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de grife Um vestido da Kenzo que sai por 2 000 reais em São Paulo pode ser comprado por 1 000 reais em Buenos Aires 50% OFF |
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A Argentina sempre foi um dos países prediletos dos turistas brasileiros. Mas nos últimos anos, com o peso valendo o mesmo que o dólar enquanto o real se desvalorizava, ficou caro visitar o país vizinho. A situação hoje é oposta. Depois do fim da paridade forçada entre as duas moedas, o valor do peso argentino cai sem parar há cinco meses. Na semana passada, eram necessários 3,60 pesos para comprar 1 dólar. Os preços de produtos e serviços também foram empurrados para baixo pela crise econômica. O resultado é que a Argentina ficou um lugar bem mais acessível ao bolso de quem sai do Brasil. O melhor exemplo de mudança é Bariloche, destino preferido dos brasileiros que querem ver neve ou vão esquiar pela primeira vez. No início da década de 90, chegou a ser apelidada de "Brasiloche", mas depois a brasileirada sumiu, assustada com os preços. Um exemplo: o cafezinho custava 3,5 dólares, uns 9 reais. Neste ano, com preços mais em conta, a cidade nos Andes argentinos espera receber 40% mais de turistas brasileiros que em 2001. Um pacote de sete dias em hotel confortável pode ser comprado por 700 dólares, 30% mais barato que no ano passado. No requintado hotel Llao Llao, de cinco estrelas, a hospedagem por uma semana, que já custou 2.490 dólares, agora sai por 1 872. Um jantar para duas pessoas, pelo qual se pagavam 80 dólares, hoje não ultrapassa 15. O aluguel de uma roupa de esqui está fixado em 5 dólares. Em 2001, era de 15.
Um fim de semana em Buenos Aires, com o trecho aéreo saindo de São Paulo, hotel de três estrelas, café da manhã, um passeio pela cidade e um jantar incluídos, custa 200 dólares por pessoa, 100 menos que no ano passado. É quase a metade do preço de um pacote similar para Foz do Iguaçu. O mesmo programa num hotel cinco-estrelas anda em torno de 350 dólares. Fazer compras também se tornou convidativo. As jaquetas de couro, item tradicional das compras feitas por brasileiros em Buenos Aires, são encontradas pelo equivalente a 60 reais. No Brasil, custam pelo menos duas ou três vezes mais. Os preços de ocasião são encontrados também no comércio de luxo. Vestidos da grife internacional Kenzo são vendidos em Buenos Aires pelo equivalente a 1 000 reais. Uma pechincha, quando se leva em conta que a loja da Kenzo em São Paulo cobra 2 000 reais por uma peça semelhante. Um terno italiano da Emporio Armani é um achado por 1 400 reais, pois o modelo equivalente está por 2 100 reais nas lojas brasileiras. Os ingressos mais baratos para uma ópera no Teatro Colón, um dos mais badalados da América Latina, custam 30 reais. Antes estavam na faixa dos 100 reais.
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| Mansões
em San Isidro Casas de quatro dormitórios em um dos bairros mais caros de Buenos Aires estão à venda por 280 000 dólares. Custavam 560 000 dólares no ano passado 50% OFF |
Os brasileiros não são os únicos a se aproveitarem do clima de liquidação que tomou conta da Argentina. O comércio de Buenos Aires tornou-se desesperadamente dependente de compradores estrangeiros. A maioria são chilenos e uruguaios, mas há também mexicanos, colombianos e bolivianos. De acordo com dados da Coordinadora de Actividades Mercantiles Empresarias (Came), associação de empresas do setor de serviços, as vendas no ramo turístico aumentaram 65% em maio em relação ao mesmo mês do ano anterior. No cenário de profunda recessão, só duas outras atividades a conversão de carros a gasolina para gás e os cinemas operam no azul. "O turismo é a principal fonte de ingresso de divisas na Argentina no momento, principalmente por fazer com que o dinheiro entre em curto prazo", diz Ruben Ali, representante da Secretaria de Turismo e Esporte da Argentina no Brasil. Ruben Ali espera que 800.000 brasileiros visitem o país neste ano, 300 000 mais que no ano passado.
Valdemir Cunha![]() |
| Terras
agrícolas Os melhores solos para o cultivo de soja, trigo e milho no norte da província de Buenos Aires podem ser comprados por 2 500 dólares o hectare. No ano passado custavam 3 330 dólares 25% OFF |
O clima de liquidação e os preços de banana não se restringem ao comércio e aos hotéis. A estagnação econômica, o bloqueio das contas bancárias e a falta de investimentos estrangeiros jogaram para baixo o valor de quase tudo por lá. Para quem procura pechinchas no país vizinho, não poderia haver melhor momento. Muitas companhias estrangeiras estão saindo da Argentina e vendendo seus patrimônios. As empresas nacionais, descapitalizadas e sem perspectivas de conseguir financiamento nos bancos, estão ávidas por associações com empresários do Brasil. No início de maio, a AmBev, a cervejaria que reúne a Brahma e a Antarctica, comprou 37,5% da Quilmes, dona de 70% do mercado argentino de cervejas, por 346 milhões de dólares. A Petrobras estuda a possibilidade de adquirir a Petrolera Santa Fe num negócio de algumas dezenas de milhões de dólares. A pequena refinaria pertence à americana Devon, que decidiu sair da Argentina. "Em quase todos os setores existe a possibilidade de criar alianças e associações estratégicas", diz Jorge Camargo, diretor da área internacional da Petrobras. De acordo com o Grupo Brasil, entidade que representa 190 empresas na Argentina, as oportunidades mais interessantes encontram-se no setor alimentício e no têxtil.
Apesar disso tudo, os negócios andam a passos lentos, pois qualquer investimento na Argentina é de alto risco. Muitas companhias brasileiras instaladas por lá sentiram o baque da recessão e da mudança cambial. A Hering e a Sadia reduziram as operações no país. A Marcopolo, fabricante de ônibus com sede no Rio Grande do Sul, foi obrigada a injetar mais dinheiro em sua filial argentina. Os riscos são menores com imóveis e terras, que também têm boas ofertas. Desde dezembro, o preço das áreas para agricultura caiu entre 20% e 35%. De acordo com estimativa da JR Reynolds, imobiliária especializada em residências de alto padrão em Buenos Aires, a queda no valor dos imóveis na capital argentina chegou a 50% nos últimos cinco meses. "Tenho recebido telefonemas de americanos e europeus interessados em comprar imóveis, mas não ouvi nada de brasileiros", diz Pablo Dukarevich, um dos proprietários do escritório de advocacia Baker & McKenzie, em Buenos Aires. A presença brasileira é maior em Punta del Este, o elegante balneário uruguaio freqüentado pela elite argentina. Como precisam de dinheiro, muitos proprietários estão vendendo casas e apartamentos de veraneio com descontos de 25% em relação ao que pediriam um ano atrás. "Os paulistas e cariocas compram as casas mais caras. Já os gaúchos querem os apartamentos mais acessíveis", observa Cesar Devincenzi, corretor da imobiliária Ester y Diaz. Um apartamento de dois dormitórios, com vista para o mar, que custava 80.000 dólares, é facilmente encontrado à venda por 60.000. A Argentina é um país em liquidação.
Com
reportagem de
Eduardo Salgado e Diogo Schelp
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