PUBLICIDADE

Home  »  Revistas  »  Edição 2164 / 12 de maio de 2010


Índice    Seções    Panorama    Brasil    Negócios    Internacional    Geral    Guia    Artes e Espetáculos    ver capa
Televisão

Perdidos na selva

Ou em um deserto, um prédio em chamas, uma cozinha exótica:
uma nova leva de reality shows é estrelada por machões que
sobrevivem a condições extremas – com uma ajudinha da produção


Marcelo Marthe

Fotos divulgação
À PROVA DE TUDO
Quintas-feiras, às 23h, no Discovery
O fortão inglês Bear Grylls enfrenta – diz ele – as piores agruras: atravessa desertos a pé e sobe em cordilheiras rochosas sem equipamento


VEJA TAMBÉM

Tempos atrás, um prédio em Chicago foi consumido por um incêndio. Uma mulher que trabalhava no local valeu-se das lições de um reality show para guiar os colegas em meio às chamas. "Ela salvou treze pessoas", garante o apresentador Cade Courtley. A maioria dos espectadores, decerto, preferirá não testar na prática os procedimentos apresentados em Guia de Sobrevivência. O ex-oficial da Marinha americana ensina como se safar de sequestros de aviões e assaltos a banco. Em exibição no Discovery, a atração encaixa-se em um nicho televisivo forte: o manual de sobrevivência. No mesmo canal pago, outros dois machões exploram o extremo selvagem dessa linha. Em Survivorman, o canadense Les Stroud tem de se virar com quase nenhum recurso em lugares inóspitos. No mesmo espírito aventureiro, mas com mais produção, o ex-militar inglês Bear Grylls estrela À Prova de Tudo, hoje a maior audiência do Discovery. Há, ainda, uma variação da receita para quatro talheres. No reality show Pressure Cook (que aqui ganhou o título boboca de Tradições Culinárias), do National Geographic, o chef americano Ralph Pagano é despachado para locais exóticos e tem 72 horas para juntar o dinheiro da passagem de volta, dando duro em restaurantes nos quais se preparam iguarias como testículos de boi.

A TV já havia transformado agrura em diversão com reality shows como Survivor (matriz do brasileiro No Limite) e The Amazing Race. A nova safra de programas radicais pretende ser mais, digamos, educativa. No lugar de competidores neófitos nas artes de escalar rochedos ou cozinhar répteis, agora são especialistas que se lançam por desertos e geleiras para demonstrar suas técnicas de sobrevivência. Em um episódio no México, o saltitante Bear Grylls escala uma cordilheira sem equipamento de proteção. Mais tarde, fica com o rosto deformado ao levar uma picada de abelha. E, para fechar a excursão bizarra, mata uma cobra, devora sua carne e fabrica um recipiente com o couro do bicho – para guardar a própria urina, como recurso de emergência no caso de padecer de muita sede no deserto (e, adiante, ele aparece consumindo o grotesco conteúdo de seu cantil improvisado). Les Stroud – que viaja sozinho e grava o programa com sua própria câmera – não se mostra assim tão faceiro. Já chorou no meio da madrugada ao descobrir que o tronco em que se refugiara em uma floresta costa-riquenha abrigava formigas agressivas.

A última tendência na seara extrema é trocar os cenários ermos por situações urbanas. É o que faz Cade Courtley em Guia de Sobrevivência (e Bear Grylls em um novo programa, ainda inédito no Brasil). As lições de Courtley são um tanto temerárias. No episódio que trata do sequestro do avião, ele mostra como render terroristas e assumir o controle de uma aeronave – façanhas dignas do personagem de Bruce Willis na série Duro de Matar. O apresentador, porém, sustenta que o valor do que ensina é maior que os riscos do uso irresponsável de suas dicas. "Sem saírem de seus lares, as pessoas se reconfortam ao ver que qualquer um está apto a superar as condições mais adversas", diz. É. Na poltrona, todo mundo está apto para tudo.

A dureza televisiva, na verdade, é meio de mentirinha. Os desastres mostrados por Courtley são simulações (mesmo que realistas: ele já quebrou uma mão e várias costelas). Apesar da mise-en-scène – Ralph Pagano chega aos locais vendado –, não se esconde que os desafios de Tradições Culinárias não são tão excruciantes. Pagano até chegou a ouvir negativas a seu pedido de emprego em restaurantes da China. Mas, no geral, as atuações do chef forasteiro são pré-combinadas. As aventuras radicais de Bear Grylls são radicalmente duvidosas. Em 2007, o jornal inglês The Times acusou-o de ser um farsante. Durante uma gravação em uma ilha "deserta", ele teria se refestelado num motel em vez de dormir ao relento. Também já usou fumaça artificial para simular as emanações tóxicas de um vulcão ativo. Depois da denúncia, o reality show passou a informar que continha certas licenças ficcionais. Grylls, que já foi eleito um dos homens mais bonitos do mundo pela revista People, não se abalou. Permitiu-se até a autoironia. Em 2009, gravou um episódio em companhia do comediante Will Ferrell – que, claro, descambou para a franca palhaçada. Ferrell faz uma expressão impagável ao encarar uma cabeça de rena assada. A melhor receita para sobreviver às condições mais severas? Conte com uma boa equipe de produção.

GUIA DE SOBREVIVÊNCIA
Terças-feiras, às 21h, no Discovery
Com simulações muito realistas, o ex-militar americano Cade Courtley ensina como reagir a situações de perigo urbano, de incêndios em arranha-céus a assaltos a banco


TRADIÇÕES CULINÁRIAS
Sábados, às 18h, no National Geographic
Despachado com olhos vendados para lugares remotos, o chef de cozinha americano Ralph Pagano tem de fazer bicos (ordenhar vacas ou trabalhar em restaurantes) para pagar a viagem de volta


SURVIVORMAN
Reestreia em junho, no Discovery
O canadense Les Stroud apresenta-se como um novo Robinson Crusoé: a cada episódio, ele passa uma semana em isolamento, com recursos próximos de zero, em lugares como a tundra do Ártico ou selvas tropicais
EDIÇÃO DA SEMANA
ACERVO DIGITAL
PUBLICIDADE
OFERTAS



Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados