Jovens e perigosos
Pesquisa mostra que quanto mais novo é
o motorista maior é o risco de provocar um acidente
grave
Maurício Oliveira
Uma pesquisa divulgada recentemente pelo Journal of
the American Medical Association, publicação
americana de prestígio, diz que carro talvez não
combine com juventude. Os números são estrangeiros,
mas as conclusões são de grande valia para
o território brasileiro. Segundo o estudo, o jovem
corre duas vezes mais risco de provocar um acidente grave
com o carro do que motoristas mais velhos, acima dos 25
anos. Se ele estiver acompanhado de outros rapazes da mesma
faixa etária, o perigo aumenta ainda mais. Um motorista
jovem levando consigo três amigos igualmente jovens
tem três vezes mais probabilidade de se envolver num
acidente fatal do que um jovem que esteja sozinho no carro.
O motivo é que, além de se distrair conversando
com os amigos, o jovem ao volante fica tentado a impressionar
os colegas com manobras pouco seguras. O estudo americano
apontou ainda que o índice de mortalidade entre motoristas
jovens cresce substancialmente depois das 10 horas da noite,
e de forma dramática após a meia-noite. As
razões que levam os jovens a se envolver em acidentes
são as mesmas de sempre: necessidade de auto-afirmação,
propensão para desafiar limites e boas doses de inconseqüência.
Um
caso trágico aconteceu no mês passado com quatro
nadadores do Clube de Regatas Flamengo, na cidade do Rio
de Janeiro. Eles saíram de uma festa de confraternização
entre os atletas de alguns clubes da cidade. Dançaram,
divertiram-se e beberam um pouco. Por volta das 2 horas
da manhã, os jovens resolveram ir embora. Eles deixaram
a festa, realizada numa boate da Barra da Tijuca, dizendo
que iam chegar em casa em apenas dez minutos, num trajeto
que demoraria em torno de trinta. Quando voltavam em direção
à Zona Sul, ocorreu o acidente. O carro, um Golf
prata, bateu com violência em um poste localizado
na saída do Túnel Zuzu Angel, na Gávea.
Os corpos foram catapultados para fora do veículo.
O automóvel era guiado por Francisco Almeida, 19
anos. Ele corria acima de 100 quilômetros por hora
no momento do choque. "Francisco conhecia bem as leis de
trânsito, mas, talvez incentivado pelos amigos, excedeu-se",
diz o pai do rapaz, o médico Pedro Almeida.
As estatísticas no Brasil confirmam que os jovens
são, em geral, motoristas mais imprudentes que os
mais velhos. A cada ano, cerca de 6.500
jovens de até 25 anos morrem em acidentes de trânsito
e outros 140.000 ficam feridos.
É um número assustador. De acordo com os últimos
dados do Departamento Nacional de Trânsito, em 1998,
29% dos motoristas que se envolveram em acidentes com mortos
ou feridos pertenciam a essa faixa etária. Isso significa
que, em apenas um ano, 115.000
jovens estavam na direção de um carro no momento
do acidente. Estima-se que 50% tenham ingerido bebidas alcoólicas
ou algum tipo de droga antes de pegar o volante. E o mais
incrível: 11.000 eram
motoristas com menos de 18 anos, o que, geralmente, implica
cumplicidade ou omissão dos pais. "A maioria dos
jovens que se envolvem em acidentes com vítimas já
possui um histórico de batidas menos graves. Isso
significa que os pais devem prestar muita atenção
na maneira como os filhos se comportam no trânsito
e tentar alertá-los dos perigos", diz Salomão
Rabinovich, diretor do Centro de Psicologia Aplicada ao
Trânsito.
O fascínio que o carro exerce no jovem, quase sempre
nos homens, vem desde a adolescência, lá pelos
13 anos. Se as circunstâncias forem propícias
o final de semana numa praia pouco movimentada ou a ausência
de policiamento dentro de um condomínio , os pais
acabam cedendo. Nesse momento, não dá mais
para voltar atrás. Estima-se que, de cada dez jovens
que completam 18 anos, quatro já sabem guiar com
alguma habilidade, o que pressupõe muitas horas de
prática antes das aulas nas auto-escolas. Mas, afinal,
como os pais podem manter o adolescente longe do volante?
E o que fazer com o jovem que já tirou carteira?
Não existe uma receita acabada para nenhum dos casos.
Em primeiro lugar, os especialistas recomendam muita conversa
para que o jovem saiba dos perigos que corre. Em segundo,
pulso firme. Exerça a autoridade e corte o acesso
ao veículo ao primeiro sinal de irresponsabilidade
na condução. Em terceiro, ofereça alternativas.
Dê dinheiro para o táxi ou vá buscá-lo
nas festas. No mais, é passar as madrugadas em vigília
e torcer para que seu filho faça parte do grupo dos
jovens responsáveis.
O Hospital Sarah, de Brasília, tem uma das melhores
iniciativas pedagógicas para jovens que cometem barbeiragens
ao volante. A direção do hospital criou, em
1995, um serviço voltado para os motoristas infratores,
em geral com menos de 18 anos. Eles são encaminhados
pela Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal
para prestação de serviços comunitários
e durante dois meses ajudam a atender pacientes que se acidentaram
no trânsito. Muitos com danos cerebrais ou físicos
irreversíveis. É uma experiência que
eles nunca mais esquecem. Um dos 320 infratores que passaram
pelo serviço é Adir Roberto Dias, 22 anos.
Quando tinha 17, ele pegou o carro da mãe sem autorização
e acabou atropelando um ciclista. A vítima não
morreu, mas os pais de Dias tiveram de pagar as despesas
hospitalares, além de um ano de cesta básica
para a vítima. Simultaneamente, o jovem passou a
colaborar com o Sarah. Ficou dois meses ajudando na fisioterapia
de vítimas do trânsito. A lição
serviu. O rapaz não se envolveu em outros acidentes
e hoje se considera um motorista exemplar. "Percebi que
poderia ser eu numa daquelas camas", recorda. Sábia
observação.
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