Edição 1 657 12/7/2000

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Eles aos olhos do Leão

Levantamento inédito com dados da Receita revela
quantos são, quanto ganham e no que trabalham
os ricos brasileiros que pagam impostos

César Nogueira

 
Fotos Alexandre Sant'Anna/Strana/Antonio Milena/Liane Neves
Só um em cada 60 000 brasileiros ganha mais de meio milhão de reais por ano. Para encontrar um deles seria necessário lotar duas vezes o Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Entre os nove que ganham mais de 10 milhões por ano, há cinco empresários, dois empregados do setor privado, um que vive de rendas. O outro, quem diria, é servidor público

Com os dados dos computadores da Receita Federal foi possível extrair uma fotografia fiel dos ricos brasileiros que pagam impostos. O que se vê na imagem formada pelas estatísticas parece um daqueles retratos de família da antiga nobreza. Em primeiro plano destacam-se apenas nove cidadãos – sete homens e duas mulheres. Eles declaram ter um patrimônio médio de 200 milhões de reais e informam ao Fisco ter ganhos superiores a 10 milhões de reais por ano. É uma renda espantosa. Essas pessoas ganham quase 1 milhão de reais por mês ou o suficiente para comprar um automóvel Marea por dia. Um passo atrás, mas em lugar igualmente destacado na foto, surgem os 27 contribuintes que recebem entre 5 e 10 milhões de reais por ano. Essa turma precisa de apenas quinze minutos para embolsar o que um empregado remunerado com salário mínimo ganharia em um mês inteiro de trabalho. Quando se observa mais ao fundo da cena, o número de pessoas aumenta. Na faixa dos que declaram ganhar entre 1 milhão e 5 milhões de reais por ano, há 616 brasileiros, dos quais dois são menores de 18 anos. Na faixa seguinte, com ganhos entre 500.000 e 1 milhão de reais, cabem 2.093 pessoas. Pronto: este é o quadro dos brasileiros muito, muito ricos.

No Brasil, existem muitas pesquisas a respeito da pobreza. É óbvio que seja assim. A má distribuição de renda é, talvez, o mais grave problema brasileiro. Se não resolvê-lo, é pouco provável que o país consiga superar todos os demais obstáculos que hoje o separam do mundo desenvolvido. Estudar e quantificar a pobreza é, portanto, uma necessidade urgente no Brasil. Com os ricos, isso não acontece. Sabe-se que eles existem. Basta observar suas fotos nas revistas de gente famosa, o crescimento da frota de carros de luxo nas ruas e a clientela das lojas chiques de produtos de elite (veja reportagem). Mas há pouquíssimos estudos a respeito deles. É o caso do levantamento feito por VEJA com dados fornecidos pela Receita Federal. Nunca antes se tinha montado um quadro tão detalhado da riqueza a partir dos dados estatísticos contidos nas declarações de renda. Protegido pelas leis que garantem o sigilo fiscal, o retrato dos milionários da Receita é composto apenas por números e tabelas. Nele não aparece de forma personalizada nenhum Antônio Ermírio de Moraes, Abilio Diniz, Silvio Santos ou o jogador Ronaldinho – embora muito provavelmente eles estejam todos lá.

O levantamento com dados da Receita não dá nomes aos ricos – os situa por Estado, profissão e sexo. Esse quadro tem duas limitações. A primeira é que nele despontam somente os ricos pagadores de impostos, aqueles que todo ano declaram seus ganhos e seu patrimônio ao Leão. Estão ausentes, portanto, os milionários sonegadores ou ligados a atividades ilícitas, como o tráfico de drogas. Um estudo da própria Receita estima que para cada real de riqueza declarado, outro é enviado para fora do país, de modo a fugir da tributação. Ao cruzar os dados das declarações de renda com os da arrecadação da CPMF, o chamado imposto do cheque, a Receita também descobriu que pelo menos 700 bilhões de reais deixam de ser declarados por ano. Isso corresponde a cerca de 40% da renda nacional. A segunda limitação do levantamento é que, no Brasil, é muito comum as pessoas declararem seus bens por cifras abaixo do valor de mercado. O mesmo acontece com a declaração de renda. Descontadas todas essas limitações, nunca se teve no Brasil um quadro assim, em que os muito ricos aparecem todos juntos, agrupados pelas declarações de renda.

Definir estatisticamente os ricos não é tão simples quanto se imagina. Onde passa o cordão de isolamento econômico que separa o pobre do não-pobre e o rico do não-rico? Delimitar essa fronteira é tarefa especialmente complicada no Brasil, onde quem tem renda familiar mensal de 643 reais por cabeça está entre os 10% mais ricos da população. Isso mesmo. Observe-se o que ocorre no vértice ainda mais alto da pirâmide social, aquela região rarefeita em que está colocado apenas um em cada 100 brasileiros. A renda somada do 1% dos brasileiros mais ricos é maior que a dos 50% mais pobres. Pois bem, quanto ganha esse privilegiado 1% de brasileiros? As estatísticas do IBGE informam que têm uma renda familiar per capita de pelo menos 2 200 reais por mês. Exatamente. "Muitos ricos brasileiros não passariam de classe média nos Estados Unidos", explica o economista Ricardo Henriques, diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

