Edição 1 657 - 12/7/2000

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Mulheres em pânico

Alvo fácil para bandidos, o sexo feminino tenta
encontrar meios de driblar o medo

Anna Paula Buchalla

Ricardo Benichio

A empresária Carol com Max, o boneco guarda-costas: segurança nas ruas paulistanas


A violência das grandes cidades brasileiras chegou a um ponto em que estamos todos igualmente ameaçados. Verdade? Não exatamente, pois as mulheres correm riscos ainda maiores que os homens de ser assaltadas, extorquidas ou seqüestradas nas ruas. De cada dez vítimas de assaltos cometidos nos bairros de classe média de São Paulo, seis usam saias. Na Barra da Tijuca, reduto dos emergentes cariocas, o índice sobe para 70%. Elas também são alvo freqüente dos seqüestros relâmpagos, em que o assaltante obriga a vítima a sacar dinheiro de caixas eletrônicos. Quando param no sinal fechado, as mulheres estão sujeitas a um tipo de agressão que pouco afeta os homens. São os pedintes que ameaçam riscar o carro, os limpadores de pára-brisa que ignoram a recusa do serviço, as crianças de rua que se sentem à vontade para roubá-las, armadas com um caco de vidro ou um canivete. É fácil entender por que é assim: a mulher é mais vulnerável diante da força bruta. Elas também entram em pânico com maior facilidade. Pesquisas mostram que a carga emocional decorrente do medo é duas vezes maior entre as mulheres – sem contar o risco de abuso sexual, um pavor constante a rondar a cabeça delas. O resultado é que as mulheres das grandes cidades vivem agora em estado de tensão permanente.

"Não tenho dúvida: entre um carro com um homem e um com uma mulher, vou no da mulher", diz Igor de Oliveira, de 22 anos, preso por assalto a mão armada, atualmente no xadrez de uma delegacia paulistana. "Elas são mais medrosas e, por isso, entregam mais fácil." Não é à toa que elas respondem hoje por seis em cada dez encomendas de blindagem de carros (veja quadro ao lado). "A demanda cresceu seis vezes em um ano e meio", contabiliza José Eduardo Truffi, diretor comercial da Oregon, uma das grandes empresas do ramo, em São Paulo. É uma estratégia de defesa cara, pois a blindagem custa de 43.000 a quase 60.000 reais. Em alguns cursos de defesa pessoal, metade dos alunos são mulheres. Um dos mais procurados atualmente é o de krav magá, luta inspirada nas técnicas da polícia militar israelense. Quando chegou ao Brasil, há dez anos, elas representavam, no máximo, 10% dos alunos. A técnica é específica para a defesa contra a violência urbana, como ataques com facas ou cacos de vidro. Os golpes não exigem grande força física nem confrontos demorados – é justamente isso que atrai as mulheres. A secretária carioca Jaqueline Aquino, de 30 anos, freqüenta as aulas há oito meses. "Aprendi a não me apavorar", conta. "Até ando de ônibus à noite."

 
Selmy Yassuda

A carioca Jaqueline em uma aula de krav magá: sem medo de sair à noite

Nenhum desses recursos garante a segurança absoluta. Quem usa carro blindado corre o risco de ser abordada pelo assaltante ao deixar o veículo. Quem se arma ou aprende lutas marciais deve ter em mente o conselho dos especialistas de que não se deve reagir a um bandido armado, pois ele pode atirar para matar. Há um artifício mais barato, menos violento e que está de acordo com a experiência feminina: estar acompanhada no carro evita muitos transtornos. "Na maioria das vezes, elas são atacadas quando estão sozinhas", diz o coronel aposentado da Polícia Militar do Rio de Janeiro Heleno Barbosa. Mesmo sem nunca ter sido assaltada, a empresária paulista Carol H. (ela prefere omitir o sobrenome) resolveu ter o próprio guarda-costas. De fibra de vidro. Vestido de terno azul e de óculos escuros, "Max" vai com Carol para cima e para baixo. "Sou bem menos importunada que antes, quando não tinha o Max", afirma a empresária. Há aquelas que preferem a réplica de um dobermann ou rotweiller. Com jeito de homem ou cachorro, os bonecos custam de 900 a 2.500 reais.

