Edição 1 657 12/7/2000

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Como eles gastam

Na loja de roupas mais cara do Brasil,
a Daslu, uma fivela de cabelo pode
custar o preço de uma geladeira

Daniela Pinheiro

 
Fotos Antonio Milena
Eliana Tranchesi, a dona, e detalhes da loja: no paraíso de consumo que movimenta 130 milhões de reais por ano, homem não entra

A pobreza está em toda parte no Brasil, mas estudiosos apontam como exemplo mais aterrador de miséria o município alagoano de São José da Tapera. É ali que a Organização das Nações Unidas (ONU) detectou o pior índice de qualidade de vida do país. A classe média pode ser estudada em todo o território nacional, mas o mercado concentra-se em Curitiba na hora de medir a aceitação de um novo produto na praça. Se alguém se dispusesse a eleger um cenário para conhecer o universo dos ricaços brasileiros, a loja de roupas Daslu, de São Paulo, seria o ideal. É lá que milionários do Brasil inteiro vão em busca do terno de lã de seda, do sapato da moda, da camisa, do vestido, da bolsa, da calça comprida... enfim de toda a simbologia exterior do luxo cujo preço não tem lá muita importância.

Os países ricos estão lotados de megastores de luxo, mas provavelmente não há nada no mundo parecido com a Daslu. A inglesa Harrods, as americanas Bergdorf Goodman e Saks Fifth Avenue e as Galeries Lafayette, em Paris, vendem produtos de primeiríssima qualidade e preço elevado. Até aí nada demais. O que as difere da loja paulistana é que se pode sair de todos esses estabelecimentos tendo gasto apenas 20 dólares num guarda-chuva. Os clientes, não importa sua conta bancária, são atraídos pela aura de elegância das lojas, que oferecem cartões de crédito, vendem por catálogo e pela internet. A Barneys New York, onde a princesa Diana freqüentemente comprava, também é visitada por professores de escola, taxistas e balconistas. O modelo de negócio da Daslu é diferente. Só se quer vender para os privilegiados da sociedade, os muito, muito ricos. Ali, uma fivela de cabelo pode custar tanto quanto uma geladeira. Há pares de sapato sendo oferecidos pelo preço de um conjunto completo de móveis para a sala de jantar. Cobra-se por alguns modelos de bolsa o exato valor de um carro do ano. Sair de lá com uma roupa completa – calça, camisa, sapato e bolsa – pode significar o desembolso da mesma cifra gasta na compra de um apartamento de dois dormitórios. É um incrível microcosmo dos ricos brasileiros, um nicho do consumo de elite.

Localizada numa ruazinha arborizada na cidade de São Paulo, a Daslu é a loja mais cara do Brasil. Em 5.000 metros quadrados, estão concentradas oitenta das mais disputadas marcas internacionais. A loja oferece roupas de grifes como Chanel, Christian Dior, Dolce & Gabbana, Donna Karan, Ermenegildo Zegna, Fendi, Givenchy, Gucci, Manolo Blahnik, Prada, Valentino e Yves Saint Laurent. Para se ter uma idéia, o espaço Chanel da Daslu é o que mais fatura por metro quadrado no mundo. Isso mesmo. Mais do que Nova York, Paris ou Milão. Impressionada com a loja, a revista francesa L'Officiel dedicou várias páginas à Daslu numa reportagem intitulada "O que há por trás dos ricos brasileiros". A revista afirma que a loja poderia estar na Rodeo Drive, na Califórnia, ou na Madison Avenue, em Nova York. "A Daslu é uma das lojas mais inovadoras e incomparáveis da indústria da moda", comenta Eric Silverman, diretor internacional da Dolce & Gabbana.

