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Tem famosos no meio
Polícia
apura um bilionário esquema
de remessa ilegal de dinheiro ao exterior
e já tem nomes de gente graúda

Policarpo
Junior
Antonio Milena
 |
| O
ministro da Justiça, Miguel Reali Júnior: tempo para
separar o joio do trigo |
Nos próximos
dias, um grupo de técnicos do Instituto Nacional de Criminalística,
em Brasília, vai concluir um relatório explosivo, com cerca
de 1.000 páginas e alguns milhares de
anexos. Nessa papelada, com todos os detalhes de nomes, datas e valores,
estará consolidado o resultado de uma investigação
monumental: a radiografia minuciosa das entranhas do maior esquema de
remessa ilegal de dinheiro ao exterior de que se tem notícia no
Brasil. A investigação iniciou-se há cinco anos,
desdobrou-se em inúmeras ramificações e no fim do
ano passado começou a chegar perto do centro da operação,
razão pela qual vem sendo mantida em sigilo. Na semana passada,
VEJA teve acesso às primeiras conclusões do trabalho, que
mobiliza um seleto contingente da Polícia Federal e do Ministério
Público. É coisa maiúscula sob qualquer aspecto que
se analise. O volume de dinheiro manipulado? Doze bilhões de reais.
O número de pessoas e empresas envolvidas? Trinta e cinco mil.
No balaio, os investigadores já identificaram a presença
de empresários conhecidos, políticos famosos e altos funcionários
públicos. "Isso é nitroglicerina pura", afirma o procurador
Celso Três, que deu o pontapé inicial nas investigações.
Funcionando
a todo o vapor entre 1996 e 1997, o esquema envolvia um grupo de doze
doleiros, todos com atuação na região de Foz do Iguaçu,
no Paraná, e cerca de 2.000 laranjas,
normalmente pessoas humildes que cedem o nome para a abertura de uma conta
bancária em troca de algum dinheiro. As contas dos laranjas funcionavam
em cinco bancos brasileiros, todos com agências em Foz do Iguaçu,
e o grosso do dinheiro deixava o Brasil, fazia uma escala em alguma instituição
financeira do Paraguai e de lá era remetido a uma agência
do Banestado, em Nova York. Nessa agência, que acabou fechada depois
que o banco foi privatizado, em 2000, havia 137 contas que recebiam a
remessa irregular saída do Brasil. Os investigadores descobriram
que o movimento do dinheiro ilícito era tão alto que praticamente
monopolizava os trabalhos da agência em Nova York. Sem saberem o
motivo, alguns funcionários da agência eram convidados a
abrir contas pessoais só para que o local registrasse algum tipo
de movimentação financeira normal e, com isso, não
despertasse suspeitas.
Golpe
de sorte Em geral, as investigações sobre remessa
ilegal de recursos para o exterior ou de lavagem de dinheiro esbarram
num obstáculo. É possível descobrir como a quantia
sai do Brasil e até para que banco e em que país é
remetida e nenhum passo além disso, por causa das regras
internacionais de sigilo bancário e da burocracia para conseguir
quebrar o sigilo de uma conta no exterior. Assim, fica-se sempre sem identificar
o destinatário final do dinheiro. Desta vez, porém, os investigadores
contaram com um golpe de sorte, nascido de uma tragédia
os atentados terroristas aos Estados Unidos. No fim do ano passado, depois
do fatídico 11 de setembro, agentes do FBI, o equivalente americano
da Polícia Federal, começaram a rastrear todas as operações
bancárias realizadas nos Estados Unidos por cidadãos árabes.
Descobriram que os registros bancários da desativada agência
do Banestado em Nova York exibiam graúdos movimentos financeiros
de cidadãos com nomes árabes. Intrigado com uma possível
conexão terrorista, o FBI repassou a informação à
polícia brasileira, para que checasse a identidade dessas pessoas.
Em Foz do
Iguaçu, a Polícia Federal, que havia anos vinha investigando
o esquema, já tinha conhecimento de que o grosso do dinheiro enviado
irregularmente ao exterior era manipulado por doleiros brasileiros
e alguns deles eram descendentes de árabes. Mas, até então,
só sabia que os recursos saíram do Brasil e foram para contas
em bancos no Paraguai. Quando recebeu os dados apurados pelo FBI, a polícia
brasileira constatou que os nomes árabes correspondiam aos dos
doleiros. Ganhara um presente: acabava de descobrir para onde fora o dinheiro
depois da escala paraguaia. Era Nova York. De posse dessa informação,
a Polícia Federal enviou um delegado a Nova York para analisar
os registros da antiga agência do Banestado. Ao examinar a papelada,
os investigadores descobriram a existência das 137 contas bancárias,
que recebiam os valores despachados do Brasil, e puderam ter acesso a
uma informação ainda mais preciosa o destino dessas
somas depois de ser sacadas do Banestado em Nova York. O dinheiro escoava
para algumas pessoas físicas e, na grande maioria dos casos, para
empresas com sede em paraísos fiscais. Na ponta final, somaram-se
35.000 destinatários.
