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Edição
1 657 12/7/2000
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O ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira deixou há quase dois anos o cargo que ocupava no Palácio do Planalto. Sua presença, no entanto, continua a se fazer sentir no governo. Primeiro em virtude de suas bizarras declarações aos jornais, elogiando dois personagens do escândalo do TRT: o exsenador Luiz Estevão e o juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lau-Lau. Depois porque, em suas atividades na iniciativa privada, ele conseguiu montar uma empresa de consultoria capaz de atrair grandes grupos e faturar quase 1 milhão de reais por ano. "Quando saiu do governo, Eduardo Jorge produziu certo alívio no Planalto, mas ele parece não querer afastar-se do poder", afirma um ministro do governo. Há duas semanas, Eduardo Jorge deu uma entrevista solidarizando-se com o senador Luiz Estevão, apontado como figura-chave do mais fabuloso caso de corrupção dos últimos anos. Na terça-feira passada, voltou a público para manifestarse a favor de Lau-Lau. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o exassessor relembrou os serviços prestados ao governo federal por Lau-Lau. Nada do que disse é novidade, mas suas declarações provocaram constrangimento na Presidência. Por que um exassessor do presidente elogia dois nomes envolvidos em maracutaia? Na entrevista ao jornal, Eduardo Jorge rememorou que Lau-Lau foi peça útil à manutenção do Plano Real. Graças a suas indicações, o governo pôde nomear juízes classistas sem propensão a dar sentenças a favor da indexação de salários. Caso as decisões da Justiça provocassem um aumento automático dos salários segundo a inflação, o programa de estabilização poderia ter o mesmo destino dos planos econômicos anteriores.
Fosse Eduardo Jorge um funcionário público qualquer, daqueles que passam pelo governo sem deixar história, suas opiniões não teriam grande significado. Mas o exassessor não é uma figura comum. Primeiro porque trabalhou com Fernando Henrique durante dezoito anos. Depois porque ocupava uma sala colada à do presidente, sem restrição de acesso. Enquanto esteve no governo, desempenhava duas missões estratégicas: fazer funcionar a Secretaria de Inteligência e atuar como ponte entre o governo e a direção dos fundos de pensão das estatais. Agora que deixou o Estado, mantém-se num papel estratégico pelo menos para as empresas que o contratam em troca de orientações. E que tipo de orientações são essas? Segundo ele, sua função é apenas dar conselhos à clientela. Uma amostra do que ele diz: "Sou procurado quando alguém do ramo de navegação quer saber se a legislação y pode prejudicar o seu negócio. Também sou procurado por uma empresa de seguros que quer entrar no país e não conhece a legislação local. Posso ainda ser acionado se um empresário ligado ao agribusiness tem dúvidas sobre como implantar novas técnicas agrícolas no país". Se você não entendeu nada, não se preocupe. No Palácio do Planalto também ninguém entende o que ele faz. Como pode alguém estar em condições de aconselhar ramos tão díspares quanto navegação, seguros e agricultura? Eduardo Jorge informa que está em condições de fazer isso graças à sua formação acadêmica (é formado em economia e tem doutorado nos Estados Unidos) e sua experiência no poder. Ele avisa: "Não faço lobby e não adianta me olhar com essa cara", disse a VEJA. "Nunca agendei uma conversa com ninguém do governo. Seria constrangedor eu ligar para pedir coisas." Sua empresa, a EJP Consultoria, tem uma entrada fixa mensal de 60.000 reais, fruto do contrato com quatro clientes, cujos nomes ele não revela. "Eles exigem sigilo total", afirma. Paralelamente, tem produzido relatórios sobre as crises políticas de Brasília pelos quais cobra cerca de 18.000 reais cada um. Virou conselheiro de uma empresa americana de seguros, a Uaic, e informa estar fechando três negócios nas áreas de reciclagem de lixo, internet e telefonia, com os quais espera receber 3 milhões de reais. "Estou ganhando três vezes mais fora do governo", diz ele, modestamente. Há algumas semanas, Eduardo Jorge adquiriu um apartamento avaliado em 1 milhão de reais no condomínio Praia Guinle, no Rio de Janeiro, considerado um dos dez mais luxuosos prédios da cidade.
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