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As últimas do imperador
Caderno com anotações sobre
a primeira
Constituição republicana mostra que
dom Pedro II estava atento ao Brasil e
lúcido no ano em que morreu no exílio
Lucila Soares
Reprodução Lula Rodrigues
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Reprodução Claudio Rossi
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| Dom Pedro II e a primeira
página do caderno de capa dura enviado ao hotel
em Cannes, onde o monarca deposto vivia o exílio.
Nele foi colado o texto constitucional recortado de
um jornal: receio de que o Brasil não estivesse
preparado para ser uma República federativa é
tema do primeiro comentário do imperador, feito
com letra trêmula e lápis preto, sua marca
registrada |
Ele caiu do poder como um fruto mais que passado do ponto
a título de comparação atualizada,
um pouco como aconteceu com o PRI, no México, na
semana passada. Quando deixou o trono e o Brasil, depois
de 49 anos como único chefe nativo de uma insólita
monarquia tropical, Pedro II era a imagem do governante
enfraquecido quase ao ponto da autodissolução.
Sonolento, inerme e ridicularizado em charges como "Pedro
Banana", representado como um erudito imaginário
que só queria saber de fotografia, astronomia e intermináveis
viagens ao exterior, o imperador derrubado pela República
em 1889 terminou a vida na irrelevância do exílio.
Persistiu, no entanto, o mito do monarca banido, dominado
nos poucos anos que lhe restaram pela imagem do país
que o rejeitara e secundado, no esquife, pelo derradeiro
punhado da terra natal. Pedro II, de fato, continuou acompanhando,
a distância, os acontecimentos no Brasil sempre sob
sua ótica, que misturava interesses particulares
a vagas visões sobre o futuro da nação.
Um documento inédito dá algumas pistas de
como o imperador deposto via o novo regime. Trata-se de
um caderno de capa dura no qual foi colado o texto da primeira
Constituição republicana, recortado de um
jornal, sobre o qual dom Pedro escreveu a lápis seus
comentários.
Reprodução Claudio Rossi
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Reprodução
Claudio Rossi
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Em Petrópolis,
dom Pedro posa para a foto que seria a última
imagem da família imperial no Brasil, antes do
exílio. A partir da esquerda: o neto Pedro Augusto,
a imperatriz Teresa Cristina e a princesa Isabel; à
direita do imperador, o príncipe Pedro de Orleans
e Bragança e o conde d'Eu.
Na escada, os príncipes Antônio e Luís.
À direita, as últimas notas do imperador
sobre a Constituição |
O documento mostra que, apesar de doente como comprova
a letra trêmula , ele continuava ligado ao que
acontecia no Brasil. A data de 13 de abril de 1891 é
sugestiva: a Constituição havia sido promulgada
apenas dois meses antes, um prazo muito curto, considerando-se
que para cruzar o Atlântico um navio levava na época
quase trinta dias. Desde a morte do imperador, em Paris,
oito meses depois, o caderno ficou em poder da mesma família,
que o acompanhou no exílio. Só agora, passados
108 anos, foi oferecido ao colecionador carioca Pedro Corrêa
do Lago (veja quadro). Antes disso,
só havia sido exibido uma vez em Petrópolis,
na década de 40. As observações do
imperador são poucas, até frustrantes pela
concisão, mas revelam uma leitura atenta do texto
da Carta. Previsivelmente, dom Pedro começa criticando
o regime de República Federativa uma das autojustificativas
fundamentais da monarquia era seu papel na preservação
da unidade da nação brasileira. Para o imperador,
o país não estava, digamos, maduro. "Não
chegou ao grau de civilização preciso", escreveu,
sem meias palavras.
"Assim seja!" A reivindicação
ao papel de elemento unificador da gigantesca ex-colônia
portuguesa, que facilmente poderia ter enveredado para a
fragmentação, não deixa de ter legitimidade.
