De volta ao passado
Numa era em que tudo diminui de tamanho,
a IBM constrói o maior computador do
mundo para simular testes nucleares
Luís Fernando Tinoco
AP
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Sala de testes do
ASCI White em Nova York:
consumo de energia
igual ao de 1.000
casas
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O computador que a IBM acaba de concluir é tão
grande que, para transportá-lo, será necessário
um comboio de 28 carretas. Quando estiver instalado, num
laboratório no norte da Califórnia, o ASCI
White ocupará uma área superior a duas quadras
de tênis. A supermáquina pesa 106 toneladas
e custou 110 milhões de dólares ao governo
americano, que pretende usá-la para fazer simulações
tridimensionais de explosões atômicas. Antes
do ASCI White, a única maneira que os cientistas
tinham para avaliar o poder de destruição
das armas nucleares era detonar algumas delas no fundo do
mar ou em abrigos subterrâneos no meio do deserto.
O imenso impacto ambiental desses testes sempre causou polêmica.
Os Estados Unidos, que nunca aderiram aos acordos pela proibição
dessas experiências, encontraram nos testes virtuais
uma solução menos condenável do que
as explosões reais.
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O
novo computador produzido pela IBM pesa 106
toneladas, tem
memória equivalente à
soma de 100
000 PCs, usa
3 000 quilômetros
de fios, demora
duas horas
para ser ligado
e ocupa uma área maior
do que a soma de duas
quadras de tênis
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O ASCI White, que no momento viaja da fábrica da IBM
em Nova York para o laboratório Lawrence Livermore,
na Califórnia, é o quarto membro de uma linhagem
de supermáquinas. Com capacidade de realizar 12,3 trilhões
de operações matemáticas por segundo,
é de longe o computador mais poderoso já fabricado.
É também uma surpresa no mundo da computação,
em que todos os aparelhos, incluindo seus processadores, tendem
a ser cada vez mais minúsculos e portáveis.
A rigor, o ASCI White não é um único
computador, mas várias máquinas paralelas,
funcionando simultaneamente. Cada módulo é
pouco maior que um forno de microondas, com dezesseis processadores
similares aos utilizados nos computadores pessoais. Esses
módulos foram empilhados em racks do tamanho de geladeiras,
que, enfileirados, formam colunas parecidas com as prateleiras
de uma biblioteca. Ao todo, são 512 servidores de
dezesseis processadores cada um, ou seja, 8.192
processadores. A eles se juntam mais de 3.000
quilômetros de fios e cabos, uma memória equivalente
a quase 100.000 computadores
pessoais e uma capacidade de armazenamento de dados de 160
terabytes, o suficiente para guardar o conteúdo de
34.000 DVDs ou 250.000
CDs. O tempo necessário para ligar todo o sistema
é de duas horas. Tudo isso, obviamente, será
equipado com um eficiente sistema de refrigeração.
O consumo de energia de todo o complexo daria para abastecer
cerca de 1.000 residências.
Para o governo americano, todo esse esforço faz
bastante sentido. Os físicos do laboratório
Lawrence Livermore esperam realizar simulações
complexas e detalhadas que os levarão a resultados
jamais obtidos. Embora muitos testes sejam feitos em poucos
minutos, outros poderão demorar meses. Em alguns
deles será possível observar, através
de imagens, o comportamento das próprias partículas
atômicas durante um teste nuclear. O empenho americano
em manter o título de superpotência nuclear
não pára por aí. Está previsto
para 2004 um modelo quase dez vezes mais poderoso que o
ASCI White, com capacidade para 100 trilhões de operações
por segundo. Os responsáveis pelo desenvolvimento
do arsenal nuclear dos Estados Unidos acreditam que só
a partir daí poderão eliminar definitivamente
a necessidade de testes reais.
Aos pacifistas, um alento. Duas vezes ao ano, o ASCI White
será aberto a pesquisadores universitários
por três ou quatro dias. Pode parecer pouco, mas três
dias com uma máquina dessas serão capazes
de revolucionar uma pesquisa na área de astrofísica
ou geologia, ou até possibilitar a descoberta de
novas substâncias químicas. Sem levar em conta
os experimentos bélicos americanos, os maiores usuários
de supercomputadores do mundo são universidades,
grandes centros de pesquisas e empresas de prospecção
de petróleo, engenharia genética, criação
de automóveis e aeronaves, pesquisas farmacêuticas
e estudos climáticos. De acordo com a Top500, lista
semestral dos 500 maiores computadores do mundo publicada
em parceria pela Universidade do Tennessee, dos Estados
Unidos, e pela Universidade de Mannheim, da Alemanha, 53%
desses gigantes estão nas mãos da indústria
privada. Outros 23% são destinados a pesquisas científicas
e 14%, a pesquisas acadêmicas. Na divisão geográfica,
os americanos ficam com 54% do bolo. Os europeus têm
30%, o Japão 12%, e os 4% restantes se espalham pelo
resto do mundo.
O único representante brasileiro da lista está
no Rio de Janeiro, na sede da Telemar. É um modelo
E10000, da Sun Microsystems. Com 128 processadores e performance
de 102 bilhões de operações por segundo,
o equipamento ocupa a 161ª posição do
ranking. É utilizado para rodar os sistemas de engenharia
que fazem a gestão das telecomunicações
da companhia e também para gerir os negócios
da operadora. Outra empresa brasileira habituada ao mundo
da supercomputação é a Petrobras. Diversos
megacomputadores são usados no processo de prospecção
de petróleo, uma das atividades mais custosas da
empresa. Um deles é um modelo IBM similar ao ASCI
White, mas equipado apenas com setenta processadores. Por
meio desse e de outros supercomputadores e de um centro
de realidade virtual, os técnicos da Petrobras conseguem
saber exatamente onde devem perfurar para encontrar petróleo.
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