Edição 1 657 - 12/7/2000

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Que há num nome?
A rosa não seria a
mesma?

Considerações miúdas sobre as denominações
dos partidos políticos – e uma homenagem,
ao final

Considere-se o Prona. O leitor já dedicou trinta segundos de atenção ao Prona? Ao Prona talvez não, mas ao doutor Enéas sim. O doutor Enéas é aquele que se candidata sempre a presidente. Ele se expressa aos berros, o rosto sempre fechado, numa carranca assustadora. Pois o Prona, o partido de Enéas, é ainda mais assustador. Atente-se para o que quer dizer Prona. Quer dizer: Partido de Reedificação da Ordem Nacional. É de gelar os ossos. Trata-se de um partido que se propõe a reedificar, vale dizer, refazer, de cabo a rabo, de fio a pavio, a Ordem Nacional, seja lá o que isso for. Os mais sarcásticos identificarão uma certa dose de candura entre os militantes do Prona. Se se propõem a reedificá-la, é porque supõem a existência de uma Ordem Nacional, o que nem para todos está claro. O que prevalece, no entanto, é antes o susto, diante de recurso tão drástico quanto a invocação da Ordem Nacional, ainda mais com o propósito de reedificá-la. Já se ouve o rumor dos tambores... Já se sente o estrépito das botas....

O nome dos partidos será o tema desta página. E se, sem outra referência, tivéssemos de escolhê-los pelos nomes? Duro seria pinçar, para alguém que, por algum motivo – são ou doentio –, se fixasse na palavra "trabalhista", um entre os vários que a ostentam. Além dos dois mais conhecidos, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT), há o Partido Trabalhista Nacional, o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, o Partido Social Trabalhista e o Partido Trabalhista do Brasil. Somam seis, dos trinta partidos registrados no Brasil – 20%. Se acrescentarmos os que adotam a palavra "trabalhadores", teríamos mais três: o conhecido Partido dos Trabalhadores (PT) e ainda o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), assíduo nas manifestações movidas a ovos e pauladas, e o curioso Partido Geral dos Trabalhadores, que em sua palavra do meio remete a uma peremptória, ainda que indecifrável, generalidade.

Seria de concluir que falta imaginação aos batizadores de partido. É sempre "trabalhista" ou "dos trabalhadores". Quando não, é "social", ou "democrático", ou "progressista". Mas há quem saia desse ramerrão. Na década de 80, havia um Partido da Juventude. Hoje, há um Partido dos Aposentados da Nação. Pena que não tenham ambos deslanchado. Caso se tornassem dominantes, no cenário nacional, teríamos um duelo, entre aposentados, de um lado, e jovens, de outro, nominalmente nítido como nunca podem ser os duelos entre um "social" e um "democrático", "um trabalhista" e um "progressista". O Partido da Juventude conheceu um momento de glória quando a ele se filiou um então jovem – ou mais ou menos jovem – governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello. O nome, porém, não durou. Foi mudado para Partido da Reconstrução Nacional. Aboletado na Presidência, o partido reconstrutor escreveu uma das mais destruidoras páginas da história pátria.

Não é de hoje que os nomes dos partidos não dizem nada, ou que os partidos praticam o contrário do que dizem seus nomes. Na época do Império, quando se alternavam no gabinete os partidos Liberal e Conservador, um senador disse, certa vez: "O conservador no Brasil é necessariamente liberal, porque a Constituição do Brasil contém instituições santas, liberais; o conservador quer manter essas instituições; logo, é liberal". Ao que outro respondeu: "Ao contrário, a Constituição brasileira contém instituições santas, liberais; o Partido Liberal quer mantê-las; logo, o liberal é conservador". Tampouco é exclusividade brasileira os partidos adotarem nomes repetitivos, ou redundantes, ou vazios. Nos Estados Unidos, enfrentam-se o Partido Democrata e o Partido Republicano. Faria sentido se o Democrata se opusesse a uma ditadura e o Republicano a uma Monarquia. Como não é o caso, quem desejar diferenciá-los pelo nome fica com um problema, se é que o mesmo problema não acomete igualmente quem deseje diferenciá-los pela prática.

O exposto até aqui não teve outro objetivo senão introduzir uma homenagem ao grande derrotado da semana passada, o PRI do México – Partido Revolucionário Institucional. O PRI, desde 1929, ano em que foi fundado, esteve ininterruptamente no governo. Mais que essa proeza, porém, conseguiu, ao longo desse tempo todo – e talvez continue a conseguir, agora na oposição –, equilibrar-se no próprio nome. Quando um partido é "revolucionário", indica que se propõe a destruir, ou pelo menos virar de cabeça para baixo, o estado de coisas vigente. Quando é "institucional", indica o contrário. Pois o PRI, tomado ao pé da letra, conseguiu ser as duas coisas ao mesmo tempo. Donde se conclui que o que vale, mesmo, é a célebre indagação da Julieta de Shakespeare: "Que há num nome? Acaso a rosa teria outro perfume, se não se chamasse rosa?" O PRI poderia igualmente chamar-se Partido Anarquista Conservador (PAC), ou Partido Operário da Burguesia (POB). Para seus propósitos, daria no mesmo.