Vamos rir de nós mesmos
Montagem de Pepe Casals sobre fotos
de Sipra Press, Bruno Veiga/Strana e Divulgação
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Não vou fazer um necrológio. Vittorio Gassman
morreu quase duas semanas atrás. É tarde demais
para sair dando cotoveladas na tentativa de pegar uma alça
do caixão. Jornais do mundo inteiro já falaram
de sua importância fundamental para o cinema italiano.
Aliás, nem precisariam ter falado: no caso de um
ator como Gassman, bastaria ter relacionado todos os filmes
que ele interpretou. Cinco deles aparecem lá no alto
da minha listinha de filmes preferidos: I Soliti Ignoti,
La Grande Guerra, Il Sorpasso, I Mostri
e L'Armata Brancaleone (uma ova que digo os títulos
em português. Como foi que Il Sorpasso, ou
"A Ultrapassagem", virou "Aquele que Sabe Viver"?).
Três desses filmes foram dirigidos por Mario Monicelli,
os outros dois por Dino Risi. O primeiro é de 1958.
O último, de 1966. Os cinco são cômicos.
Não é casual que o cinema italiano tenha produzido
suas melhores comédias no começo da década
de 60. Foi o período do chamado "boom" econômico.
Ou seja, depois das misérias do pós-guerra,
a economia italiana entrou em fase de rápida expansão.
Os barracos foram substituídos pelos monstruosos
blocos de apartamentos que até hoje deturpam as periferias
das cidades e todas as famílias se endividaram para
comprar seus minúsculos Fiat 500. Dinheiro fresco
é sempre cômico. O cinema italiano logo percebeu
isso. Começou a debochar da sociedade que ia se formando:
os políticos corruptos, a igreja hipócrita,
o empresariado fraudulento, a pequena burguesia abjeta,
o proletariado ignorante, os miseráveis dispostos
a tudo. A partir de um certo momento, o cinema passou a
atacar inclusive a única coisa de que os italianos
podiam se vangloriar sem cair no ridículo: a história.
Hoje em dia, os italianos já não sabem mais
fazer filmes. Eles se acostumaram ao dinheiro. Passaram
a se levar muito a sério. Tornaram-se mais introspectivos.
Chegaram ao cúmulo de dizer que Gassman morreu de
depressão. Aos 77 anos, morre-se de velhice, não
de depressão. Além disso, a morte independe
da vontade. Tem gente que quer viver e morre, e tem gente
que não se importaria em morrer e continua vivendo.
A meu ver, o Brasil estaria no ponto para tomar o lugar
da Itália. Encontramo-nos mais ou menos onde os italianos
se encontravam nos anos 60. Não há nada mais
tragicamente cômico do que o espetáculo de
brasileiros estabanados correndo atrás de dinheiro.
Ontem revi pela sexta ou sétima vez Os Monstros.
No filme, Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi se alternam numa
série de personagens que, com pequenas adaptações,
poderiam perfeitamente ser brasileiros. Em vez de continuar
a filmar o aborrecido e antiquado teatro de Nelson Rodrigues,
deveríamos inspirar-nos na sátira social do
cinema italiano. Mas nos falta o senso de humor. Humor,
no Brasil, é Casseta & Planeta: um misto de piada
de salão com paródia de telenovela. Falta-nos,
também, o talento. Um talento como o de Vittorio
Gassman, por exemplo. E, eu ia esquecendo, o mais importante:
falta-nos o "boom" econômico. Sem dinheiro, não
há comédia.