Ricardo Benichio

A paulistana Regina Malaquias: depois do assalto, terapia no trânsito para voltar a dirigir


Outra providência simples é a chamada "bolsa do ladrão". A verdadeira, com documentos, chaves, cartões de crédito e cheques, fica no porta-malas. "Quanto mais dinheiro na carteira da 'bolsa do ladrão', menor a chance de a vítima ser levada a caixas eletrônicos", ensina o delegado Maurício Guimarães Soares, titular da Delegacia Anti-Seqüestro de São Paulo. Mas quem é capaz de manter o sangue-frio perante uma arma? "Na cabeça dos marginais, o homem sempre está alerta para reagir", diz o delegado Soares. "As mulheres são menos agressivas, o que mantém o bandido no controle da situação, evitando que ele mate a vítima. Por outro lado, a reação feminina também é mais imprevisível, o que pode complicar o assalto." Algumas gritam, outras ficam paralisadas. No mês passado, a pediatra Natália Garcia, de 34 anos, morreu em uma tentativa de roubo em São Paulo. Era noite. Natália falava ao celular, parada em um sinal fechado, quando foi abordada pelos ladrões. Apavorada, avisou sobre a investida ao cunhado, do outro lado da linha. Foi baleada sem que os bandidos levassem nada. São tragédias como a de Natália que deixam as brasileiras com os nervos à flor da pele.

Suspeita-se que o efeito emocional decorrente do assalto seja ainda mais devastador entre as mulheres. Uma explicação é fisiológica. Devido às flutuações hormonais, o sexo feminino é mais suscetível a quadros de ansiedade, depressão e pânico. Os níveis de apreensão dobram entre as mães, sobretudo as com filhos pequenos. É puro instinto: "Se eu morrer, quem cuidará deles?" Há dois anos, a administradora de empresas Regina Malaquias estava com a irmã e a cunhada numa estrada do interior de São Paulo quando o carro que dirigia foi abordado por quatro homens armados de metralhadoras. Obrigada a parar bruscamente, viu seu carro ser abalroado pelo automóvel que vinha atrás. Apesar de machucadas, elas abandonaram o veículo e correram pela estrada sem olhar para trás. Desde então, Regina não tem coragem de pegar no volante de um carro. "Mesmo quando estou de passageira, qualquer pessoa que se aproxime me deixa em pânico", conta. Há cerca de um mês, começou a fazer terapia para vencer o medo. Duas vezes por semana ela sai de carro com a psicóloga Cecília Bellina. Na direção, vai Regina. Ao lado, a especialista tentando devolver à paciente a confiança perdida.

Casos como o de Regina, em que a violência do assalto se transforma em angústia permanente, são comuns. Há mulheres cujo medo pós-assalto é tão intenso que as incapacita para as atividades do dia-a-dia. Elas têm pesadelos freqüentes, lembranças recorrentes do pânico e alterações de humor. O fato é que o medo de assaltos e agressões é tão generalizado que mesmo as mulheres que nunca sofreram um ataque evitam sair sozinhas à noite ou dirigir sem companhia. "Nesses casos, a recomendação é se expor às situações que inspiram medo", diz o psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Laboratório de Ansiedade do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Obviamente, Bernik não recomenda a ninguém um passeio solitário durante a madrugada. Seu conselho é que a mulher com receio de sair sozinha comece aos poucos até que reconquiste a confiança de ir e vir. Mas cuidado, porque as ruas estão cada dia mais perigosas para mulheres desacompanhadas.

 
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Da internet
Womensshooters.com
Wagc.com
Mothersarms.org