Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 755 - 12 de junho de 2002
Brasil Conjuntura

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

O susto Brasil
O PMDB em cacos
A grande operação de remessa ilegal de dinheiro
Jornalista da Globo desaparece
em morro do Rio

Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA on-line
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Eles estão de olho no Brasil

Numa semana de desconfiança,
o investidor mostra que é um
animal muito arisco

Denise Ramiro

 

AP
Encontro de investidores americanos: os credores brasileiros são de classe média

O deputado federal e ex-ministro Delfim Netto costuma dizer que os integrantes do governo, principalmente os da equipe econômica, devem comportar-se como os garçons. "Na hora da sobremesa, quando o cliente pergunta como está o abacaxi, o garçom invariavelmente responde: 'Está ótimo, doutor'!", afirma Delfim. "E ele faz isso por dever de ofício, ainda que a fruta não esteja lá essas coisas." E como está o Brasil? De maneira geral, as autoridades têm por hábito dizer: "Está ótimo, doutor", tranqüilizando a sociedade e os investidores estrangeiros a respeito da economia – ainda que os indicadores não "estejam lá essas coisas". Daí por que chamou a atenção o tom diferenciado de algumas declarações partidas de Brasília. Há três semanas, o presidente Fernando Henrique Cardoso deu entrevista à Agência Sebrae de Notícias. Na oportunidade, analisou os erros na condução da economia cometidos na Argentina e o risco de acontecer algo parecido no Brasil. FHC disse: "Se você não tiver competência, e não quero divulgar quem tem e quem não tem, e se não tiver respeitabilidade para fazer e coragem para tomar decisões difíceis, desanda". A conclusão, para muitos, foi inescapável: na opinião do presidente, a economia brasileira poderia se desarranjar, como aconteceu no país vizinho (veja quadro).

Em uma entrevista coletiva, o ministro Pedro Malan também tratou da solidez da economia. "À medida que nos aproximamos do fim de 2002, os problemas com que temos de lidar no dia-a-dia são afetados menos pelo que fazemos e mais pela expectativa do que farão nossos sucessores. Essa é a razão pela qual cobro um mínimo de racionalidade econômica e maturidade política, em particular daqueles que acham que vão ganhar a eleição e teriam de ter a preocupação de assegurar uma transição o menos turbulenta possível", comentou. Vale aqui a mesma conclusão: nas palavras de Malan, o comportamento dos candidatos pode ter conseqüências nefastas para a economia. A mais recente declaração nesse sentido, e que também conduz a uma conclusão preocupante sobre a qualidade dos indicadores, foi dada na semana passada pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga. "As tensões causadas pela sucessão presidencial são normais, mas há uma ansiedade exagerada no mercado financeiro. O mercado teme a descontinuidade da política econômica, mas, na medida em que fique claro que o próximo governante irá preservar a base de transparência e responsabilidade no trato das questões fiscais, esse nervosismo vai passar", afirmou, em depoimento na Câmara dos Deputados.

 
AFP
Fox (à esq.) em reunião de presidentes latinos: bom exemplo mexicano

As declarações têm em comum o fato de que não faltaram com a verdade, já que o abacaxi brasileiro não está tão bom assim. A dívida pública é elevada, superior a 50% do PIB, o custo de rolagem dos títulos do governo é alto – consome 160 bilhões de reais por ano –, e Brasília tem dificuldade para fazer reformas mais amplas no setor público, como a tributária e a previdenciária. O cenário de incertezas faz subir naturalmente o grau de desconfiança dos investidores nacionais e estrangeiros. E, como a matéria-prima da estabilidade de um país é a confiança, se o novo presidente não tiver "competência e respeitabilidade", como diz FHC, a economia desanda mesmo. E a responsabilidade dos políticos em campanha começa agora, como sugere Malan, não apenas após a eleição.

O problema, portanto, não é o que disseram, mas quando. O Brasil vive uma fase nervosa. Na semana passada, até quinta-feira, o risco Brasil subiu 19%, o dólar valorizou-se 4,8% em relação ao real e o Ibovespa registrou baixa de 4,3%. Tudo isso no prazo de uma semana. Outra indicação do humor negativo pode ser conferida na cotação no mercado secundário dos C-Bonds, principais papéis da dívida brasileira. Em cinco dias, eles registraram uma queda no valor de face da ordem de 7%. A redução ocorreu depois que a Moody's, empresa que avalia investimentos e riscos, rebaixou a perspectiva do Brasil de "positiva" para "estável". O nervosismo diminuiu na sexta-feira, depois que Armínio Fraga fez uma conferência telefônica com investidores de Wall Street.

