativo. Inventava, fazia experimentos químicos, produziu vermífugos. Criou quatro línguas cifradas (seria hoje um bom programador), fazia estatísticas demográficas e genealógicas. Inventava charadas e adivinhações. Escrevia trovas, peças teatrais e contava casos com notável vocação satírica. Desenhava bem mulheres nuas, para a alegria dos estudantes. No quadro-negro da sala, pela noite afora, tirava raízes quadradas enormes. Instalou eletricidade em Itabira (aproveitando para dar choque nos curiosos).

Entre os quatro não havia diferença nos dotes, curiosidade científica ou engenho. A diferença estava na sociedade. Já então, a pragmática sociedade americana glorificava as realizações práticas. Naquele início de século, a cada ano 30.000 patentes eram registradas. O sucesso lá não se mede pelas honrarias, mas pelas vendas da fábrica. Apesar de filhos de bispo, fabricavam bicicletas com as próprias mãos, passando depois para os aviões.

Santos Dumont desenhou balões dirigíveis e aviões, construídos por seus operários. Sentiu-se realizado pelas glórias e pelos prêmios. Mas não quis patentear nada e com galhardia distribuiu um prêmio entre os pobres. Refletia seu Brasil e a França de então, onde os aristocratas inventam, mas não fabricam.

Batistinha, lá nas lonjuras de Itabira do Mato Dentro, inventava remédios, teoremas e linguagens cifradas. Quando se acabaram as mercadorias, fechou a loja herdada do pai. Usou sua maior criatividade e energia para fazer o que a sociedade local apreciava: o beletrismo. A idéia de construir uma fábrica de vermífugo não alçou vôo. Foi um produto de seu meio, parecido com muitos outros Batistinhas, cujos engenhos e talentos se desperdiçaram.

Essas quatro figuras são ícones das diferenças que nos separam dos Estados Unidos. Escrevemos trabalhos científicos, mas temos dificuldade para fazer tecnologia, coisas práticas (hoje registramos de 3.000 a 5.000 patentes por ano e vinte vezes mais publicações científicas, enquanto nos Estados Unidos há mais patentes que publicações). Não nos falta imaginação, mas vivemos em uma sociedade em que isso não é aplaudido (um padre gaúcho, que andou na frente de Marconi nos experimentos com rádio, foi expulso de sua paróquia por bruxaria). Há avanços e esperanças, mas tudo depende de aprendermos a não desaproveitar nossos Batistinhas.

Claudio de Moura Castro é economista (Claudiomc@attglobal.net)