Mulheres em pânico
Alvo fácil para bandidos, o sexo
feminino tenta
encontrar meios de driblar o medo
Anna Paula Buchalla
Ricardo Benichio
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A empresária Carol com Max,
o boneco guarda-costas: segurança nas ruas
paulistanas
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A violência das grandes cidades brasileiras chegou
a um ponto em que estamos todos igualmente ameaçados.
Verdade? Não exatamente, pois as mulheres correm
riscos ainda maiores que os homens de ser assaltadas, extorquidas
ou seqüestradas nas ruas. De cada dez vítimas
de assaltos cometidos nos bairros de classe média
de São Paulo, seis usam saias. Na Barra da Tijuca,
reduto dos emergentes cariocas, o índice sobe para
70%. Elas também são alvo freqüente dos
seqüestros relâmpagos, em que o assaltante obriga
a vítima a sacar dinheiro de caixas eletrônicos.
Quando param no sinal fechado, as mulheres estão
sujeitas a um tipo de agressão que pouco afeta os
homens. São os pedintes que ameaçam riscar
o carro, os limpadores de pára-brisa que ignoram
a recusa do serviço, as crianças de rua que
se sentem à vontade para roubá-las, armadas
com um caco de vidro ou um canivete. É fácil
entender por que é assim: a mulher é mais
vulnerável diante da força bruta. Elas também
entram em pânico com maior facilidade. Pesquisas mostram
que a carga emocional decorrente do medo é duas vezes
maior entre as mulheres sem contar o risco de abuso
sexual, um pavor constante a rondar a cabeça delas.
O resultado é que as mulheres das grandes cidades
vivem agora em estado de tensão permanente.
"Não
tenho dúvida: entre um carro com um homem e um com
uma mulher, vou no da mulher", diz Igor de Oliveira, de
22 anos, preso por assalto a mão armada, atualmente
no xadrez de uma delegacia paulistana. "Elas são
mais medrosas e, por isso, entregam mais fácil."
Não é à toa que elas respondem hoje
por seis em cada dez encomendas de blindagem de carros (veja
quadro ao lado). "A demanda cresceu seis vezes em um
ano e meio", contabiliza José Eduardo Truffi, diretor
comercial da Oregon, uma das grandes empresas do ramo, em
São Paulo. É uma estratégia de defesa
cara, pois a blindagem custa de 43.000
a quase 60.000 reais. Em alguns
cursos de defesa pessoal, metade dos alunos são mulheres.
Um dos mais procurados atualmente é o de krav magá,
luta inspirada nas técnicas da polícia militar
israelense. Quando chegou ao Brasil, há dez anos,
elas representavam, no máximo, 10% dos alunos. A
técnica é específica para a defesa
contra a violência urbana, como ataques com facas
ou cacos de vidro. Os golpes não exigem grande força
física nem confrontos demorados é justamente
isso que atrai as mulheres. A secretária carioca
Jaqueline Aquino, de 30 anos, freqüenta as aulas há
oito meses. "Aprendi a não me apavorar", conta. "Até
ando de ônibus à noite."
Selmy Yassuda
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A carioca Jaqueline em uma aula
de krav magá: sem medo de sair à noite
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Nenhum desses recursos garante a segurança absoluta.
Quem usa carro blindado corre o risco de ser abordada pelo
assaltante ao deixar o veículo. Quem se arma ou aprende
lutas marciais deve ter em mente o conselho dos especialistas
de que não se deve reagir a um bandido armado, pois
ele pode atirar para matar. Há um artifício
mais barato, menos violento e que está de acordo
com a experiência feminina: estar acompanhada no carro
evita muitos transtornos. "Na maioria das vezes, elas são
atacadas quando estão sozinhas", diz o coronel aposentado
da Polícia Militar do Rio de Janeiro Heleno Barbosa.
Mesmo sem nunca ter sido assaltada, a empresária
paulista Carol H. (ela prefere omitir o sobrenome) resolveu
ter o próprio guarda-costas. De fibra de vidro. Vestido
de terno azul e de óculos escuros, "Max" vai com
Carol para cima e para baixo. "Sou bem menos importunada
que antes, quando não tinha o Max", afirma a empresária.