 
A equipe de vendedoras: filhas de famílias ilustres e salários de até 8 000 reais: (em pé) Donata Bordon, Cecília Street Barros, Fabiana Smith Ribeiro do Valle, Patrícia Lunardelli, Adriana Hafers Gonçalves, Carolina Afonso Ferreira Nunes, Maria Piva de Albuquerque, Renata Lunardelli, Cristiane Simonsen, Fernanda Simonsen, Gabriele Figueiredo Freire, (sentadas) Lucila Matarazzo Carraro, Sofia Alckmin, Paula Pastore, Fabiana Manzoli Pastore, Daniela Freire Lunardelli, Mariana Penteado

Pelos caixas da loja passam por dia 300 clientes. O faturamento anual está estimado em 130 milhões de reais. O perfil do consumidor médio da loja impressiona. Ele possui motorista particular, anda em carro de luxo, tem casa na praia e renda mensal superior a 40.000 reais. Algumas consumidoras fretam jatinhos para fazer compras e voltar no mesmo dia à cidade em que moram. A deputada federal Maria Lúcia Cardoso, mulher do vice-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso, é uma que se deslocou a São Paulo de avião fretado só para comprar na Daslu. "Na última viagem em que a acompanhei no aviãozinho do marido, os gastos ficaram na ordem de 30.000 reais", conta a colunista social e amiga Teresa Yilcar. Existem três tipos de compradoras da loja. O mais comum é o que aparece por lá e compra o que quer. Um segundo tipo, mais especial, recebe convites para os desfiles e tem direito de escolher as peças antes que sejam colocadas em exposição. Um terceiro nível de clientes pede e recebe uma mala de roupas em casa contendo os últimos lançamentos. Nesse patamar estão as vips que compram algo como 400.000 reais em roupas por ano.

A socialite paulista Leni Fiorese integra esse terceiro e exclusivíssimo time. Casada com um empreiteiro, costuma visitar a Daslu dia sim, dia não. "Todo dia tem coisa nova e você se informa de tudo o que está acontecendo na moda sem precisar viajar para o exterior", diz. A cada visitinha, um cheque. "Não consigo não comprar nada", afirma. No inverno passado, quando os xales de pashmina estavam no auge, ela chegou a comprar dez modelos. Cada um saiu por cerca de 2.000 reais. Para dar conta do imenso closet, o marido a presenteou com três apartamentos de um quarto, que estão sendo reformados só para abrigar as roupas de Leni. "Fica tudo muito amontoado e eu nem sei o que tenho", conta.

Gastos como os de Leni Fiorese são exorbitantes, mas fica entendido que o peso relativo dos números varia conforme o tamanho da conta bancária. O ator Arnold Schwarzenegger, dono de uma fortuna de 700 milhões de reais, pagou 55 milhões de reais por um jatinho. É um valor astronômico, mas consumiu apenas a décima terceira parte de seu patrimônio. Seria o mesmo que uma pessoa dona de um capital de 250.000 reais gastar 20.000 reais num avião. Outro exemplo? O atacante Ronaldinho comprou há algum tempo uma Ferrari de 500.000 reais (já vendeu). O carro custou pífio 0,6% de sua fortuna pessoal, estimada em 80 milhões de reais. Para alguém que possui 100.000 reais na poupança, seria o mesmo que gastar 600 reais em um carro. O mesmo se pode dizer das pessoas que consomem 400 000 reais por ano em roupas na Daslu.


As "aventaizinhas" a postos: cerca de 100 funcionárias vestidas com roupas de copeira e com salários de 1 000 reais, em média, passam o dia dobrando as caríssimas roupas que as vendedoras espalham pela loja

Uma forma de dimensionar o grau de riqueza e o poder de compra das clientes Daslu é observar o salário pago às vendedoras da casa: até 8.000 reais por mês, o que as transforma em habitantes do topo da pirâmide social brasileira. Há sessenta vendedoras na loja e uma lista de espera de 1.500 meninas. Para candidatar-se à vaga é preciso ser bonita e possuir um sobrenome famoso, de elite. Integram o quadro representantes das famílias Matarazzo, Simonsen, Lunardelli, Pastore, Hafers, Bordon. Há também filhas de políticos, como Sofia Alckmin, filha do candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin. "Trabalhando lá, elas conseguem muita projeção e ainda mais status na sociedade", diz o colunista social paulista Cesar Giobbi. É o caso da modelo Mariana Penteado, de 23 anos. Filha de empresários de Campinas, comprava roupa na Daslu desde os 14 anos. Usa um Rolex com diamantes, dirige um Cherokee e namora o filho do ex-presidente da Bolsa de Valores de São Paulo, Eduardo Rocha Azevedo. Como a maioria das vendedoras, Mariana gasta boa parte de seu salário dentro da loja. Na semana passada, adquiriu um par de óculos Prada por 500 reais e uma estola de pele de coelho por 800 reais.

