Edição 1 657 - 12/7/2000

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Araquem Alcantara
Ancoradouro em Angra dos Reis: paraíso de milionários


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Nas próximas páginas, VEJA descortina um mundo de que se fala muito e do qual se conhece pouco – o dos ricos brasileiros. É um mundo que na sua porção mais exclusiva é cercado por altos muros, carros blindados, seguranças parrudos e mistério no que se refere a cifras. Para retratá-lo com a nitidez possível, seguiram-se três caminhos. O primeiro mostra quantos são os milionários brasileiros por Estado, profissão e sexo. As informações são provenientes do cruzamento de dados da Receita Federal. O segundo revela o que pensa a respeito do Brasil – e de si próprio – o 0,01% da população que se encontra na cumeeira da pirâmide social. Por último, numa reportagem que se inscreve no plano da metáfora, o leitor é convidado a entrar no mundo que gira em torno da boutique Daslu, em São Paulo, a loja mais cara do Brasil.

O lugar-comum recita que, num país pobre como o Brasil, a existência de gente rica constitui em si um absurdo, quase uma anomalia da natureza. A riqueza, entre nós, é vista com desconfiança. Não por acaso os brasileiros aprendem desde cedo que "dinheiro é sujo" e, ao referir-se a um endinheirado, dizem que ele é "podre de rico". Um tratado poderia ser escrito a partir dessas duas expressões. Elas sintetizam os vícios do processo de acumulação brasileiro. Na época da colônia, era a cobiça pura e simples que motivava os que aqui comercializavam ouro e traficavam escravos. No Império, enriquecer significava usufruir as benesses distribuídas pelo aparato burocrático da corte. Na República, o Estado onipresente concentrou ainda mais a renda nas mãos de uns poucos privilegiados e, nos seus desvãos, grassou a ladroagem. Roubar, explorar, vender-se, acumpliciar-se, locupletar-se – tais são os verbos que rimam com dinheiro na cabeça dos brasileiros.

De fato, há razões de sobra para as nossas reservas em relação à riqueza. É saudável, no entanto, mudar de perspectiva, e não só porque há muitos exemplos de fortuna laboriosamente construída no Brasil. O absurdo, diga-se com todas as letras, é haver tanta gente pobre quando é possível ser rico. Por origem histórica ou distorção ideológica, não importa, o país atola-se num modelo que desestimula o trabalho e a produção – as fontes da riqueza que dignifica e orgulha um homem. Como escreveu há quase um século o sociólogo alemão Max Weber, ao analisar a ética protestante que alicerçou o capitalismo anglo-saxão, "a riqueza, como o empreendimento de um dever vocacional, não é apenas moralmente permissível, como diretamente recomendada".

Num jogo com regras limpas, a busca da fortuna vitamina a sociedade e tonifica os valores morais. O resultado disso são ricos sem medo – e vergonha – de ser ricos, e um povo que vê na riqueza um exemplo a ser seguido. "Ser notado, servido, tratado com simpatia e aprovação, esses são os benefícios a que um homem rico pode aspirar", resumiu o economista e filósofo escocês Adam Smith, autor do clássico Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações.