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Edição 1 755 - 12 de junho de 2002
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Tem famosos no meio

Polícia apura um bilionário esquema
de remessa ilegal de dinheiro ao exterior
e já tem nomes de gente graúda

Policarpo Junior


Antonio Milena
O ministro da Justiça, Miguel Reali Júnior: tempo para separar o joio do trigo

Nos próximos dias, um grupo de técnicos do Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, vai concluir um relatório explosivo, com cerca de 1.000 páginas e alguns milhares de anexos. Nessa papelada, com todos os detalhes de nomes, datas e valores, estará consolidado o resultado de uma investigação monumental: a radiografia minuciosa das entranhas do maior esquema de remessa ilegal de dinheiro ao exterior de que se tem notícia no Brasil. A investigação iniciou-se há cinco anos, desdobrou-se em inúmeras ramificações e no fim do ano passado começou a chegar perto do centro da operação, razão pela qual vem sendo mantida em sigilo. Na semana passada, VEJA teve acesso às primeiras conclusões do trabalho, que mobiliza um seleto contingente da Polícia Federal e do Ministério Público. É coisa maiúscula sob qualquer aspecto que se analise. O volume de dinheiro manipulado? Doze bilhões de reais. O número de pessoas e empresas envolvidas? Trinta e cinco mil. No balaio, os investigadores já identificaram a presença de empresários conhecidos, políticos famosos e altos funcionários públicos. "Isso é nitroglicerina pura", afirma o procurador Celso Três, que deu o pontapé inicial nas investigações.

Funcionando a todo o vapor entre 1996 e 1997, o esquema envolvia um grupo de doze doleiros, todos com atuação na região de Foz do Iguaçu, no Paraná, e cerca de 2.000 laranjas, normalmente pessoas humildes que cedem o nome para a abertura de uma conta bancária em troca de algum dinheiro. As contas dos laranjas funcionavam em cinco bancos brasileiros, todos com agências em Foz do Iguaçu, e o grosso do dinheiro deixava o Brasil, fazia uma escala em alguma instituição financeira do Paraguai e de lá era remetido a uma agência do Banestado, em Nova York. Nessa agência, que acabou fechada depois que o banco foi privatizado, em 2000, havia 137 contas que recebiam a remessa irregular saída do Brasil. Os investigadores descobriram que o movimento do dinheiro ilícito era tão alto que praticamente monopolizava os trabalhos da agência em Nova York. Sem saberem o motivo, alguns funcionários da agência eram convidados a abrir contas pessoais só para que o local registrasse algum tipo de movimentação financeira normal – e, com isso, não despertasse suspeitas.

Golpe de sorte – Em geral, as investigações sobre remessa ilegal de recursos para o exterior ou de lavagem de dinheiro esbarram num obstáculo. É possível descobrir como a quantia sai do Brasil e até para que banco e em que país é remetida – e nenhum passo além disso, por causa das regras internacionais de sigilo bancário e da burocracia para conseguir quebrar o sigilo de uma conta no exterior. Assim, fica-se sempre sem identificar o destinatário final do dinheiro. Desta vez, porém, os investigadores contaram com um golpe de sorte, nascido de uma tragédia – os atentados terroristas aos Estados Unidos. No fim do ano passado, depois do fatídico 11 de setembro, agentes do FBI, o equivalente americano da Polícia Federal, começaram a rastrear todas as operações bancárias realizadas nos Estados Unidos por cidadãos árabes. Descobriram que os registros bancários da desativada agência do Banestado em Nova York exibiam graúdos movimentos financeiros de cidadãos com nomes árabes. Intrigado com uma possível conexão terrorista, o FBI repassou a informação à polícia brasileira, para que checasse a identidade dessas pessoas.

Em Foz do Iguaçu, a Polícia Federal, que havia anos vinha investigando o esquema, já tinha conhecimento de que o grosso do dinheiro enviado irregularmente ao exterior era manipulado por doleiros brasileiros – e alguns deles eram descendentes de árabes. Mas, até então, só sabia que os recursos saíram do Brasil e foram para contas em bancos no Paraguai. Quando recebeu os dados apurados pelo FBI, a polícia brasileira constatou que os nomes árabes correspondiam aos dos doleiros. Ganhara um presente: acabava de descobrir para onde fora o dinheiro depois da escala paraguaia. Era Nova York. De posse dessa informação, a Polícia Federal enviou um delegado a Nova York para analisar os registros da antiga agência do Banestado. Ao examinar a papelada, os investigadores descobriram a existência das 137 contas bancárias, que recebiam os valores despachados do Brasil, e puderam ter acesso a uma informação ainda mais preciosa – o destino dessas somas depois de ser sacadas do Banestado em Nova York. O dinheiro escoava para algumas pessoas físicas e, na grande maioria dos casos, para empresas com sede em paraísos fiscais. Na ponta final, somaram-se 35.000 destinatários.