A Daslu começa a impressionar do lado de fora. Não há outro ponto do país onde se possam ver filas tão extensas formadas por carros como BMW, Volvo, Audi e Cherokee. Há 25 seguranças e manobristas contratados pela loja dando apoio aos clientes. Não há letreiro, placas ou vitrines que identifiquem o estabelecimento, apenas um singelo "D" na entrada. "Mas a gente consegue sentir pelo cheiro de dinheiro", brinca a empresária paulista Joyce Hahn, cuja família possui uma casa de 1 milhão de reais no litoral paulista, para onde se desloca de helicóptero. Ela vai à Daslu uma vez por semana "só para dar uma voltinha". Toda peça de roupa comprada por uma pessoa é gravada num arquivo de computador. Se há um casamento importante na cidade, as vendedoras recorrem ao computador e dizem às clientes quais vestidos foram vendidos, quantos e quem comprou. Tudo para evitar constrangimentos. Imagine pagar 20.000 reais por um vestido de noite e dar de cara com uma amiga numa festa trajando a mesma roupa.

 
Eduardo Queiroga


Assim gasta uma vip

A médica Graça Silveira está entre as maiores consumidoras da Daslu. Clientes como ela abastecem o guarda-roupa todo ano com pelo menos

20 bolsas
35 pares de sapatos
15 blazers
15 vestidos de noite
20 tailleurs
10 calças jeans
6 jaquetas

TOTAL: 400 000 reais

A médica Graça Silveira: guarda-roupa avaliado em 5 milhões de reais  

É muito fácil se perder nesta loja que é um labirinto formado por onze casas. Em dez minutos, não se sabe mais por onde se entrou e em que direção fica a saída. São tantos os corredores, os vestidos pendurados, as estantes de sapatos e as prateleiras lotadas de botas que o stress visual misturado à gigantesca área pode causar náuseas. A divisão de roupas é feita por grifes e cores. Um cômodo é o espaço Salvatore Ferragamo, por exemplo. Outro é a "sala do preto", só com roupas dessa cor. Para manter tudo sempre arrumado, a Daslu possui um exército de 100 empregadas uniformizadas, que são chamadas de "aventaizinhas". Elas passam o dia dobrando roupas. Funciona assim: uma cliente chega e é atendida pela vendedora, que tira tudo das prateleiras. Quando acaba de mostrar a roupa, a aventalzinha – que permanecia encostada na parede – entra em ação e começa a dobrar tudo. Nesse mundo dos sonhos, os homens são proibidos de entrar. Motivo: não há provadores de roupas e as clientes ficam nuas no meio dos corredores. O homem que quiser comprar na Daslu feminina tem de chamar uma vendedora, que leva cada peça até ele.

Na Daslu Homem, um pedaço da loja dedicado à moda masculina (há uma terceira para crianças), o clima é um pouco diferente. Lá, mulher entra. Além dos deslumbrantes espaços para as grifes internacionais, ainda há uma tabacaria, uma livraria e uma área ocupada por cristais e louças para presente. Há também uma agência do BankBoston só para a clientela. Uma vez por ano, o sobrinho do estilista Ermenegildo Zegna vem pessoalmente fazer ternos sob medida para clientes exclusivos ao preço de 5.000 reais. Um dos mais assíduos consumidores é o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães. Ele já presenteou o presidente Fernando Henrique Cardoso com gravatas da Daslu.


