Mistério no topo do mundo

A descoberta de um corpo congelado
no Everest reforça a dúvida
sobre quem conquistou a montanha

Daniel Hessel Teich


De todas as grandes aventuras humanas neste século, nenhuma exerceu tanto fascínio e cativou o imaginário das pessoas quanto a escalada do Monte Everest, a mais alta montanha da Terra. Durante décadas, dezenas de alpinistas e aventureiros tentaram atingir o teto do mundo, até que, em 1953, o neozelandês Edmund Hillary e o nepalês Tenzing Norgay finalmente estenderam as bandeiras da Grã-Bretanha, da Organização das Nações Unidas, ONU, da Índia e do Nepal no topo da imensa montanha branca. Na semana passada, um cadáver congelado encontrado por uma expedição de alpinistas numa reentrância da face norte do Everest reforçou uma antiga dúvida sobre o feito de Hillary e Tenzing. O corpo é do professor e aventureiro inglês George Mallory, desaparecido há 75 anos junto com seu companheiro Andrew Irvine após deixarem um acampamento a 8.168 metros de altitude. A descoberta pode esclarecer uma série de mistérios em torno da trágica expedição de 1924. Até hoje não se sabe se Mallory e Irvine morreram antes ou depois de chegar ao topo do Everest.

Até a última quarta-feira, os alpinistas não tinham nenhum indício contundente de que Mallory de fato realizou a façanha antes de Hillary e Tenzing. Eles ainda se preparavam para novas buscas no local onde está o corpo, à caça da velha máquina Kodak de metal que o professor carregava ou de algum diário da expedição. "Não queríamos perturbá-lo depois de passar tanto tempo ali, mas achamos que não existiria maior tributo do que provar que Mallory foi o primeiro a chegar ao alto da montanha", afirmou o alpinista David Hahn, um dos coordenadores da equipe que localizou o corpo. Na semana passada, sir Edmund Hillary, que aos 79 anos se dedica a obras assistenciais no Himalaia, disse que não ficaria surpreso nem triste se descobrissem que Mallory foi mesmo o primeiro a chegar ao Everest. "Seria formidável saber que ele atingiu seus objetivos", afirmou.

Para os alpinistas do mundo todo, a simples localização do corpo congelado é um achado fantástico. "A expedição de Mallory é um dos maiores enigmas entre as aventuras do século", avalia o fotógrafo e aventureiro americano Galen Rowell, que em 1983 fracassou na tentativa de chegar ao topo do Everest pela mesma face norte. Um dos mistérios da expedição empreendida por Mallory e Irvine está no depoimento do geólogo Noel Odell. Ele disse ter visto os dois pela última vez a 8.604 metros de altitude e apenas 244 metros do cume. Como o corpo de Mallory foi encontrado quase 400 metros abaixo desse ponto, uma possibilidade é de que ele tenha conseguido chegar ao topo do Everest e morrido ao descer. Há outro dado que reforça essa suspeita. Em 1933, uma pequena picareta, provavelmente de Irvine, foi localizada a 8.461 metros de altitude, 232 acima do local onde estava o corpo congelado de Mallory.

A expedição fatal de 1924 foi a terceira tentativa de Mallory para chegar ao topo do Everest pela face norte. Sempre que lhe perguntavam o motivo de tal obsessão, ele respondia simplesmente: "Quero escalar a montanha porque ela está lá". Mallory foi encontrado a 619 metros do pico do Everest. Estava com os braços abertos e as pernas cruzadas, no que Hahn descreveu como "uma posição em que parecia buscar alívio" para as dores provocadas pelas fraturas que sofreu. A princípio, os alpinistas acreditaram tratar-se de Andrew Irvine, mas se surpreenderam ao inspecionar as roupas do cadáver, que mais parecia uma pedra de gelo. O morto usava casacos de tweed, calças de lã e várias camadas de camisas e ceroulas. Nos pés, calçava botas de couro adaptadas com pregos na sola. Ao inspecionar o colarinho da camisa, os alpinistas encontraram etiquetas bordadas com a inscrição "G.L. Mallory", de George Leigh Mallory. Junto ao peito do cadáver, Hahn e sua equipe acharam um envelope intato, estampado com selos de quase todo o mundo e onde se lia "My dearest George" (Meu querido George). Era uma carta escrita pela mulher de Mallory, Ruth.

Pelo seu desfecho trágico, poucas aventuras humanas se comparam à de Mallory e Irvine. Uma delas foi a do explorador Robert Falcon Scott. Em 1910, ele partiu da Inglaterra para a Antártica determinado a ser o primeiro a alcançar o Pólo Sul. Levou trenós motorizados, pôneis e cães. A expedição foi um completo desastre. Scott alcançou o pólo em janeiro de 1912, mas ao chegar lá encontrou a bandeira da Noruega, fincada um mês antes por Roald Amundsen. Junto havia uma carta em seu nome, escrita pelo norueguês. Scott e seus companheiros de viagem morreram dois meses depois tentando sair do continente gelado. Seu corpo foi encontrado numa barraca em dezembro de 1912 com os diários da aventura. Foram esses relatos que permitiram a reconstituição de sua trágica expedição. É exatamente algo assim que os alpinistas agora estão procurando nas encostas do Everest.

 





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