"Foi uma
longa investigação para separar o joio do trigo", diz o
ministro da Justiça, Miguel Reali Júnior, a quem a Polícia
Federal está subordinada. "A investigação detectou
o uso das contas CC-5 como válvula de escape para a lavagem de
dinheiro, que está sempre associada à corrupção
e ao crime organizado." A Polícia Federal já identificou
algumas das pessoas físicas que receberam o dinheiro. No caso das
empresas, porém, a PF ainda lida com um obstáculo
descobrir quem é seu verdadeiro dono no paraíso fiscal.
Até agora, tudo o que os investigadores sabem é o nome da
companhia. Nada mais. A polícia tem indícios de que parte
dos recursos desviados da Sudam tomou esse caminho. O doleiro que manipulou
o dinheiro é Albert Youssef, brasileiro de origem árabe,
que mantinha quarenta contas no Banestado em Londrina, no Paraná,
todas abertas em nome de laranjas.
No Banestado
em Nova York, os policiais também descobriram que um laranja remetia
recursos a um fundo de investimento. Ao rastrear a operação,
souberam que o dinheiro deixava o Banestado em Nova York e caía
numa conta no Midland Bank, nas Ilhas Cayman, paraíso fiscal do
Caribe. Nos registros, o beneficiário é identificado como
"Opportunity Fund". Sabe-se que, nas Ilhas Cayman, o banco Opportunity
mantém um fundo de investimento com esse nome. Há até
uma investigação sobre suas operações correndo
em Cayman. Um ex-sócio do Opportunity, Luiz Roberto Demarco, denunciou
na Justiça que o fundo em Cayman, formado por consórcios
que compraram empresas telefônicas, abrigava recursos de brasileiros
o que é ilegal. Os investigadores brasileiros querem saber
agora se uma parte do dinheiro do Opportunity Fund deixou o Brasil ilegalmente
e acabou voltando ao país, no processo de privatização
das empresas telefônicas. Isso, dizem eles, significaria possivelmente
lavagem de dinheiro. Por enquanto, é apenas uma linha de investigação,
mas eles insistem nesse ponto. O certo é que muita gente terá,
em breve, 12 bilhões de dores de cabeça.
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O
caminho dos bilhões
Entre
1992 e 1997, pessoas e empresas no Brasil mandaram 124 bilhões de
reais para o exterior através das chamadas contas CC-5. Os investigadores
federais identificaram que a maior parte desse valor saiu do Brasil
legalmente. Mas uma parcela gorda, de 12 bilhões de reais, era dinheiro
sujo, pois deixou o país em nome de laranjas e não dos verdadeiros
donos. A operação funcionava assim:
1
As pessoas que queriam mandar dinheiro irregularmente para o exterior
entravam em contato com um grupo de doze doleiros, todos com atuação
em Foz do Iguaçu, no Paraná, que se encarregavam da parte prática
da operação
2
Os doleiros, quase todos donos de casas de câmbio sediadas no Paraguai,
abriram contas em cinco bancos em Foz do Iguaçu - no Banestado,
que foi privatizado em outubro de 2000, no Rural, no Araucária,
no Bemge e no Banco do Brasil. As contas eram abastecidas por cerca
de 2 000 laranjas
3
A maior parte do dinheiro, 3,7 bilhões de reais, foi depositada
no Banco Araucária, seguido do Banestado, no qual pingaram 3,5 bilhões
de reais. No Bemge foram depositados 2,5 bilhões. No Rural, 1,7
bilhão. No Banco do Brasil, cerca de 600 milhões de reais. Isso
totalizou 12 bilhões de reais
4
Dos cinco bancos em Foz do Iguaçu, o dinheiro era remetido para
o exterior através de contas CC-5. Dos 12 bilhões de reais, 1,5
bilhão foi enviado ao Swiss Bank, de Nova York. Os restantes 10,5
bilhões de reais foram para uma única agência do Banestado, também
em Nova York
5
Na agência do Banestado em Nova York, o dinheiro era depositado
em 137 contas, todas em nome de empresas instaladas em paraísos
fiscais, as chamadas off-shores. A maior parte dessas empresas tinha
sede nas Ilhas Cayman, nas Ilhas Virgens Britânicas e em Luxemburgo
6
Depois de repousar nas 137 contas em Nova York, o dinheiro foi sendo
remetido para 35 000 beneficiários finais, a maioria formada por
pessoas jurídicas, também com sede em paraísos fiscais. Na etapa
atual do trabalho, os investigadores estão listando cada um desses
beneficiários
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