Antonio Milena
A socialite Leni Fiorese ganhou do marido três apartamentos de um quarto para abrigar sua imensa coleção de roupas. Na foto, aparece em um deles. "Todo dia tem coisa nova na Daslu e você se informa de tudo o que está acontecendo na moda sem viajar para o exterior", diz. A cada visitinha, ela assina um cheque. "Não consigo não comprar nada", afirma


A essa altura, como não se perguntar como surgiu a Daslu? Em 1958, as amigas Lourdes e Lúcia eram donas-de-casa de classe média alta que gostavam de manejar a tesoura. Do nome das duas, vem o tal "lu". É um nome tão esquisito quanto "Dasdô" ou "Dasgraça". Em 1983, a filha de Lúcia, Eliana Tranchesi, assumiu o negócio. Foi ela quem teve a idéia de passar a importar roupas de grife quando a importação foi liberada, no começo da década de 90. Até então, consumir moda significava sair do Brasil com malas vazias para abastecê-las lá fora. "Eu me lembro que a gente voltava com tanta mala que precisava ocupar até três táxis na hora de deixar o aeroporto", lembra Eliana. "Por eu passar pela mesma coisa, sentir a mesma demanda, acho que acertei a mão", afirma. Quando as primeiras grifes aportaram no país, os representantes estrangeiros não acreditaram no potencial de um país onde 90% da população possui renda per capita mensal máxima de 643 reais. A rica Eliana sabia o que suas ricas amigas queriam e desejavam.

"Eu quero gastar e gasto porque gosto. É meu prazer. Se posso gastar e isso me dá satisfação, por que não fazê-lo?", diz uma de suas melhores clientes, Maria da Graça Silveira. Filha do dono de uma das maiores frotas de ônibus do Nordeste, Maria da Graça viaja a São Paulo pelo menos quatro vezes por ano para comprar na Daslu. Suas roupas estão espalhadas em quatro endereços: Natal, Rio de Janeiro, Miami e Nova York, onde guarda seus casacos de pele. A Imelda Marcos potiguar possui mais de 120 bolsas e uns 200 pares de sapatos. Se não doasse tanto, teria uma coleção muito maior. Segundo suas contas, seu guarda-roupa está avaliado em 5 milhões de reais: "Pelo menos 90% dele são peças da Daslu".

 

O perfil de quem compra

Renda familiar superior a 40 000 reais mensais
Três viagens por ano ao exterior
Casa própria com valor médio de 500 000 reais
Motorista particular
Quatro empregadas em casa

 

 

"Eu não piso mais na Daslu"

Antonio Milena
Emily Cochrane: chateada com o tratamento recebido na loja


De uma família de banqueiros, a socialite paulista Emily Cochrane, de 52 anos, poderia gastar muito na Daslu. Mas não o faz. Ela explica a razão pela qual não pisa mais na loja:
 

"Costumo gastar somas razoáveis em butiques. Quando gosto de uma coleção de roupas, posso desembolsar 30 000 ou 40 000 reais em um dia. Sempre me disseram que na Daslu eu encontraria coisas interessantes, tão boas quanto no exterior. Pode até ser verdade, mas as três visitas que fiz à loja me dão razão para dizer com todas as letras: 'Eu não piso mais na Daslu'. E a razão é muito simples. Fui desprezada demais ali. As vendedoras, todas filhas de socialites ou de gente que algum dia foi socialite, te tratam como um zé-ninguém se não sabem quem você é. Aquela turma de menininhas ricas, de nariz empinado, fica circulando pela loja e nem sequer olha para você. Comigo aconteceu o seguinte. Entrei na loja e fiquei bom tempo olhando as coisas, mexendo nas roupas e ninguém nem me deu um bom-dia. Olha, eu poderia fazer um cheque alto, poderia pagar à vista e aumentar o faturamento deles. Por isso, não admito a indiferença. Eu jogo tranca com a mãe da diretora da loja. Ela sempre me diz: 'Vamos lá que eu te apresento uma vendedora e você vai ser tratada feito rainha'. Mas é exatamente isso que me irrita: precisar que alguém saiba meu sobrenome para me tratar bem. Eu tenho duas sobrinhas que trabalham lá. Poderia muito bem ser atendida por elas, mas não quero. Quero ser atendida por qualquer uma da melhor forma possível. A Daslu pode ter roupas lindas, mas eu passo longe de lá".

 

 
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