J. R. Guzzo
A metade do caminho
"Basta
pensar durante cinco minutos sobre certas realidades
paraconstatar o disparate
que é considerar o Brasil atual
um país bem-sucedido"
Está entre os maus hábitos permanentes do Brasil
a ilusão de achar que é possível conviver, sem maiores prejuízos,
com a combinação com a qual tem convivido até hoje
uma geleia geral que junta a incompetência da máquina pública
na execução dos seus deveres, a indiferença de um eleitorado
sem interesse, paciência ou informação para acompanhar o que
os políticos fazem com o seu dinheiro e os vícios de um sistema
político que está entre os piores do mundo. O sentimento da maioria
é que não compensa esquentar a cabeça com esse vale de lágrimas,
quando o dia a dia tem assuntos mais urgentes para o cidadão resolver.
Mas o pouco-caso com a realidade, infelizmente, sempre cobra um preço alto.
Não se trata de uma cobrança que vai ficar para o futuro, como frequentemente
se imagina. O preço já está sendo pago há muito tempo,
e tende a ficar cada vez mais alto. Basta ver tudo de que o Brasil de hoje precisa
com urgência, e não tem e tudo o que tem de sobra, e de que
não precisa.
Há um bocado de esperança,
diante dos avanços reais que o país tem feito, de que, com perseverança,
paciência e uma atitude mental afirmativa, dá para ir tocando as
coisas; um dia, lá na frente, o grosso dos problemas estará resolvido.
Existem fatos de sobra para demonstrar que o Brasil, neste momento, está
muito melhor do que já foi em qualquer outra época do passado. Está
melhor em questões essenciais, não em aparências, e está
melhor de verdade, não porque quem diz isso é a propaganda boçal
dos governos até porque boa parte desse progresso não foi
feita pelas autoridades constituídas, mas apesar delas. O problema é
outro. Podemos ter crescimento de 6% ao ano, reservas de 250 bilhões de
dólares e mais uma promoção no rating das agências
internacionais que avaliam nossa capacidade de pagar dívidas. Podemos entregar,
como acaba de ocorrer, 25 milhões de declarações de renda
à Receita Federal. Podemos nos firmar como a sétima ou a oitava
maior economia do mundo. Podemos ter e ser mais uma porção de coisas,
mas vamos continuar sendo um país subdesenvolvido enquanto se mantiver
essa situação em que tão pouca gente, na população
brasileira, tem acesso real a uma vida efetivamente melhor.
Basta
pensar durante cinco minutos sobre certas realidades para constatar o disparate
que é considerar o Brasil atual um país bem-sucedido, quando 50%
da população, por exemplo, não é servida por rede
de esgotos e, principalmente, quando uma calamidade desse tamanho é
tratada com a maior naturalidade do mundo pelos outros 50%, em especial os que
têm a obrigação de resolver o problema. O assunto, na verdade,
é visto como uma tremenda chatice. Nem poderia mesmo ser diferente, quando
se verifica que ainda não apareceu, em toda a história política
do Brasil, um único homem público bem-sucedido que tenha elegido
como prioridade em sua carreira a luta por instalação e tratamento
de esgotos. Só um débil mental seria capaz de agir assim; pela sabedoria
política em vigor, obra que não se vê é obra que não
existe. Estamos avançando, é claro. Em 510 anos já se conseguiu
chegar à metade do caminho; um dia, se Deus quiser, todos estarão
atendidos. Mas a única pergunta que interessa, nessa e em outras questões
do mesmo tipo, é: quando? Para os quase 100 milhões de brasileiros
que não têm esgoto, faz toda a diferença.
Não
se trata de uma questão isolada. Recentemente, num artigo que es-creveu
para VEJA, o professor Gustavo Ioschpe observou que só 25% da população
brasileira alfabetizada está em condições de entender um
texto como aquele. Não lidava, ali, com nenhum pon-to de trigonometria
avançada; era apenas uma página de revista, escrita em português
corrente e que deveria ser acessível a todos os que completaram os primeiros
oito anos de escola. É uma excelente notícia para os políticos,
a começar pelos que mandam no atual governo vivem se gabando de
que o "povão" não lê nada do que a imprensa escreve
e, portanto, as críticas que recebem não têm efeito nenhum.
Mas, para os 75% que não conseguem entender o artigo do professor Ioschpe,
essa situação é um desastre. É para eles que estão
reservados, no Brasil que cresce a 6% e tem "grau de investimento",
os empregos com trabalho mais pesado, os piores salários e, em vez de carreiras
profissionais, ocupações sem futuro algum isso quando conseguem
emprego, num mercado em que competem em desvantagem cada vez maior.
Dá
para ir levando assim, é claro. Mas, como informa o artigo que tão
poucos brasileiros conseguem ler, não existe nenhum país desenvolvido
no mundo com o abismo social do Brasil. |