Nilo
enlatado
Nagib Mahfuz mostra
o
Egito em tecnicolor
Jerônimo
Teixeira
O
livro consegue destacar-se no meio da atulhada prateleira de novidades
por causa de quatro palavrinhas na capa: Prêmio Nobel de Literatura.
O título soa banal, mas a fama do egípcio Nagib Mahfuz derruba
essa restrição. Você já deve ter ouvido esse
nome embalado em aclamações do tipo "uma das mais expressivas
vozes da narrativa árabe contemporânea". O sujeito ainda
por cima é um mártir da luta contra o extremismo, sofreu
um atentado em 1994. E assim, imbuído do mais generoso espírito
multiculturalista, você decide levar O Jogo do Destino (tradução
de Ibrahim Georges Khalil; Record; 268 páginas; 30 reais). A ação
tem lugar no Antigo Egito. Lá se vão suas esperanças
de se aprofundar na cultura islâmica, tão em moda graças
a Glória Perez e Osama bin Laden. Mas você insiste na leitura,
reprimindo o ímpeto de criticar a profusão de clichês.
Não queria exotismo? Já no primeiro parágrafo o faraó
aparece recostado em uma almofada de penas de avestruz.
Persiste no entanto uma renitente sensação de déjà
vu. É que você já viu o mesmo Antigo Egito em filmes
da velha Hollywood. O lirismo ornamental de O Jogo do Destino é
puro tecnicolor. Uma pena que o livro um dos primeiros do autor,
lançado em 1939 tenha demorado a aparecer no Brasil. Mahfuz
poderia ter-se consagrado como concorrente do cineasta Cecil B. DeMille.
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