"Foi uma longa investigação para separar o joio do trigo", diz o ministro da Justiça, Miguel Reali Júnior, a quem a Polícia Federal está subordinada. "A investigação detectou o uso das contas CC-5 como válvula de escape para a lavagem de dinheiro, que está sempre associada à corrupção e ao crime organizado." A Polícia Federal já identificou algumas das pessoas físicas que receberam o dinheiro. No caso das empresas, porém, a PF ainda lida com um obstáculo – descobrir quem é seu verdadeiro dono no paraíso fiscal. Até agora, tudo o que os investigadores sabem é o nome da companhia. Nada mais. A polícia tem indícios de que parte dos recursos desviados da Sudam tomou esse caminho. O doleiro que manipulou o dinheiro é Albert Youssef, brasileiro de origem árabe, que mantinha quarenta contas no Banestado em Londrina, no Paraná, todas abertas em nome de laranjas.

No Banestado em Nova York, os policiais também descobriram que um laranja remetia recursos a um fundo de investimento. Ao rastrear a operação, souberam que o dinheiro deixava o Banestado em Nova York e caía numa conta no Midland Bank, nas Ilhas Cayman, paraíso fiscal do Caribe. Nos registros, o beneficiário é identificado como "Opportunity Fund". Sabe-se que, nas Ilhas Cayman, o banco Opportunity mantém um fundo de investimento com esse nome. Há até uma investigação sobre suas operações correndo em Cayman. Um ex-sócio do Opportunity, Luiz Roberto Demarco, denunciou na Justiça que o fundo em Cayman, formado por consórcios que compraram empresas telefônicas, abrigava recursos de brasileiros – o que é ilegal. Os investigadores brasileiros querem saber agora se uma parte do dinheiro do Opportunity Fund deixou o Brasil ilegalmente e acabou voltando ao país, no processo de privatização das empresas telefônicas. Isso, dizem eles, significaria possivelmente lavagem de dinheiro. Por enquanto, é apenas uma linha de investigação, mas eles insistem nesse ponto. O certo é que muita gente terá, em breve, 12 bilhões de dores de cabeça.

 

O caminho dos bilhões

Entre 1992 e 1997, pessoas e empresas no Brasil mandaram 124 bilhões de reais para o exterior através das chamadas contas CC-5. Os investigadores federais identificaram que a maior parte desse valor saiu do Brasil legalmente. Mas uma parcela gorda, de 12 bilhões de reais, era dinheiro sujo, pois deixou o país em nome de laranjas e não dos verdadeiros donos. A operação funcionava assim:

1 As pessoas que queriam mandar dinheiro irregularmente para o exterior entravam em contato com um grupo de doze doleiros, todos com atuação em Foz do Iguaçu, no Paraná, que se encarregavam da parte prática da operação

2 Os doleiros, quase todos donos de casas de câmbio sediadas no Paraguai, abriram contas em cinco bancos em Foz do Iguaçu - no Banestado, que foi privatizado em outubro de 2000, no Rural, no Araucária, no Bemge e no Banco do Brasil. As contas eram abastecidas por cerca de 2 000 laranjas

3 A maior parte do dinheiro, 3,7 bilhões de reais, foi depositada no Banco Araucária, seguido do Banestado, no qual pingaram 3,5 bilhões de reais. No Bemge foram depositados 2,5 bilhões. No Rural, 1,7 bilhão. No Banco do Brasil, cerca de 600 milhões de reais. Isso totalizou 12 bilhões de reais

4 Dos cinco bancos em Foz do Iguaçu, o dinheiro era remetido para o exterior através de contas CC-5. Dos 12 bilhões de reais, 1,5 bilhão foi enviado ao Swiss Bank, de Nova York. Os restantes 10,5 bilhões de reais foram para uma única agência do Banestado, também em Nova York

5 Na agência do Banestado em Nova York, o dinheiro era depositado em 137 contas, todas em nome de empresas instaladas em paraísos fiscais, as chamadas off-shores. A maior parte dessas empresas tinha sede nas Ilhas Cayman, nas Ilhas Virgens Britânicas e em Luxemburgo

6 Depois de repousar nas 137 contas em Nova York, o dinheiro foi sendo remetido para 35 000 beneficiários finais, a maioria formada por pessoas jurídicas, também com sede em paraísos fiscais. Na etapa atual do trabalho, os investigadores estão listando cada um desses beneficiários


 
 
   
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