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De olhos bem abertos

O brasileiro fica acordado para
ver o futebol da Copa. Mesmo
quando o jogo não é da seleção

Ricardo Valladares

 
Epitácio Pessoa/AE
Pessoas se reúnem para assistir ao jogo do Brasil: salto de audiência nas manhãs e madrugadas

São 3 e meia da madrugada e mais uma partida da Copa do Mundo de futebol está começando. Um jogo como México e Croácia, Rússia e Tunísia ou Suécia e Nigéria, com seleções nas quais ninguém aposta muito e que nem mesmo fazem parte da chave do Brasil – o que as tornaria um pouco mais interessantes. Engana-se, no entanto, quem imagina que o locutor da Rede Globo, que tem os direitos exclusivos de exibição do campeonato no Brasil, vai narrar a partida apenas para os satélites. Desde que a Copa começou, em 31 de maio, praticamente dobrou o número de televisores ligados no país entre 2 e meia e 6 horas da manhã. Ele foi de 10% para 19%. A audiência da emissora também teve um salto impressionante: passou de 4 para 13 pontos em média. Dois anos atrás, nas Olimpíadas de Sydney, que teve várias provas realizadas na madrugada brasileira, os índices de ibope nem se mexeram nesse horário. Depois das 8 horas, os jogos atraem mais público ainda – as médias giram em torno dos 30 pontos. E nem é preciso dizer que, com o Brasil em campo, a audiência tende a explodir: ela foi de 64 pontos na primeira partida da seleção. O futebol, definitivamente, tem o poder de arrancar o espectador brasileiro da cama.

A Rede Globo investiu um caminhão de dinheiro ao comprar, da Fifa, os direitos de transmissão de todos os jogos da Copa. Foram 220 milhões de dólares – 150 milhões para mostrar os jogos na televisão aberta e mais 70 milhões para exibi-los na TV paga. A maior emissora mexicana, a Televisa, desembolsou muito menos que isso num pacote com as dezoito principais partidas. "Pagamos 10 milhões de dólares", diz o diretor de esportes da Televisa, Alberto Sosa. A Globo tentou repassar parte dos direitos que adquiriu para outras emissoras brasileiras, mas nenhuma se interessou – elas estão se virando na base das velhas e boas mesas-redondas de futebol. No mercado publicitário, também foi difícil vender cotas de patrocínio. Só uma semana antes do primeiro jogo a última cota foi negociada. Estima-se que o prejuízo da emissora chegue a 100 milhões de dólares. Receber bons relatórios de audiência tem sido, ao menos, um consolo.

 
Divulgação
Galvão Bueno e Arnaldo Cezar Coelho: custos cortados

Por causa desses prejuízos, a Globo enviou para o Japão e a Coréia uma equipe bem menor que a do Mundial da França, em 1998. Custos foram cortados. Não é por acaso que as jornalistas Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão, apresentadoras dos dois principais jornais da emissora e encarregadas de dar um toque de charme à cobertura da Copa, só fazem suas intervenções a céu aberto. "Não montamos cenário por economia", afirma um diretor da Globo. A carga de trabalho não está brincadeira. "Por causa da diferença de fuso, estamos dormindo pouquíssimas horas", diz o comentarista de arbitragem Arnaldo Cezar Coelho. Mas ninguém acusa o baque. Muito menos o locutor Galvão Bueno, que, nesta Copa de transmissão exclusiva, é mais do que nunca o dono da bola.

   
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