Há aquelas que preferem a réplica de um dobermann
ou rotweiller. Com jeito de homem ou cachorro, os bonecos
custam de 900 a 2.500 reais.
Ricardo Benichio
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A paulistana Regina Malaquias:
depois do assalto, terapia no trânsito para
voltar a dirigir
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Outra providência simples é a chamada "bolsa
do ladrão". A verdadeira, com documentos, chaves,
cartões de crédito e cheques, fica no porta-malas.
"Quanto mais dinheiro na carteira da 'bolsa do ladrão',
menor a chance de a vítima ser levada a caixas eletrônicos",
ensina o delegado Maurício Guimarães Soares,
titular da Delegacia Anti-Seqüestro de São Paulo.
Mas quem é capaz de manter o sangue-frio perante
uma arma? "Na cabeça dos marginais, o homem sempre
está alerta para reagir", diz o delegado Soares.
"As mulheres são menos agressivas, o que mantém
o bandido no controle da situação, evitando
que ele mate a vítima. Por outro lado, a reação
feminina também é mais imprevisível,
o que pode complicar o assalto." Algumas gritam, outras
ficam paralisadas. No mês passado, a pediatra Natália
Garcia, de 34 anos, morreu em uma tentativa de roubo em
São Paulo. Era noite. Natália falava ao celular,
parada em um sinal fechado, quando foi abordada pelos ladrões.
Apavorada, avisou sobre a investida ao cunhado, do outro
lado da linha. Foi baleada sem que os bandidos levassem
nada. São tragédias como a de Natália
que deixam as brasileiras com os nervos à flor da
pele.
Suspeita-se
que o efeito emocional decorrente do assalto seja ainda
mais devastador entre as mulheres. Uma explicação
é fisiológica. Devido às flutuações
hormonais, o sexo feminino é mais suscetível
a quadros de ansiedade, depressão e pânico.
Os níveis de apreensão dobram entre as mães,
sobretudo as com filhos pequenos. É puro instinto:
"Se eu morrer, quem cuidará deles?" Há dois
anos, a administradora de empresas Regina Malaquias estava
com a irmã e a cunhada numa estrada do interior de
São Paulo quando o carro que dirigia foi abordado
por quatro homens armados de metralhadoras. Obrigada a parar
bruscamente, viu seu carro ser abalroado pelo automóvel
que vinha atrás. Apesar de machucadas, elas abandonaram
o veículo e correram pela estrada sem olhar para
trás. Desde então, Regina não tem coragem
de pegar no volante de um carro. "Mesmo quando estou de
passageira, qualquer pessoa que se aproxime me deixa em
pânico", conta. Há cerca de um mês, começou
a fazer terapia para vencer o medo. Duas vezes por semana
ela sai de carro com a psicóloga Cecília Bellina.
Na direção, vai Regina. Ao lado, a especialista
tentando devolver à paciente a confiança perdida.
Casos como o de Regina, em que a violência do assalto
se transforma em angústia permanente, são
comuns. Há mulheres cujo medo pós-assalto
é tão intenso que as incapacita para as atividades
do dia-a-dia. Elas têm pesadelos freqüentes,
lembranças recorrentes do pânico e alterações
de humor. O fato é que o medo de assaltos e agressões
é tão generalizado que mesmo as mulheres que
nunca sofreram um ataque evitam sair sozinhas à noite
ou dirigir sem companhia. "Nesses casos, a recomendação
é se expor às situações que
inspiram medo", diz o psiquiatra Márcio Bernik, coordenador
do Laboratório de Ansiedade do Hospital das Clínicas,
em São Paulo. Obviamente, Bernik não recomenda
a ninguém um passeio solitário durante a madrugada.
Seu conselho é que a mulher com receio de sair sozinha
comece aos poucos até que reconquiste a confiança
de ir e vir. Mas cuidado, porque as ruas estão cada
dia mais perigosas para mulheres desacompanhadas.
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