Pessimismo econômico
"Há sinais de que a economia vai
crescer
mais, o emprego aumentar, a renda também
e, com inflação baixa, os orçamentos
das
famílias vão ficar mais folgados. Só
então os
brasileiros voltarão a ter expectativas otimistas"
O desemprego está caindo e a taxa de ocupação
aumentando. A inflação está muito baixa
e pode ser inferior à meta de 6% em 2000. A produção
industrial dá os primeiros sinais de recuperação
firme. É o que revelam as estatísticas macroeconômicas
do país. Os brasileiros, porém, vêem
as coisas de outro jeito. Pesquisa Datafolha de junho encontrou
60% de pessoas dizendo que a inflação vai
subir. Para 64%, o desemprego vai aumentar e 40% acham que
seu poder de compra vai diminuir mais. O índice de
confiança do consumidor da Federação
do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP)
piorou entre março e junho, principalmente porque
a avaliação da situação econômica
atual ficou mais negativa. Será que os brasileiros
vivem num Brasil e as estatísticas noutro?
Sei que muitos desconfiam dos números oficiais.
Eu não vejo razão para desacreditar deles.
E conheço quem despreze as pesquisas de opinião
sobre a economia. Acham que as pessoas nada entendem de
economia. Eu acredito que entendem sim. Existe uma explicação
menos desconfiada para essa aparente divergência entre
indicadores macroeconômicos e as percepções
das pessoas. Para quem consome mais bens e serviços
cujos preços estão em alta, a inflação
está subindo mais do que para a cesta-padrão
de consumo. Para quem está em uma região em
crise, onde o desemprego está crescendo, o índice
cresce, ora bolas, não cai como mostram as estatísticas
do governo e do Dieese.
Quem comprou a crédito no Natal de 1999 e não
teve aumento de renda ficou com o orçamento muito
apertado. Os aumentos acima da inflação de
preços administrados transportes, combustíveis
e eletricidade e das mensalidades escolares deixaram
grande parte das classes de renda baixa e média com
a corda no pescoço. E os remédios, então?
Esse sentimento de mal-estar econômico é
tão real quanto a queda da inflação.
Tem a ver com perdas reais de renda. Com a crise do câmbio,
passamos do "efeito riqueza" para o "efeito pobreza", sem
escalas. A massa de salários reais caiu, na média,
quase 10% entre janeiro de 1999 e maio de 2000. Nesse mesmo
período, os salários médios reais caíram
7%. E caíram mais para os brasileiros que têm
instrução média 10,6% , faixa
em que está boa parte da classe média, formadora
de opinião. Para os assalariados com menor instrução,
o salário médio havia caído 7,6% entre
janeiro de 1999 e janeiro de 2000. Mas passaram a crescer
devagar desde fevereiro.
O desconforto vem do medo do desemprego. Das dificuldades
para saldar compromissos. Da frustração de
planos de consumo. Da redução de gastos que
dão prazer ou facilitam a vida. Do maior sacrifício
para pagar a escola, o ônibus ou para encher o tanque
do automóvel.
É ele que está na raiz desse pessimismo
econômico dos brasileiros que as pesquisas mostram.
Entretanto e esse dado é importante , os brasileiros
estão em geral mais felizes, mais satisfeitos com
a própria vida: 70%, de acordo com o Ibope. É
a memória da melhoria que já alcançaram.
Entre 1991 e 1999, a renda média cresceu 7%. Até
1997 havia um ganho de 13%. Nenhuma contradição,
estão satisfeitos com a vida, que melhorou, não
com a economia ou com o governo, que consideram responsável
por seu mal-estar atual, que aumentou.
O que dizer, então, dos dados macroeconômicos?
É certo que as coisas pararam de piorar o desemprego
vem cedendo devagarzinho e a inflação está
baixinha. Mas a desocupação continua alta
e a economia apenas inicia a retomada. Quem vai de mal a
menos mal dificilmente consegue notar a diferença.
Os salários ainda não começaram a crescer
e a inflação, por menor que seja, continua
reduzindo o poder de compra dos assalariados. Há
sinais de que a economia vai crescer mais, o emprego aumentar,
a renda também e, com inflação baixa,
os orçamentos das famílias vão ficar
mais folgados. Só então os brasileiros voltarão
a ter expectativas otimistas, principalmente se ficarem
mais confiantes quanto ao futuro. Os dados não falam
de dois Brasis, um oficial e outro real, mas de dimensões
diferentes e verdadeiras do mesmo Brasil.
Sérgio Abranches
é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)