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Home  »  Revistas  »  Edição 2164 / 12 de maio de 2010


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Internacional

O enigma paquistanês

O autor do frustrado atentado com carro-bomba em Nova York
reafirma a suspeita de que o Paquistão está se tornando
o novo ninho da serpente do terror islâmico


Diogo Schelp

Fotos Ken Goldfield/AP, Reuters e AP
NÃO FUNCIONOU
À direita, o terrorista Faisal Shahzad e o relógio usado no artefato fracassado. Ao lado,
o carro-bomba, de portas abertas, sendo desarmado com a ajuda de um robô, na Times Square


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As investigações, na semana passada, sobre a tentativa frustrada de um atentado com carro-bomba em Nova York levaram o epicentro das ameaças de terror ao coração do Paquistão. As forças de segurança dos Estados Unidos já classificam o Paquistão como um ninho da serpente ainda mais perigoso que o Afeganistão, a Arábia Saudita e o Egito, nações tradicionais incubadoras de extremistas islâmicos. Ter uma base segura em um país remoto é fundamental para a rede de terror. Seus assassinos podem estar em qualquer lugar do mundo, levando uma vida dupla até o momento de atacar. Os locais escolhidos para os atentados são imprevisíveis. Mas as células de fanáticos independentes que dão capilaridade à ideologia da morte precisam da base para se nutrir. O maior ataque terrorista da história, que matou 2 751 pessoas nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, só alcançou aquelas proporções porque seus mentores, Osama bin Laden e outros barbudos da Al Qaeda, tinham uma base segura no Afeganistão e o suporte do regime do Talibã. No fim daquele ano, os Estados Unidos invadiram o país, arrancaram os radicais islâmicos do poder e obrigaram os líderes da Al Qaeda a se refugiar na fronteira com o Paquistão. Desde então, foram registrados onze planos de atentados fracassados em Nova York, entre os quais um contra a Ponte do Brooklin e outro contra o metrô.

No dia 1º de maio passado, mais uma tentativa de causar morte, destruição e pânico resultou apenas em alguns incômodos passageiros, como trânsito interrompido e compromissos adiados. Vendedores de camiseta da Times Square, em Nova York, desconfiaram da fumaça que saía de um utilitário esportivo mal estacionado e avisaram a polícia. O esquadrão antibombas encontrou em seu interior uma grande quantidade de material inflamável e explosivo, como gasolina, fogos de artifício e fertilizantes. Para incendiá-lo quando já estivesse longe, o terrorista, Faisal Shahzad, instalou um dispositivo que incluía um prosaico despertador de plástico. Shahzad, de 30 anos, é um paquistanês com cidadania americana, educação superior e MBA. Nada de surpreendente nesse perfil. São dois os fatos realmente intrigantes sobre Shahzad. O primeiro é que, segundo as investigações do FBI e do serviço de inteligência paquistanês, ele esteve em contato com militantes do Talibã e possivelmente recebeu treinamento no Waziristão do Sul, área tribal autônoma do Paquistão. O segundo é o amadorismo de sua tentativa de atentado. Além de a bomba não ter funcionado, Shahzad esqueceu a chave de casa dentro do carro e cometeu outros erros que levaram à sua prisão, dentro de um avião que se preparava para decolar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

A combinação, aparentemente contraditória, do amadorismo de Shahzad com suas conexões internacionais leva à seguinte conclusão: o Talibã paquistanês, até recentemente empenhado em promover atentados em seu próprio país para desestabilizar o governo laico e em combater as tropas americanas no Afeganistão, está expandindo suas operações além-mar, mas ainda tem poucas condições logísticas para isso. "As áreas tribais paquistanesas na fronteira com o Afeganistão estão cheias de campos de treinamento de homens-bomba, mas seus líderes têm mobilidade limitada e dificuldade de financiamento", disse a VEJA a cientista política americana Robin Wright. Os chefes do terrorismo no Waziristão do Sul não podem, por exemplo, usar celular nem se locomover livremente, sob o risco de ser bombardeados por aviões americanos não tripulados. Na semana passada, a Justiça indiana condenou à morte um paquistanês que participou dos ataques que mataram 166 pessoas em Mumbai, em 2008. Se o Paquistão continuar servindo de território seguro para terroristas islâmicos, aumentará a possibilidade de os mega-atentados se repetirem no Ocidente.

 
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