Edição 1 657 - 12/7/2000

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De volta ao passado

Numa era em que tudo diminui de tamanho,
a IBM constrói o maior computador do
mundo para simular testes nucleares

Luís Fernando Tinoco

AP

Sala de testes do ASCI White em Nova York: consumo de energia igual ao de 1.000 casas


O computador que a IBM acaba de concluir é tão grande que, para transportá-lo, será necessário um comboio de 28 carretas. Quando estiver instalado, num laboratório no norte da Califórnia, o ASCI White ocupará uma área superior a duas quadras de tênis. A supermáquina pesa 106 toneladas e custou 110 milhões de dólares ao governo americano, que pretende usá-la para fazer simulações tridimensionais de explosões atômicas. Antes do ASCI White, a única maneira que os cientistas tinham para avaliar o poder de destruição das armas nucleares era detonar algumas delas no fundo do mar ou em abrigos subterrâneos no meio do deserto. O imenso impacto ambiental desses testes sempre causou polêmica. Os Estados Unidos, que nunca aderiram aos acordos pela proibição dessas experiências, encontraram nos testes virtuais uma solução menos condenável do que as explosões reais.

 

O novo computador produzido pela IBM pesa 106 toneladas, tem memória equivalente à soma de 100 000 PCs, usa 3 000 quilômetros de fios, demora duas horas para ser ligado e ocupa uma área maior do que a soma de duas quadras de tênis

  O ASCI White, que no momento viaja da fábrica da IBM em Nova York para o laboratório Lawrence Livermore, na Califórnia, é o quarto membro de uma linhagem de supermáquinas. Com capacidade de realizar 12,3 trilhões de operações matemáticas por segundo, é de longe o computador mais poderoso já fabricado. É também uma surpresa no mundo da computação, em que todos os aparelhos, incluindo seus processadores, tendem a ser cada vez mais minúsculos e portáveis.

A rigor, o ASCI White não é um único computador, mas várias máquinas paralelas, funcionando simultaneamente. Cada módulo é pouco maior que um forno de microondas, com dezesseis processadores similares aos utilizados nos computadores pessoais. Esses módulos foram empilhados em racks do tamanho de geladeiras, que, enfileirados, formam colunas parecidas com as prateleiras de uma biblioteca. Ao todo, são 512 servidores de dezesseis processadores cada um, ou seja, 8.192 processadores. A eles se juntam mais de 3.000 quilômetros de fios e cabos, uma memória equivalente a quase 100.000 computadores pessoais e uma capacidade de armazenamento de dados de 160 terabytes, o suficiente para guardar o conteúdo de 34.000 DVDs ou 250.000 CDs. O tempo necessário para ligar todo o sistema é de duas horas. Tudo isso, obviamente, será equipado com um eficiente sistema de refrigeração. O consumo de energia de todo o complexo daria para abastecer cerca de 1.000 residências.

Para o governo americano, todo esse esforço faz bastante sentido. Os físicos do laboratório Lawrence Livermore esperam realizar simulações complexas e detalhadas que os levarão a resultados jamais obtidos. Embora muitos testes sejam feitos em poucos minutos, outros poderão demorar meses. Em alguns deles será possível observar, através de imagens, o comportamento das próprias partículas atômicas durante um teste nuclear. O empenho americano em manter o título de superpotência nuclear não pára por aí. Está previsto para 2004 um modelo quase dez vezes mais poderoso que o ASCI White, com capacidade para 100 trilhões de operações por segundo. Os responsáveis pelo desenvolvimento do arsenal nuclear dos Estados Unidos acreditam que só a partir daí poderão eliminar definitivamente a necessidade de testes reais.

Aos pacifistas, um alento. Duas vezes ao ano, o ASCI White será aberto a pesquisadores universitários por três ou quatro dias. Pode parecer pouco, mas três dias com uma máquina dessas serão capazes de revolucionar uma pesquisa na área de astrofísica ou geologia, ou até possibilitar a descoberta de novas substâncias químicas. Sem levar em conta os experimentos bélicos americanos, os maiores usuários de supercomputadores do mundo são universidades, grandes centros de pesquisas e empresas de prospecção de petróleo, engenharia genética, criação de automóveis e aeronaves, pesquisas farmacêuticas e estudos climáticos. De acordo com a Top500, lista semestral dos 500 maiores computadores do mundo publicada em parceria pela Universidade do Tennessee, dos Estados Unidos, e pela Universidade de Mannheim, da Alemanha, 53% desses gigantes estão nas mãos da indústria privada. Outros 23% são destinados a pesquisas científicas e 14%, a pesquisas acadêmicas. Na divisão geográfica, os americanos ficam com 54% do bolo. Os europeus têm 30%, o Japão 12%, e os 4% restantes se espalham pelo resto do mundo.

O único representante brasileiro da lista está no Rio de Janeiro, na sede da Telemar. É um modelo E10000, da Sun Microsystems. Com 128 processadores e performance de 102 bilhões de operações por segundo, o equipamento ocupa a 161ª posição do ranking. É utilizado para rodar os sistemas de engenharia que fazem a gestão das telecomunicações da companhia e também para gerir os negócios da operadora. Outra empresa brasileira habituada ao mundo da supercomputação é a Petrobras. Diversos megacomputadores são usados no processo de prospecção de petróleo, uma das atividades mais custosas da empresa. Um deles é um modelo IBM similar ao ASCI White, mas equipado apenas com setenta processadores. Por meio desse e de outros supercomputadores e de um centro de realidade virtual, os técnicos da Petrobras conseguem saber exatamente onde devem perfurar para encontrar petróleo.

 
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Dos arquivos de VEJA
  Lição de anatomia
Da internet
  Accelerated Strategic Computing Initiative (ASCI)
  Lawrence Livermore National Laboratory