Edição 1 657 - 12/7/2000

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Vamos rir de nós mesmos

 
Montagem de Pepe Casals sobre fotos de Sipra Press, Bruno Veiga/Strana e Divulgação

Não vou fazer um necrológio. Vittorio Gassman morreu quase duas semanas atrás. É tarde demais para sair dando cotoveladas na tentativa de pegar uma alça do caixão. Jornais do mundo inteiro já falaram de sua importância fundamental para o cinema italiano. Aliás, nem precisariam ter falado: no caso de um ator como Gassman, bastaria ter relacionado todos os filmes que ele interpretou. Cinco deles aparecem lá no alto da minha listinha de filmes preferidos: I Soliti Ignoti, La Grande Guerra, Il Sorpasso, I Mostri e L'Armata Brancaleone (uma ova que digo os títulos em português. Como foi que Il Sorpasso, ou "A Ultrapassagem", virou "Aquele que Sabe Viver"?).

Três desses filmes foram dirigidos por Mario Monicelli, os outros dois por Dino Risi. O primeiro é de 1958. O último, de 1966. Os cinco são cômicos. Não é casual que o cinema italiano tenha produzido suas melhores comédias no começo da década de 60. Foi o período do chamado "boom" econômico. Ou seja, depois das misérias do pós-guerra, a economia italiana entrou em fase de rápida expansão. Os barracos foram substituídos pelos monstruosos blocos de apartamentos que até hoje deturpam as periferias das cidades e todas as famílias se endividaram para comprar seus minúsculos Fiat 500. Dinheiro fresco é sempre cômico. O cinema italiano logo percebeu isso. Começou a debochar da sociedade que ia se formando: os políticos corruptos, a igreja hipócrita, o empresariado fraudulento, a pequena burguesia abjeta, o proletariado ignorante, os miseráveis dispostos a tudo. A partir de um certo momento, o cinema passou a atacar inclusive a única coisa de que os italianos podiam se vangloriar sem cair no ridículo: a história.

Hoje em dia, os italianos já não sabem mais fazer filmes. Eles se acostumaram ao dinheiro. Passaram a se levar muito a sério. Tornaram-se mais introspectivos. Chegaram ao cúmulo de dizer que Gassman morreu de depressão. Aos 77 anos, morre-se de velhice, não de depressão. Além disso, a morte independe da vontade. Tem gente que quer viver e morre, e tem gente que não se importaria em morrer e continua vivendo. A meu ver, o Brasil estaria no ponto para tomar o lugar da Itália. Encontramo-nos mais ou menos onde os italianos se encontravam nos anos 60. Não há nada mais tragicamente cômico do que o espetáculo de brasileiros estabanados correndo atrás de dinheiro. Ontem revi pela sexta ou sétima vez Os Monstros. No filme, Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi se alternam numa série de personagens que, com pequenas adaptações, poderiam perfeitamente ser brasileiros. Em vez de continuar a filmar o aborrecido e antiquado teatro de Nelson Rodrigues, deveríamos inspirar-nos na sátira social do cinema italiano. Mas nos falta o senso de humor. Humor, no Brasil, é Casseta & Planeta: um misto de piada de salão com paródia de telenovela. Falta-nos, também, o talento. Um talento como o de Vittorio Gassman, por exemplo. E, eu ia esquecendo, o mais importante: falta-nos o "boom" econômico. Sem dinheiro, não há comédia.