Essa agitação toda dos últimos dias não pode ser associada unicamente a declarações de autoridades e dos candidatos e nem de longe guarda relação com os problemas estruturais do Brasil, como o crescimento da dívida pública ou a falta de reformas. Afinal, tais defeitos não surgiram agora. A excitação está ligada a dois temas predominantes. Um deles é o quadro sucessório. Por mais que as lideranças petistas se irritem com a referência, o mercado se incomoda com a possibilidade de Lula chegar ao Palácio do Planalto. Não é por outra razão que a valorização do dólar e a curva ascendente dos indicadores de risco acompanham o desempenho de Lula nas pesquisas de intenção de voto. O outro motivo está ligado a uma atitude específica do Banco Central, que baixou uma norma obrigando os bancos a calcular o valor dos papéis do governo que compõem sua carteira pelos valores que estavam sendo negociados no mercado, e não pelos nominais. Alguns fundos que tinham um porcentual maior de letras do governo em suas carteiras chegaram a registrar perdas de 4%. No total, a desvalorização no mercado de fundos foi calculada em 3 bilhões de reais.

 
Dida Sampaio/AE
"As tensões causadas pela sucessão presidencial são normais, mas há uma ansiedade exagerada no mercado financeiro. O mercado teme a descontinuidade da política econômica, mas, na medida em que fique claro que o próximo governante irá preservar a base de transparência e responsabilidade no trato das questões fiscais, esse nervosismo vai passar."
Armínio Fraga, em audiência no Congresso na semana passada

A mudança da regra foi uma providência saudável, mas questiona-se se foi feita na hora certa e de forma adequada. "Foi uma infeliz combinação de percepção eleitoral equivocada com a mudança de regras dos fundos", diz Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. Desde 1995 já estava valendo uma norma que obrigava os fundos a calcular o rendimento de suas carteiras pelo valor de mercado. Muitas instituições não seguiram a regra alegando que a forma de fazer a transição não estava clara. Em fevereiro de 2002, o Banco Central baixou outro conjunto de normas para esclarecer o assunto e marcou para setembro próximo a data-limite para a transição. Segundo o Banco Central, foi necessário antecipar o prazo por causa da volatilidade do mercado. Ou seja, o alvoroço do mercado obrigou o BC a antecipar uma medida que o agitou ainda mais. A equipe econômica garante que a mexida nos fundos eliminou uma fragilidade importante dos produtos bancários.

É natural que os investidores se comportem de forma desconfiada em relação ao futuro dos países emergentes em geral, e entre eles está o Brasil. Esse tratamento não é adotado para prejudicar o país ao qual o dinheiro deles se destina, mas para proteger a própria poupança. Embora muita gente acredite que o dono do dinheiro estrangeiro seja um senhor de cartola que fuma charutos, os investidores são em geral pessoas da classe média que se organizam em fundos de investimentos. O investidor americano Warren Buffett acumulou uma fortuna de 80 bilhões de reais aplicando o dinheiro dos outros no mercado internacional e todos os anos realiza uma grande palestra em um estádio de esportes que atrai milhares de investidores dos Estados Unidos para ouvir seus conselhos. É gente desse tipo que, pulverizadamente, concorre com suas poupanças para formar os grandes bolos de bilhões investidos tanto nos EUA quanto fora de lá. Diante da suspeita de que algum fato negativo pode ceifar uma parte da remuneração de seus investimentos, Buffett e os coordenadores de fundos como os seus reorientam os recursos dos clientes para outro negócio – ou outro país.

Se membros do governo e candidatos a presidente acalmarem o mercado, em vez de excitá-lo, há mais chance de uma travessia menos conturbada nos próximos meses. O México optou pela tática tranqüilizadora e se deu bem. No processo de sucessão que elegeu o oposicionista Vicente Fox, o governo do então presidente Ernesto Zedillo tomou algumas precauções para reforçar a confiança internacional no país. Entre outras medidas, reforçou as reservas internacionais e reescalonou o pagamento da dívida. "Os mexicanos deram a si próprios uma grande oportunidade", comentou na ocasião Geoffrey Dennis, do banco Salomon Smith Barney. No fim de 1994, o governo mexicano estava à beira do calote no pagamento de suas obrigações. Agora, o México é a mais bem-sucedida economia entre os países emergentes. Deixou o Brasil para trás.

 

Com reportagem de Adriana Carvalho
e sucursais


 


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS  
bgcolor="#CCCCCC">