Edição 1 657 - 12/7/2000

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A chance da democracia

Fox tem nas mãos a missão de desmontar
a "ditadura perfeita" do PRI

AP
Vicente Fox: populismo para derrotar a máquina populista do governo


A vitória de Vicente Fox nas eleições presidenciais mexicanas do domingo 2 é um acontecimento que só pode ser dimensionado com comparações hiperbólicas. Foi como a queda do Muro de Berlim, o fim do apartheid e a redemocratização do Chile – tudo de uma única vez. Durante os últimos 71 anos, o México viveu sob o que o escritor peruano Mario Vargas Llosa definiu como a "ditadura perfeita". Dispunha de Congresso e Judiciário, imprensa, partidos de oposição, sindicatos de trabalhadores e eleições a cada seis anos para eleger o presidente. Mas o Partido Revolucionário Institucional (PRI) ganhava todas, graças ao domínio da máquina governamental e das organizações sociais. Os 16 milhões de mexicanos que votaram em Fox não lhe entregaram apenas a faixa presidencial. O presidente eleito recebeu um mandato para virar do avesso um sistema de governo com raízes em cada canto da vida mexicana. Para continuar nas comparações grandiloqüentes, pode-se dizer que está na situação de Boris Ieltsin quando a União Soviética arriou a bandeira, em 1991. O desafio é o mesmo: transformar o país numa verdadeira democracia.

Com seis anos de mandato pela frente, Fox terá tempo para efetuar as reformas necessárias. Se vai realizá-las é outra história, pois as idéias desse homem são um dos segredos mais bem guardados desde Montezuma. Pode-se dizer que venceu pelo simples fato de não ser do PRI. Depois de 71 anos de governo de partido único, de duas décadas de sobressaltos econômicos, da eterna visão de políticos rapinando o dinheiro público à custa de milhões de miseráveis do país, os mexicanos estavam fartos. A revista inglesa The Economist chamou a isso "efeito Nicarágua". Lá, os sandinistas foram expulsos do poder nas eleições de 1990. No México, mesmo os mais pobres, que tradicionalmente votaram de modo obediente no PRI, mudaram de lado. A esquerda tradicional, rancorosa e fechada a alianças, não era uma alternativa. É duro imaginar que Fox pode ter sido eleito pelo pior dos motivos: o descrédito na classe política como um todo. Como acha que são todos ladrões, o eleitor vota naquele que parece diferente. O Brasil viu isso em 1989, com Fernando Collor de Mello.

O PRI é um caso único na história política do mundo ocidental, não apenas pela contradição encerrada em seu nome – Partido Revolucionário Institucional. O partido que governou o México em quase todo o século XX surgiu para aglutinar as facções do movimento revolucionário que tomou o poder no país na década de 10. Da origem revolucionária, manteve a retórica esquerdista (nunca rompeu com Cuba), o antiamericanismo e a postura anticlerical (os sacerdotes católicos já foram proibidos de vestir batina). Criou também normas e rituais políticos típicos. Em fim de mandato, o presidente escolhia seu sucessor. Chamava-se a isso "dedaço". Durante muito tempo, só se podia ser funcionário público depois de preencher a ficha de inscrição do partido. Os programas sociais do governo sempre exigiram alguma forma de fidelidade dos beneficiários. A fraude completava o que o clientelismo e a chantagem não conseguiam fazer. Esse sistema, que fez o PRI confundir-se com o próprio Estado mexicano, proporcionou ao país o privilégio de atravessar o século XX sem golpes militares. "A força do PRI diante do Estado mexicano só encontra paralelo nos regimes comunistas do Leste Europeu", avalia o cientista político Sérgio Abranches.

Fox tem pela frente a árdua missão de fazer o México funcionar sem o PRI, uma experiência inédita para praticamente todo mexicano vivo. Aos 58 anos, divorciado que não se casou de novo, pai de quatro filhos adotivos, católico de ir à missa aos domingos, ele é um empresário de sucesso. Fala e veste-se como um vaqueiro, usa botas de couro com seu nome impresso, fabricadas em suas empresas de calçados (ele conhece bem o Brasil por causa de seus negócios com a indústria calçadista gaúcha). Foi executivo na Coca-Cola (vendia como ninguém) antes de se dedicar ao Grupo Fox, conglomerado de fazendas, indústrias alimentícias e fábrica de calçados. Deputado, governador de Estado, há três anos se lançou candidato a presidente pelo PAN, um partido de direita, quase tão antigo quanto o próprio PRI. A velha-guarda do PAN torceu o nariz ao aventureiro, mas nada pôde fazer diante do rolo compressor dos Amigos do Fox, uma organização paralela ao partido, mas com número maior de filiados.

 
AP
A primeira derrota: painel de campanha do PRI é retirado

Cauteloso, o presidente eleito, que só toma posse em dezembro, já lançou sinais de que deseja formar um governo de unidade nacional e de que não descarta nem mesmo ter representantes do PRI em sua equipe. Mesmo derrotado, o partido continua infiltrado em todos os níveis da burocracia. Já indicou que pretende chamar os homens mais capazes e não os seus amigos, o que em termos mexicanos é uma grande novidade. A prática até agora era que cada presidente eleito levasse para o Palácio de Los Pinos todos os seus amigos. Ao fim de seis anos, todos voltavam para casa, quase sempre muito mais ricos do que quando entraram. Primeiro empresário a ocupar a Presidência, Fox promete estabelecer princípios de gestão empresarial no palácio mesclada com as idéias compartilhadas com politicólogos socializantes, como o brasileiro Roberto Mangabeira Unger, professor em Harvard e ideólogo do presidenciável Ciro Gomes. É pouco para enfrentar as terríveis desigualdades sociais, a violência exacerbada, o narcotráfico e a corrupção, as principais heranças deixadas pelo PRI.


AP

Zedillo: seu mérito foi permitir a derrota de seu partido


Em termos econômicos, Fox pode se sentir um privilegiado. O país atravessa um surto de desenvolvimento. Tudo o que tem de bom é devido ao presidente Ernesto Zedillo. Ele recebeu o país praticamente quebrado em 1994. Com uma política fiscal enxuta e os benefícios do Nafta, o acordo de livre comércio com os Estados Unidos, as exportações passaram de 60 bilhões para 140 bilhões por ano. A dependência econômica em relação ao vizinho do norte é asfixiante, mas as contas públicas estão sob controle e a inflação baixou para 10% ao ano. Pela primeira vez em vinte anos, acredita-se que o país poderá atravessar uma sucessão presidencial sem terremotos econômicos. O maior mérito de Zedillo foi permitir a alternância no poder. Ele próprio só chegou a presidente em virtude do assassinato do candidato anterior do PRI. O crime político e a fuga do ex-presidente Carlos Salinas, acusado de corrupção, arrasaram o prestígio do país e racharam o partido. Tão grave era a crise que o presidente se viu obrigado a virar o país de cabeça para baixo.

Apesar da oposição da velha-guarda do PRI, Zedillo empreendeu uma corajosa reforma no sistema eleitoral, que praticamente eliminou a possibilidade de fraude no pleito. O PRI já havia começado a perder terreno em 1988, quando foram eleitos os primeiros governadores estaduais de oposição. Há três anos, o governo perdeu também sua maioria na Câmara dos Deputados e a prefeitura da Cidade do México. Para evitar qualquer tentativa de fraude, Zedillo foi o primeiro a reconhecer a vitória de Fox, ainda na noite de domingo. Ao abrir os caminhos que levaram à derrota de seu candidato, ele também abriu as portas para entrar para a História como o presidente que fez a democracia valer de verdade no país.


 
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