A chance da democracia
Fox tem nas mãos a missão
de desmontar
a "ditadura perfeita" do PRI
AP
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| Vicente Fox:
populismo para derrotar
a máquina populista
do governo |
A vitória de Vicente Fox nas eleições
presidenciais mexicanas do domingo 2 é um acontecimento
que só pode ser dimensionado com comparações
hiperbólicas. Foi como a queda do Muro de Berlim,
o fim do apartheid e a redemocratização do
Chile tudo de uma única vez. Durante os últimos
71 anos, o México viveu sob o que o escritor peruano
Mario Vargas Llosa definiu como a "ditadura perfeita". Dispunha
de Congresso e Judiciário, imprensa, partidos de
oposição, sindicatos de trabalhadores e eleições
a cada seis anos para eleger o presidente. Mas o Partido
Revolucionário Institucional (PRI) ganhava todas,
graças ao domínio da máquina governamental
e das organizações sociais. Os 16 milhões
de mexicanos que votaram em Fox não lhe entregaram
apenas a faixa presidencial. O presidente eleito recebeu
um mandato para virar do avesso um sistema de governo com
raízes em cada canto da vida mexicana. Para continuar
nas comparações grandiloqüentes, pode-se
dizer que está na situação de Boris
Ieltsin quando a União Soviética arriou a
bandeira, em 1991. O desafio é o mesmo: transformar
o país numa verdadeira democracia.
Com seis anos de mandato pela frente, Fox terá
tempo para efetuar as reformas necessárias. Se vai
realizá-las é outra história, pois
as idéias desse homem são um dos segredos
mais bem guardados desde Montezuma. Pode-se dizer que venceu
pelo simples fato de não ser do PRI. Depois de 71
anos de governo de partido único, de duas décadas
de sobressaltos econômicos, da eterna visão
de políticos rapinando o dinheiro público
à custa de milhões de miseráveis do
país, os mexicanos estavam fartos. A revista inglesa
The Economist chamou a isso "efeito Nicarágua".
Lá, os sandinistas foram expulsos do poder nas eleições
de 1990. No México, mesmo os mais pobres, que tradicionalmente
votaram de modo obediente no PRI, mudaram de lado. A esquerda
tradicional, rancorosa e fechada a alianças, não
era uma alternativa. É duro imaginar que Fox pode
ter sido eleito pelo pior dos motivos: o descrédito
na classe política como um todo. Como acha que são
todos ladrões, o eleitor vota naquele que parece
diferente. O Brasil viu isso em 1989, com Fernando Collor
de Mello.
O PRI é um caso único na história
política do mundo ocidental, não apenas pela
contradição encerrada em seu nome Partido
Revolucionário Institucional. O partido que governou
o México em quase todo o século XX surgiu
para aglutinar as facções do movimento revolucionário
que tomou o poder no país na década de 10.
Da origem revolucionária, manteve a retórica
esquerdista (nunca rompeu com Cuba), o antiamericanismo
e a postura anticlerical (os sacerdotes católicos
já foram proibidos de vestir batina). Criou também
normas e rituais políticos típicos. Em fim
de mandato, o presidente escolhia seu sucessor. Chamava-se
a isso "dedaço". Durante muito tempo, só se
podia ser funcionário público depois de preencher
a ficha de inscrição do partido. Os programas
sociais do governo sempre exigiram alguma forma de fidelidade
dos beneficiários. A fraude completava o que o clientelismo
e a chantagem não conseguiam fazer. Esse sistema,
que fez o PRI confundir-se com o próprio Estado mexicano,
proporcionou ao país o privilégio de atravessar
o século XX sem golpes militares. "A força
do PRI diante do Estado mexicano só encontra paralelo
nos regimes comunistas do Leste Europeu", avalia o cientista
político Sérgio Abranches.
