Que há num nome?
A rosa não seria a
mesma?
Considerações miúdas
sobre as denominações
dos partidos políticos
e uma homenagem,
ao final
Considere-se o Prona. O leitor já dedicou trinta
segundos de atenção ao Prona? Ao Prona talvez
não, mas ao doutor Enéas sim. O doutor Enéas
é aquele que se candidata sempre a presidente. Ele
se expressa aos berros, o rosto sempre fechado, numa carranca
assustadora. Pois o Prona, o partido de Enéas, é
ainda mais assustador. Atente-se para o que quer dizer Prona.
Quer dizer: Partido de Reedificação da Ordem
Nacional. É de gelar os ossos. Trata-se de um partido
que se propõe a reedificar, vale dizer, refazer,
de cabo a rabo, de fio a pavio, a Ordem Nacional, seja lá
o que isso for. Os mais sarcásticos identificarão
uma certa dose de candura entre os militantes do Prona.
Se se propõem a reedificá-la, é porque
supõem a existência de uma Ordem Nacional,
o que nem para todos está claro. O que prevalece,
no entanto, é antes o susto, diante de recurso tão
drástico quanto a invocação da Ordem
Nacional, ainda mais com o propósito de reedificá-la.
Já se ouve o rumor dos tambores... Já se sente
o estrépito das botas....
O nome dos partidos será o tema desta página.
E se, sem outra referência, tivéssemos de escolhê-los
pelos nomes? Duro seria pinçar, para alguém
que, por algum motivo são ou doentio , se fixasse
na palavra "trabalhista", um entre os vários que
a ostentam. Além dos dois mais conhecidos, o Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Democrático
Trabalhista (PDT), há o Partido Trabalhista Nacional,
o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, o Partido Social
Trabalhista e o Partido Trabalhista do Brasil. Somam seis,
dos trinta partidos registrados no Brasil 20%. Se acrescentarmos
os que adotam a palavra "trabalhadores", teríamos
mais três: o conhecido Partido dos Trabalhadores (PT)
e ainda o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados
(PSTU), assíduo nas manifestações movidas
a ovos e pauladas, e o curioso Partido Geral dos Trabalhadores,
que em sua palavra do meio remete a uma peremptória,
ainda que indecifrável, generalidade.
Seria de concluir que falta imaginação aos
batizadores de partido. É sempre "trabalhista" ou
"dos trabalhadores". Quando não, é "social",
ou "democrático", ou "progressista". Mas há
quem saia desse ramerrão. Na década de 80,
havia um Partido da Juventude. Hoje, há um Partido
dos Aposentados da Nação. Pena que não
tenham ambos deslanchado. Caso se tornassem dominantes,
no cenário nacional, teríamos um duelo, entre
aposentados, de um lado, e jovens, de outro, nominalmente
nítido como nunca podem ser os duelos entre um "social"
e um "democrático", "um trabalhista" e um "progressista".
O Partido da Juventude conheceu um momento de glória
quando a ele se filiou um então jovem ou mais
ou menos jovem governador de Alagoas, Fernando Collor
de Mello. O nome, porém, não durou. Foi mudado
para Partido da Reconstrução Nacional. Aboletado
na Presidência, o partido reconstrutor escreveu uma
das mais destruidoras páginas da história
pátria.
Não é de hoje que os nomes dos partidos
não dizem nada, ou que os partidos praticam o contrário
do que dizem seus nomes. Na época do Império,
quando se alternavam no gabinete os partidos Liberal e Conservador,
um senador disse, certa vez: "O conservador no Brasil é
necessariamente liberal, porque a Constituição
do Brasil contém instituições santas,
liberais; o conservador quer manter essas instituições;
logo, é liberal". Ao que outro respondeu: "Ao contrário,
a Constituição brasileira contém instituições
santas, liberais; o Partido Liberal quer mantê-las;
logo, o liberal é conservador". Tampouco é
exclusividade brasileira os partidos adotarem nomes repetitivos,
ou redundantes, ou vazios. Nos Estados Unidos, enfrentam-se
o Partido Democrata e o Partido Republicano. Faria sentido
se o Democrata se opusesse a uma ditadura e o Republicano
a uma Monarquia. Como não é o caso, quem desejar
diferenciá-los pelo nome fica com um problema, se
é que o mesmo problema não acomete igualmente
quem deseje diferenciá-los pela prática.
O exposto até aqui não teve outro objetivo
senão introduzir uma homenagem ao grande derrotado
da semana passada, o PRI do México Partido Revolucionário
Institucional. O PRI, desde 1929, ano em que foi fundado,
esteve ininterruptamente no governo. Mais que essa proeza,
porém, conseguiu, ao longo desse tempo todo e
talvez continue a conseguir, agora na oposição
, equilibrar-se no próprio nome. Quando um partido
é "revolucionário", indica que se propõe
a destruir, ou pelo menos virar de cabeça para baixo,
o estado de coisas vigente. Quando é "institucional",
indica o contrário. Pois o PRI, tomado ao pé
da letra, conseguiu ser as duas coisas ao mesmo tempo. Donde
se conclui que o que vale, mesmo, é a célebre
indagação da Julieta de Shakespeare: "Que
há num nome? Acaso a rosa teria outro perfume, se
não se chamasse rosa?" O PRI poderia igualmente chamar-se
Partido Anarquista Conservador (PAC), ou Partido Operário
da Burguesia (POB). Para seus propósitos, daria no
mesmo.