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Guia do descobrimento
A Carta de Caminha não é o manifesto de uma nova nação. Outros cronistas quinhentistas portugueses se encantaram com a descoberta da Serra Leoa, da Ilha de São Tomé, do Congo e de variadas partes da Índia e da Insulíndia. Referindo-se à terra sul-americana, a frase de Caminha "em se plantando tudo dá" (ou "dar-se-á nela tudo", conforme outra leitura do documento) é pura retórica. A empreitada colonial tinha fins comerciais e importou os meios para implementá-los: o que deu aqui foi a cana trazida da Ilha da Madeira, e quem a plantou foi o escravo comprado na África. Caminha descreve uma paisagem fugaz: o encontro inerte entre índios edênicos e europeus que passaram uma semana numa praia de onde só levaram barricas de água doce. Este Brasil sem violência colonial e sem negros – daí a dúbia nostalgia que impregna a leitura da Carta a partir da independência, quando a elite brasileira congemina o projeto de uma futura nação branca – se tornou rapidamente irreal. No início do século XVII, constatando a forte presença africana, Ambrósio Fernandes Brandão dá o veredicto: "O Brasil é uma nova Guiné". Na viagem em que arribou em Porto Seguro, o objetivo de Cabral era mapear as rotas do Atlântico Sul e, sobretudo, nessa primeira expedição após a de Vasco da Gama, fixar a ponta-de-lança portuguesa no Índico. A exploração do pau-brasil pelos rivais europeus, os franceses no litoral e os espanhóis no Prata levam à formação do governo-geral na Bahia e ao deslanche do escravismo açucareiro. Mas no imaginário lusitano e europeu a presença da América portuguesa permanece fugidia. Em Os Lusíadas (1572) ela praticamente não existe. É verdade que Camões peregrinou um pouco na África, bastante na Ásia, sem nunca ter pisado em terras americanas. Resta que o grande bardo bordou por mais de vinte anos as 1.102 estrofes de seu poema épico sobre os descobrimentos e só julgou necessário fazer duas curtas referências, uma delas indireta, à Terra de Santa Cruz. No começo do Seiscentos, emergem dois agregados distintos no Atlântico português. De um lado, a área do Ceará, Piauí, Maranhão e Pará. Impedidos de navegar rumo ao sul pelas correntezas adversas, os colonos dessa região só se comunicam regularmente com o restante do Brasil no início do século XVIII, pelas veredas do sertão nordestino. De outro lado, o agregado transatlântico formado pelas zonas escravistas do Brasil e Angola, ligadas pelo tráfico negreiro. "Angola... de cujo triste sangue, negras e infelizes almas se nutre, anima, sustenta, serve e conserva o Brasil", escrevia o padre Antônio Vieira. O sistema escravista Brasil-Angola unia-se por uma verdadeira auto-estrada marítima aberta pelos ventos do Anticiclone de Capricórnio, compondo um espaço econômico e social específico que poderia ser chamado de "Capricórnia". No lado brasileiro da Capricórnia só havia "brasílicos", isto é, moradores luso-afro-brasileiros aqui nascidos e criados que se distinguiam dos portugueses vindos do Reino, mas não tinham ainda a percepção de pertencer a uma mesma comunidade. Somente no século XVIII, quando o ouro de Minas Gerais junta tudo numa coisa só, é que o Brasil e os brasileiros surgem no horizonte. Existiu a Capricórnia (nome que inventei agora), existiram os brasílicos (nome usado na época): o Brasil e os brasileiros são realidades históricas bem mais recentes. Contudo, os que acreditam ler na Carta de Caminha o atestado de nascimento da nossa nacionalidade não devem ficar angustiados. Não há nada a fazer quanto à globalização em que fomos envolvidos no passado. Melhor é nos preocuparmos com a globalização que vem aí pela frente.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador
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