"Com seu trabalho, de admirável coerência,
o governo de dom Pedro II começou sob um rígido
sistema legal, unitário e centralizador fundamental
naquele momento histórico", registrou o historiador
Francisco Iglesias no livro Trajetória Política
do Brasil (1500-1964). Os bons sentimentos do imperador
deposto transparecem na observação seguinte,
quando registra esperar que a federação se
consolidasse efetivamente como "a união perpétua
e indissolúvel das antigas províncias", segundo
prega o artigo primeiro da Constituição de
1891. "Assim seja! Assim seja! Prospere sempre moral e fisicamente",
escreveu. No final, voltou ao assunto: "Li-a com atenção
e fiz as reflexões com a maior isenção
de espírito. Quereria ter-me enganado quanto à
principal porque minha pátria haveria atingido a
altura a que sempre me esforcei para elevá-la".
As anotações, um tanto genéricas,
diferem pouco das que costumava fazer à margem de
quase todos os livros que leu ao longo da vida. Dom Pedro
mostra algo mais de emoção quando comenta
a pensão a ele destinada. O assunto era espinhoso.
No decreto que estabeleceu seu banimento, as autoridades
da nova República estabeleceram uma ajuda de 5.000
contos para que o imperador se fixasse no exílio.
Dom Pedro rejeitou-a, dizendo que "não aceitaria
ou agradeceria o favor das mãos do general que tudo
lhe levava" concordava, no entanto, com as verbas estabelecidas
em leis da época da monarquia. A reação
do governo republicano, em decreto redigido por Rui Barbosa,
foi dura: além de revogar a ajuda de custo, decretou
a extinção de todas "as dotações
ao senhor Pedro de Alcântara e sua família".
A Constituição de 1891 veio acalmar os ânimos,
concedendo a pensão vitalícia para garantir
uma "subsistência decente" ao imperador deposto. Não
estabelece, porém, valores. Entra aí o comentário
de dom Pedro. "Talvez fixem-na maior do que preciso para
viver sem luxo e eu destine o excesso para os serviços
de instrução e melhoramento da vida do povo",
escreveu ele. Há, talvez, na observação,
alguma coisa do homem que sabe estar escrevendo para a posteridade.
Mas o fato é que dom Pedro, enquanto esteve no poder,
destinava efetivamente parte de seus estipêndios a
obras de caridade a ponto de negligenciar os sinais exteriores
da simbologia do cargo e ser criticado pela falta de pompa,
um dos apanágios da monarquia.
Essa foi uma das contradições, tão
tipicamente brasileiras, de dom Pedro II. Homem civilizado
e culto, apaixonado pelas artes e pela ciência e preocupado
com a educação, comandou um império
em que o analfabetismo atingia 83% da população.
Antiescravagista de coração, viu o Brasil
se arrastar num debate interminável. Foi sob a regência
de sua filha, Isabel, que o país finalmente aboliu
a escravidão o último na América
a fazê-lo. Definido pelo historiador Evaldo Cabral
de Mello como "um burguês europeu do século
XIX, pouco afeito à liturgia do poder", e ao mesmo
tempo como a "figura fundamental da política brasileira
no século XIX", dom Pedro II portou a coroa durante
quase meio século em longevidade no poder, perdeu
apenas para a rainha Vitória, da Inglaterra. Nesse
período, vigorou no país uma espécie
de parlamentarismo não formalizado, tendo no topo
um imperador contemplado com um dispositivo constitucional
extremamente autoritário. Poderia tê-lo colocado
a serviço de interesses totalitários. Apesar
de criticado por abusar desse dispositivo, que lhe permitia
dissolver o Congresso e convocar novas eleições,
dom Pedro II, no entanto, o utilizou principalmente para
garantir a alternância de liberais e conservadores
no poder.
Dinheiro
curto Quando recebeu o caderno com o texto da
Constituição, dois meses depois de sua promulgação,
dom Pedro estava instalado no Hotel Beau Séjour,
em Cannes. Tinha 66 anos, mas aparentava muito mais. As
perdas se sobrepunham. Três semanas depois de chegar
a Portugal, para a primeira etapa do exílio, morria
a imperatriz Teresa Cristina. No início de 1891,
foi-se a condessa de Barral, amante, companheira de viagem
e mais íntima confidente de dom Pedro por muitos
anos. Como se não bastasse, o dinheiro era escasso
para as necessidades de um homem doente, com família
grande e acostumado às honras da realeza, por mais
que se empenhasse na modéstia de hábitos.