Fox tem pela frente a árdua missão de fazer
o México funcionar sem o PRI, uma experiência
inédita para praticamente todo mexicano vivo. Aos
58 anos, divorciado que não se casou de novo, pai
de quatro filhos adotivos, católico de ir à
missa aos domingos, ele é um empresário de
sucesso. Fala e veste-se como um vaqueiro, usa botas de
couro com seu nome impresso, fabricadas em suas empresas
de calçados (ele conhece bem o Brasil por causa de
seus negócios com a indústria calçadista
gaúcha). Foi executivo na Coca-Cola (vendia como
ninguém) antes de se dedicar ao Grupo Fox, conglomerado
de fazendas, indústrias alimentícias e fábrica
de calçados. Deputado, governador de Estado, há
três anos se lançou candidato a presidente
pelo PAN, um partido de direita, quase tão antigo
quanto o próprio PRI. A velha-guarda do PAN torceu
o nariz ao aventureiro, mas nada pôde fazer diante
do rolo compressor dos Amigos do Fox, uma organização
paralela ao partido, mas com número maior de filiados.
AP
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| A primeira derrota: painel de campanha
do PRI é retirado |
Cauteloso, o presidente eleito, que só toma posse
em dezembro, já lançou sinais de que deseja
formar um governo de unidade nacional e de que não
descarta nem mesmo ter representantes do PRI em sua equipe.
Mesmo derrotado, o partido continua infiltrado em todos
os níveis da burocracia. Já indicou que pretende
chamar os homens mais capazes e não os seus amigos,
o que em termos mexicanos é uma grande novidade.
A prática até agora era que cada presidente
eleito levasse para o Palácio de Los Pinos todos
os seus amigos. Ao fim de seis anos, todos voltavam para
casa, quase sempre muito mais ricos do que quando entraram.
Primeiro empresário a ocupar a Presidência,
Fox promete estabelecer princípios de gestão
empresarial no palácio mesclada com as idéias
compartilhadas com politicólogos socializantes, como
o brasileiro Roberto Mangabeira Unger, professor em Harvard
e ideólogo do presidenciável Ciro Gomes. É
pouco para enfrentar as terríveis desigualdades sociais,
a violência exacerbada, o narcotráfico e a
corrupção, as principais heranças deixadas
pelo PRI.
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AP

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| Zedillo: seu mérito foi permitir
a derrota de seu partido |
Em termos econômicos, Fox pode se sentir um privilegiado.
O país atravessa um surto de desenvolvimento. Tudo
o que tem de bom é devido ao presidente Ernesto Zedillo.
Ele recebeu o país praticamente quebrado em 1994.
Com uma política fiscal enxuta e os benefícios
do Nafta, o acordo de livre comércio com os Estados
Unidos, as exportações passaram de 60 bilhões
para 140 bilhões por ano. A dependência econômica
em relação ao vizinho do norte é asfixiante,
mas as contas públicas estão sob controle
e a inflação baixou para 10% ao ano. Pela
primeira vez em vinte anos, acredita-se que o país
poderá atravessar uma sucessão presidencial
sem terremotos econômicos. O maior mérito de
Zedillo foi permitir a alternância no poder. Ele próprio
só chegou a presidente em virtude do assassinato
do candidato anterior do PRI. O crime político e
a fuga do ex-presidente Carlos Salinas, acusado de corrupção,
arrasaram o prestígio do país e racharam o
partido. Tão grave era a crise que o presidente se
viu obrigado a virar o país de cabeça para
baixo.
Apesar da oposição da velha-guarda do PRI,
Zedillo empreendeu uma corajosa reforma no sistema eleitoral,
que praticamente eliminou a possibilidade de fraude no pleito.
O PRI já havia começado a perder terreno em
1988, quando foram eleitos os primeiros governadores estaduais
de oposição. Há três anos, o
governo perdeu também sua maioria na Câmara
dos Deputados e a prefeitura da Cidade do México.
Para evitar qualquer tentativa de fraude, Zedillo foi o
primeiro a reconhecer a vitória de Fox, ainda na
noite de domingo. Ao abrir os caminhos que levaram à
derrota de seu candidato, ele também abriu as portas
para entrar para a História como o presidente que
fez a democracia valer de verdade no país.
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