Edição 1 657 - 12/7/2000

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O som é bom...

...mas as letras do Jota Quest continuam
as mesmas: fraquinhas, muito fraquinhas

Sérgio Martins

 
Eugenio Savio
Os músicos da banda: uma turnê como o Brasil nunca viu

A banda Jota Quest é a número 1 do Brasil. Numa época de crise do mercado fonográfico, ela vendeu 800.000 cópias de seu último CD, De Volta ao Planeta. O novo, Oxigênio, chega às lojas nesta semana com estardalhaço. Na sexta-feira 14, os integrantes do grupo caem na estrada para a turnê mais ambiciosa de um grupo de rock brasileiro desde que o RPM, no auge de seu sucesso nos anos 80, percorreu o país com Rádio Pirata ao Vivo. Serão quase dois anos de shows ininterruptos. A excursão só terminará em março de 2002, quando a banda volta ao estúdio para gravar um novo disco. O espetáculo, concebido para empolgar grandes estádios, terá sessenta canhões de luz móveis e cinco telões de vídeo. A banda gastou 500.000 dólares com uma parafernália eletrônica que inclui até equipamentos de mágica, como luvas e baquetas que emitem raios laser. Roqueiros nacionais costumam adaptar suas apresentações às condições dos locais onde tocam. O Jota Quest fará uma excursão no molde das bandas estrangeiras, que levam cenários e equipamentos com elas e apresentam o mesmo show em todos os lugares. Para isso, o grupo usará dois caminhões.

O sucesso do Jota Quest deve-se, em primeiro lugar, ao bom planejamento. Falando claro: seus integrantes são marqueteiros de primeira. Recentemente, fecharam um contrato de patrocínio com uma indústria de refrigerantes. Com isso, embolsaram 1,5 milhão de reais, ganharam verba extra para excursões e ainda divulgaram a música Fácil como um jingle publicitário. Eles também fizeram um acordo com o provedor gratuito Super 11. Por causa disso, o CD Oxigênio será o primeiro a dar, na forma de brinde, acesso livre à internet – o ouvinte poderá, assim, acessar o site da banda. "Lá, haverá jogos eletrônicos e até o nosso e-mail, para quem quiser entrar em contato", alardeia o vocalista Rogério Flausino. Além da estrutura organizada, o Jota Quest tem fôlego. O grupo toca uma média de 22 vezes por mês, sem escolher espaço – pode ser até em rodeios ou exposições de gado, em geral redutos de cantores sertanejos. O cachê por apresentação é de 30.000 reais. Ah, sim, eles são ainda ótimos músicos, um requisito nem sempre obrigatório no cenário do rock brasileiro, como provam os Titãs ou o Legião Urbana. Formada na melhor escola – a dos bailes –, a banda faz um som dançante calcado no funk e na soul music dos anos 70. O baixista Paulo Roberto Diniz Junior, o PJ, é considerado um virtuose no estilo roqueiro.

O calcanhar-de-aquiles do grupo são as letras. O Jota Quest é freqüentemente criticado pelo vazio dos versos de suas músicas, que não querem dizer rigorosamente nada (veja quadro e ouça a música). Ele estaria aquém do que se espera de uma banda que pretende ser porta-voz da juventude, seja lá o que isso for. No entanto, é preciso reconhecer que no Brasil os bons letristas raramente freqüentaram o universo pop, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos e na Inglaterra, pátrias de Lou Reed, Bob Dylan e John Lennon. Na época de ouro da música brasileira, eles pertenciam ao mundo do samba – Noel Rosa, Ary Barroso e Wilson Batista, entre outros. Nos anos 60 e 70, os craques da palavra estavam na MPB, enquanto os roqueiros oscilavam entre as canções infantilóides da jovem guarda e letras num inglês que não fazia sentido. Na década de 80, a da explosão do rock nacional, havia raríssimas coisas interessantes na área do humor – Blitz e Kid Abelha – e no chamado "rock de protesto", de Cazuza e Renato Russo. O pop brasileiro atual, do qual o Jota Quest é o principal representante, reafirma que roqueiros brasileiros que sabem escrever pertencem ao mesmo universo do saci-pererê e da mula-sem-cabeça: aquele das lendas populares.

 
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