Depois de recusar a pensão oferecida pelo governo
republicano, dom Pedro passou a viver da ajuda de amigos.
Apesar do ar de mártir exilado, contudo, ele tinha
uma rotina muito similar à mantida durante suas longas
viagens ainda como imperador, ou seja, a de um monarca em
férias permanentes. Recebia regularmente visitas
da nobreza européia e continuava cercado de uma espécie
de corte, formada por famílias que o acompanharam
solidariamente ao exílio. Quando morreu, em 5 de
dezembro de 1891, dom Pedro II recebeu, na França,
honras de chefe de Estado. Trinta anos depois, seus restos
mortais retornaram ao Brasil.
O catador
de papéis
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| Pedro Corrêa
do Lago: caderno
do imperador incorporado
a um acervo
precioso |
Charles Darwin, pai da teoria da evolução,
instrui seu filho a verificar como um porco-espinho
reage diante de uma cobra. Sigmund Freud dá
os parabéns à mãe pelo aniversário
e manda-lhe de presente 6 dólares. O líder
anarquista russo Mikhail Bakunin deixa de lado a ideologia
e, quase como um alpinista social, se oferece para
apresentar a um amigo "a melhor sociedade de Boston".
Esses pedaços da vida cotidiana de celebridades
formam hoje a parte mais valiosa e saborosa
dos arquivos de Pedro Corrêa do Lago,
42 anos, neto do chanceler Oswaldo Aranha, filho de
embaixador e viciado em colecionar papéis desde
os 12 anos de idade. São mais de 10 000 documentos
adquiridos ao longo de quase trinta anos, que fazem
dele o maior colecionador do gênero em atividade
atualmente no Brasil.
A obsessão de colecionar começou com
um pedido de autógrafo a Heron Domingues, o
locutor do Repórter Esso. Em seguida,
Corrêa do Lago adotou outra tática: escrevia
para celebridades pedindo uma foto autografada. Depois
passou ao garimpo explícito, no que foi muito
ajudado pelo fato de ter vivido em vários países.
Hoje, criou uma estrutura em que tudo incentiva as
coleções. E, freqüentemente, não
precisa caçar raridades: elas vão até
ele, como no caso dos comentários de dom Pedro
II sobre a primeira Constituição republicana.
Corrêa do Lago vive cercado de seus objetos
de desejo. Os principais estão guardados na
casa do Jardim Europa, em São Paulo, onde se
espalham sobre mesas e paredes como se fossem simples
objetos de decoração caso da
coleção de fotos autografadas por Charles
Chaplin, Pablo Picasso, Albert Einstein, Jacqueline
Kennedy e assim vai. Tesouros como o manuscrito de
Marcel Proust de um trecho de Em Busca do Tempo
Perdido ficam escondidos numa pequena sala repleta
de arquivos de aço à prova de fogo.
Sua livraria cumpre a tripla função
de comércio, depósito de preciosidades
e chamariz para atrair novas obras.
Há colecionadores que adoram gastar o que
têm, e até o que não têm,
com os alvos de sua devoção e preferem
a morte a se separar deles. Coisa de amador. Corrêa
do Lago é profissional. Em 1997, vendeu por
1,8 milhão de reais para a Souza Cruz sua coleção
de 16 000 documentos nacionais, doados há duas
semanas ao Memorial do Rio Grande do Sul. O melhor
da coleção está em Autógrafos
Brasileiros, um dos três livros que publicou
nos últimos dois anos. Para quem ainda acha
que colecionadores de documentos são cavalheiros
parados no tempo, acrescente-se que Corrêa do
Lago foi um dos curadores da mostra Brasil 500
Anos, na qual organizou o módulo O Olhar
Distante, que reúne obras de artistas estrangeiros
sobre o país. Na esteira desse projeto, ele
planeja o catálogo completo da obra do pintor
holandês Frans Post. Para que essas atividades
caibam no dia, inventou um truque: adiantar o relógio
em quarenta minutos, para que o falso atraso o faça
acelerar o ritmo.
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