No último degrau da pirâmide montada com os dados da Receita sobre os ricos que pagam impostos estão os milionários com renda superior a meio milhão de reais por ano. Eles são espécimes raríssimos. Apenas um entre 60.000 brasileiros está nessa categoria, o que corresponde a ínfimo 0,001% da população em geral. Pelo cálculo das probabilidades, seria preciso lotar duas vezes o Estádio do Pacaembu, em São Paulo, para encontrar um único desses multimilionários. Em sua maioria são homens brancos (93% do total), com idade acima de 40 anos, moradores da Região Sudeste. Quando se examinam as atividades que exercem, as surpresas são estonteantes. Entre eles estão um delegado de polícia, um oficial das Forças Armadas e catorze professores universitários. Dos nove brasileiros que habitam o Pico da Neblina da distribuição de renda nacional, com ganhos superiores a 10 milhões de reais por ano, dois são empregados do setor privado, cinco são empresários, um vive de rendas e um, quem diria, é servidor público da administração direta. Não se pode afirmar automaticamente que esses ricos fizeram fortuna de maneira ilícita apenas porque suas profissões não são propriamente fábricas de milionários. Pela avaliação dos técnicos da Receita, eles podem ser herdeiros de grandes somas e propriedades, ganhadores da loteria ou até mesmo hábeis comerciantes que enriqueceram paralelamente à atividade profissional.

A acumulação de riqueza é um fenômeno tão antigo quanto a própria história humana. Com exceção das experiências fracassadas dos países de economia socialista, não existe um único exemplo de civilização em que a acumulação de riqueza tenha sido feita de forma igualitária e simultânea para todas as pessoas. Sempre houve um vizinho com mais bois do que outro, alguém com mais terra, mais trigo ou menos galinhas. Esse também sempre foi um indicador da pujança de uma economia. Quanto maior e mais veloz for a acumulação de riqueza, mais forte a economia de um país. As sociedades modernas também se medem pela justiça na distribuição dessa riqueza. Isso não significa apenas tomar dinheiro dos ricos para dar aos pobres, através dos impostos, por exemplo, mas oferecer oportunidades para que um número cada vez maior de pessoas possa ter acesso à riqueza e melhorar o padrão de vida, via educação, saúde e outros serviços. "Nenhuma sociedade cuja maior parte de seus membros é de pobres e miseráveis pode ser próspera e feliz", ditava Adam Smith, autor do clássico A Riqueza das Nações.

O retrato do mundo dos ricos feito pela Receita ajuda a explicar as distorções na distribuição da renda no Brasil. Em países de economia forte e com muitos milionários, como os Estados Unidos, a acumulação de riqueza teve o seu lado sombrio e se fez muitas vezes com base na violência e na esperteza. Mas, ao final das contas, criou-se uma cultura que hoje associa a riqueza ao mérito. Lá, pode-se ficar rico pelo desenvolvimento de uma boa idéia, caso de Bill Gates e seus programas para computadores, pelo senso de oportunidade ao explorar determinada matéria-prima, como o magnata do petróleo Nelson Rockefeller, pela coragem de correr riscos que outras pessoas não teriam, como o megainvestidor Michael Milken, ou ainda pela capacidade de estudar e trabalhar mais, caso dos cientistas e ganhadores de Prêmio Nobel na Universidade Harvard. No Brasil, o retrato dos milionários aponta para outra direção. Aqui, nem sempre o mérito é o principal fator da riqueza.

Observem-se os 2.745 brasileiros que ganham mais de meio milhão de reais por ano. Eles estão ligados em sua maioria a 36 profissões e atividades diferentes. Ocorre que, dessas, um terço são funções relacionadas à burocracia do Estado. Com 237 ricaços, os donos de cartório ocupam o segundo lugar no ranking da Receita. Em terceiro lugar vêm os serventuários da Justiça, com 205 endinheirados. Também aparecem ali os membros do Poder Legislativo (76) e do Poder Judiciário (13), os funcionários públicos aposentados (61) e os servidores federais (13). Pode-se argumentar que os servidores públicos são contribuintes compulsórios, cujos impostos são retidos na fonte. Mas isso também vale para os trabalhadores da iniciativa privada com carteira assinada. A explicação mais provável para essa distorção está na presença ainda desmesurada do Estado na economia. Cerca de 40% da atividade econômica no país está ligada à máquina estatal – seja pela cobrança de impostos seja pela rolagem da imensa dívida pública. "O Estado tem contribuído para distribuir a renda para cima", diz Ricardo Henriques, do Ipea.

O Brasil, colocados os devidos pesos na balança, não é um país pobre no seu conjunto. Ocupa o oitavo lugar entre as maiores economias do planeta. O produto interno bruto (PIB) atual, de 560 bilhões de dólares, triplicou desde 1970. O Brasil é, portanto, um país com muito dinheiro, mas que padece de excesso de pobres e escassez de ricos. Um terço da população brasileira vive abaixo da linha de pobreza. Na outra ponta, há 106.000 pessoas com patrimônio declarado ao redor de 1 milhão de dólares. É muito pouco. Nos Estados Unidos, há 3,5 milhões de pessoas com patrimônio de 1 milhão de dólares. Isso dá um milionário para cada 75 habitantes. Aqui, o índice é de um para 1.550. Conclusão: o Brasil tem pobres demais e ricos de menos.