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Edição 1 755 - 12 de junho de 2002
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Nilo enlatado

Nagib Mahfuz mostra
o Egito em tecnicolor

Jerônimo Teixeira


O livro consegue destacar-se no meio da atulhada prateleira de novidades por causa de quatro palavrinhas na capa: Prêmio Nobel de Literatura. O título soa banal, mas a fama do egípcio Nagib Mahfuz derruba essa restrição. Você já deve ter ouvido esse nome embalado em aclamações do tipo "uma das mais expressivas vozes da narrativa árabe contemporânea". O sujeito ainda por cima é um mártir da luta contra o extremismo, sofreu um atentado em 1994. E assim, imbuído do mais generoso espírito multiculturalista, você decide levar O Jogo do Destino (tradução de Ibrahim Georges Khalil; Record; 268 páginas; 30 reais). A ação tem lugar no Antigo Egito. Lá se vão suas esperanças de se aprofundar na cultura islâmica, tão em moda graças a Glória Perez e Osama bin Laden. Mas você insiste na leitura, reprimindo o ímpeto de criticar a profusão de clichês. Não queria exotismo? Já no primeiro parágrafo o faraó aparece recostado em uma almofada de penas de avestruz.

Persiste no entanto uma renitente sensação de déjà vu. É que você já viu o mesmo Antigo Egito em filmes da velha Hollywood. O lirismo ornamental de O Jogo do Destino é puro tecnicolor. Uma pena que o livro – um dos primeiros do autor, lançado em 1939 – tenha demorado a aparecer no Brasil. Mahfuz poderia ter-se consagrado como concorrente do cineasta Cecil B. DeMille.

   
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