Araquem Alcantara
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| Ancoradouro em Angra dos Reis: paraíso
de milionários |
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Nas próximas páginas, VEJA descortina um
mundo de que se fala muito e do qual se conhece pouco
o dos ricos brasileiros. É um mundo que na sua porção
mais exclusiva é cercado por altos muros, carros
blindados, seguranças parrudos e mistério
no que se refere a cifras. Para retratá-lo com a
nitidez possível, seguiram-se três caminhos.
O primeiro mostra quantos são
os milionários brasileiros por Estado, profissão
e sexo. As informações são provenientes
do cruzamento de dados da Receita Federal. O
segundo revela o que pensa a respeito do Brasil e
de si próprio o 0,01% da população
que se encontra na cumeeira da pirâmide social.
Por último, numa reportagem que se inscreve no plano
da metáfora, o leitor é
convidado a entrar no mundo que gira em torno da boutique
Daslu, em São Paulo, a loja mais cara do Brasil.
O lugar-comum recita que, num país pobre como o
Brasil, a existência de gente rica constitui em si
um absurdo, quase uma anomalia da natureza. A riqueza, entre
nós, é vista com desconfiança. Não
por acaso os brasileiros aprendem desde cedo que "dinheiro
é sujo" e, ao referir-se a um endinheirado, dizem
que ele é "podre de rico". Um tratado poderia ser
escrito a partir dessas duas expressões. Elas sintetizam
os vícios do processo de acumulação
brasileiro. Na época da colônia, era a cobiça
pura e simples que motivava os que aqui comercializavam
ouro e traficavam escravos. No Império, enriquecer
significava usufruir as benesses distribuídas pelo
aparato burocrático da corte. Na República,
o Estado onipresente concentrou ainda mais a renda nas mãos
de uns poucos privilegiados e, nos seus desvãos,
grassou a ladroagem. Roubar, explorar, vender-se, acumpliciar-se,
locupletar-se tais são os verbos que rimam com
dinheiro na cabeça dos brasileiros.
De fato, há razões de sobra para as nossas
reservas em relação à riqueza. É
saudável, no entanto, mudar de perspectiva, e não
só porque há muitos exemplos de fortuna laboriosamente
construída no Brasil. O absurdo, diga-se com todas
as letras, é haver tanta gente pobre quando é
possível ser rico. Por origem histórica ou
distorção ideológica, não importa,
o país atola-se num modelo que desestimula o trabalho
e a produção as fontes da riqueza que dignifica
e orgulha um homem. Como escreveu há quase um século
o sociólogo alemão Max Weber, ao analisar
a ética protestante que alicerçou o capitalismo
anglo-saxão, "a riqueza, como o empreendimento de
um dever vocacional, não é apenas moralmente
permissível, como diretamente recomendada".
Num jogo com regras limpas, a busca da fortuna vitamina
a sociedade e tonifica os valores morais. O resultado disso
são ricos sem medo e vergonha de ser ricos,
e um povo que vê na riqueza um exemplo a ser seguido.
"Ser notado, servido, tratado com simpatia e aprovação,
esses são os benefícios a que um homem rico
pode aspirar", resumiu o economista e filósofo escocês
Adam Smith, autor do clássico Investigação
sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações.