Edição 1 657 - 12/7/2000

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Pessimismo econômico

"Há sinais de que a economia vai crescer
mais, o emprego aumentar, a renda também
e, com inflação baixa, os orçamentos das
famílias vão ficar mais folgados. Só então os
brasileiros voltarão a ter expectativas otimistas"

O desemprego está caindo e a taxa de ocupação aumentando. A inflação está muito baixa e pode ser inferior à meta de 6% em 2000. A produção industrial dá os primeiros sinais de recuperação firme. É o que revelam as estatísticas macroeconômicas do país. Os brasileiros, porém, vêem as coisas de outro jeito. Pesquisa Datafolha de junho encontrou 60% de pessoas dizendo que a inflação vai subir. Para 64%, o desemprego vai aumentar e 40% acham que seu poder de compra vai diminuir mais. O índice de confiança do consumidor da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP) piorou entre março e junho, principalmente porque a avaliação da situação econômica atual ficou mais negativa. Será que os brasileiros vivem num Brasil e as estatísticas noutro?

Sei que muitos desconfiam dos números oficiais. Eu não vejo razão para desacreditar deles. E conheço quem despreze as pesquisas de opinião sobre a economia. Acham que as pessoas nada entendem de economia. Eu acredito que entendem sim. Existe uma explicação menos desconfiada para essa aparente divergência entre indicadores macroeconômicos e as percepções das pessoas. Para quem consome mais bens e serviços cujos preços estão em alta, a inflação está subindo mais do que para a cesta-padrão de consumo. Para quem está em uma região em crise, onde o desemprego está crescendo, o índice cresce, ora bolas, não cai como mostram as estatísticas do governo e do Dieese.

Quem comprou a crédito no Natal de 1999 e não teve aumento de renda ficou com o orçamento muito apertado. Os aumentos acima da inflação de preços administrados – transportes, combustíveis e eletricidade – e das mensalidades escolares deixaram grande parte das classes de renda baixa e média com a corda no pescoço. E os remédios, então?

Esse sentimento de mal-estar econômico é tão real quanto a queda da inflação. Tem a ver com perdas reais de renda. Com a crise do câmbio, passamos do "efeito riqueza" para o "efeito pobreza", sem escalas. A massa de salários reais caiu, na média, quase 10% entre janeiro de 1999 e maio de 2000. Nesse mesmo período, os salários médios reais caíram 7%. E caíram mais para os brasileiros que têm instrução média – 10,6% –, faixa em que está boa parte da classe média, formadora de opinião. Para os assalariados com menor instrução, o salário médio havia caído 7,6% entre janeiro de 1999 e janeiro de 2000. Mas passaram a crescer devagar desde fevereiro.

O desconforto vem do medo do desemprego. Das dificuldades para saldar compromissos. Da frustração de planos de consumo. Da redução de gastos que dão prazer ou facilitam a vida. Do maior sacrifício para pagar a escola, o ônibus ou para encher o tanque do automóvel.

É ele que está na raiz desse pessimismo econômico dos brasileiros que as pesquisas mostram. Entretanto – e esse dado é importante –, os brasileiros estão em geral mais felizes, mais satisfeitos com a própria vida: 70%, de acordo com o Ibope. É a memória da melhoria que já alcançaram. Entre 1991 e 1999, a renda média cresceu 7%. Até 1997 havia um ganho de 13%. Nenhuma contradição, estão satisfeitos com a vida, que melhorou, não com a economia ou com o governo, que consideram responsável por seu mal-estar atual, que aumentou.

O que dizer, então, dos dados macroeconômicos? É certo que as coisas pararam de piorar – o desemprego vem cedendo devagarzinho e a inflação está baixinha. Mas a desocupação continua alta e a economia apenas inicia a retomada. Quem vai de mal a menos mal dificilmente consegue notar a diferença. Os salários ainda não começaram a crescer e a inflação, por menor que seja, continua reduzindo o poder de compra dos assalariados. Há sinais de que a economia vai crescer mais, o emprego aumentar, a renda também e, com inflação baixa, os orçamentos das famílias vão ficar mais folgados. Só então os brasileiros voltarão a ter expectativas otimistas, principalmente se ficarem mais confiantes quanto ao futuro. Os dados não falam de dois Brasis, um oficial e outro real, mas de dimensões diferentes e verdadeiras do mesmo Brasil.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)