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Roberto
Pompeu de Toledo
Felipão,
um brasileiro
Onde
se faz o
cotejo entre
o
técnico da
seleção e
o "homem
cordial"
de
Sérgio Buarque
Dentro
de campo o jogo pode correr frouxo e desanimado. Fora, nunca. O técnico
fala, e grita, e insiste, e esbraveja. Num momento abre os braços,
em desespero. No outro aponta, com gestos largos, para onde quer que tal
ou qual jogador se desloque. Num terceiro momento faz cara de susto, num
quarto cara de desânimo, num quinto cara de alívio. Distribui
broncas. Reclama do juiz, esse ladrão nato. Tudo de forma exaltada,
enérgica, quente, enfática, o coração e os
nervos à flor da pele. Não consegue ficar sentado. E, no
momento do gol, ninguém como ele explode em tantas contorções
de alegria, e pula, e corre, e abraça um, e abraça outro,
e abraça todos, e se desmilingúi inteiro de comoção
e júbilo.
Já se sabe de quem se fala: do técnico da seleção,
Luiz Felipe Scolari. Ele é a ilustração viva do brasileiro
tal qual foi descrito por Sérgio Buarque de Holanda no capítulo
"O homem cordial", do clássico Raízes do Brasil.
Esclareça-se desde logo o que esse autor quis dizer com "homem
cordial". Não é o bonzinho. Cordial, palavra que vem de
cor, cordis coração, em latim , é
empregada em seu sentido etimológico, ou seja: significa "do coração"
mesmo. O homem cordial é então aquele que, dotado de "um
fundo emotivo extremamente rico e transbordante", nas palavras de Sérgio
Buarque, age e reage sob a influência dominadora do coração.
É o boa-praça, o amigão do tapa nas costas, mas que
nem por isso se deve confundir com alguém que se rege pela polidez
ou civilidade. Eis Luiz Felipe Scolari. Ou melhor: Felipão.
Tal tipo emotivo conforma-se mal à esfera do impessoal e do abstrato.
Impessoal e abstrato é o Estado, regido por leis que, representando
o triunfo do geral sobre o particular, estão acima de todos e são
iguais para todos. A esfera por excelência do homem cordial é
aquela que, segundo o autor de Raízes do Brasil, representa
o oposto do Estado a família. Aqui, o que vale é
o pessoal e o concreto. Estamos no nível das "relações
primárias", no qual o que domina são os laços de
sangue e de afeto. Segue-se que acertou em cheio quem (salvo engano, foi
a Rede Globo) apelidou o grupo de jogadores que ora integra a seleção
brasileira de "Família Scolari". Felipão, como bom homem
cordial, costuma moldar os elencos de jogadores sob sua direção
à imagem e semelhança da família. Não foi
por outra razão que deixou Romário de fora. Com este, mantinha
relações distantes, desconfiadas, frias. Quando é
assim, não dá para forjar o simulacro de liame de sangue
que, para o homem cordial, é o único modo de estabelecer
bom relacionamento com alguém.
Sérgio Buarque dedica dois parágrafos à distinção
entre a corporação de artesãos da Idade Média
e a empresa moderna. Na primeira, o mestre, seus aprendizes e jornaleiros
formam como uma família, "cujos membros se sujeitam a uma hierarquia
natural". As relações são pessoais e diretas. Já
na empresa chefes e operários estão separados, uns exercendo
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Sérgio Buarque dedica dois parágrafos à distinção
entre a corporação de artesãos da Idade Média
e a empresa moderna. Na primeira, o mestre, seus aprendizes e jornaleiros
formam como uma família, "cujos membros se sujeitam a uma hierarquia
natural". As relações são pessoais e diretas. Já
na empresa chefes e operários estão separados, uns exercendo
funções de administração, outros de trabalho
manual. As relações são impessoais e distantes. Entre
o trabalhador manual e o derradeiro proprietário "existe toda uma
hierarquia de funcionários e autoridades". A seleção
de Felipão, longe de apresentar o feitio de uma empresa, assemelha-se
a uma corporação de artesãos.
Já que se trata de uma família, unida pelos laços
apertados, indissolúveis e tão freqüentemente sufocantes
do parentesco ai do inimigo. Sim, o homem cordial, como prova definitiva
de que "cordial", aqui, não pode ser confundido com bonzinho, tem
inimigos. O inimigo é o estranho, o que não é dos
nossos, o que não entende nossa linguagem. "A inimizade", escreve
Sérgio Buarque, "pode ser tão cordial quanto a amizade",
e então o inimigo que se cuide: a ofensiva contrária virá
do fundo do coração. Logo em sua primeira preleção
quando foi contratado pelo Palmeiras, Scolari saiu-se com esta: "Quero
transformar o Parque Antártica (o estádio do Palmeiras)
em um inferno. Vamos jogar aqui. Quem não for nosso na arquibancada
vai levar garrafada". Em outra ocasião, ainda no tempo do Palmeiras,
um microfone indiscreto, no vestiário, capturou-lhe o desabafo
seguinte: "Eu tenho um time maduro, experiente, mas que, na hora do bem-bom,
não sabe dar um pontapé! Não sabe dar um cascudo!".
Sérgio Buarque também põe na conta do homem cordial
que é, por excelência, o brasileiro o fato de entre nós
serem tão freqüentes os diminutivos. É Toninho para
cá, Mariazinha para lá... Raízes do Brasil
foi publicado em 1936. Nesse tempo ainda não eram tão populares
os aumentativos. Hoje são, e com a mesma função de
aproximar a pessoa, e com ela criar intimidade. Eis então que nosso
personagem, resumo e emblema de tudo o que Sérgio Buarque quis
dizer, não é Luiz Felipe. É o Felipão. E com
isso se chega à conclusão suprema, quando se coteja o "homem
cordial" de Raízes do Brasil com o técnico da seleção:
é espantoso que Sérgio Buarque tenha podido descrever o
tipo-síntese do brasileiro sem ter conhecido o Felipão.
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