Edição 1853 . 12 de maio de 2004

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CINEMA


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Minha Vida: uma produção de Almodóvar


Minha Vida sem Mim
(My Life Without Me
, Espanha/Canadá, 2003. Estréia nesta sexta-feira) – Ann tem 23 anos, duas filhas e um câncer incurável, que lhe deixará não mais do que algumas semanas de vida. A primeira reação de Ann é esconder a notícia da família e fazer arranjos para que a rotina prossiga da melhor forma possível sem ela. A segunda é usar seu tempo para viver experiências novas. Por exemplo, saber como é ter um romance com outro homem que não seu marido. A diretora catalã Isabel Coixet (aqui com produção dos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar) tem a tendência a enfeitar a narrativa para que ela pareça "moderna". Em compensação, segura firme as rédeas para não cair no melodrama e soube escolher muito bem sua protagonista – a ótima Sarah Polley, uma dessas atrizes que parecem já ter nascido maduras. Trailer.

 

DVD

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O Indomado: Paul Newman num papel clássico


O Indomado
(Hud
, Estados Unidos, 1963. Paramount) – "A única pergunta que eu faço a uma mulher é a que horas o marido dela chega em casa", costuma dizer Hud Bannon, um dos protagonistas mais desprovidos de virtude que o cinema americano já criou. O caubói Hud – numa atuação antológica de Paul Newman – bebe, joga, trai, usa, manipula, trapaceia e, acima de tudo, desmoraliza e despreza seu pai idoso (o grande Melvyn Douglas, galã de Ninotchka), que quer matar seu rebanho contaminado pela febre aftosa. Hud discorda da decisão: onde ele olhe, diz, só vê corrupção, e não seria ele o único trouxa a cumprir a lei. O niilismo abrasivo de O Indomado choca sobretudo porque não é difícil entender de onde vêm a frieza e a exasperação de Hud. Ele é o vilão desse pequeno clássico, mas é também seu herói.

 

LIVROS

História do Pensamento Ocidental, de Bertrand Russell (tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello; Ediouro; 510 páginas; 54,50 reais) – Nome fundamental da filosofia do século XX, Russell escreveu uma História da Filosofia Ocidental quando trabalhava com educação de adultos nos Estados Unidos, nos anos da II Guerra Mundial. A História do Pensamento Ocidental é uma versão revisada e aprofundada daquela obra. Com a clareza e o rigor lógico característicos de sua própria filosofia, Russell revisa as grandes correntes do pensamento ocidental, dos pré-socráticos até Wittgenstein. Para melhor esclarecer o público leigo, usou diagramas para traduzir idéias filosóficas complexas – o que veio a calhar para a presente edição, que faz parte de uma coleção de clássicos ilustrada.

O Anjo Silencioso, de Heinrich Böll (tradução de Karola Zimber; Estação Liberdade; 202 páginas; 32 reais) – Esse é o primeiro romance do escritor alemão Heinrich Böll, prêmio Nobel de Literatura de 1972. O livro é de 1950, mas só foi publicado na década de 90, sete anos depois da morte do autor. Nenhum editor alemão se atreveu a lançá-lo quando veio à tona, pois as marcas da II Guerra Mundial ainda eram muito recentes. O romance começa em 1945, logo depois da capitulação alemã. Hans, um soldado, retorna à sua cidade natal, que encontra em ruínas. O Anjo Silencioso é um retrato corajoso da Alemanha do pós-guerra, com sua paisagem devastada e sua culpa histórica. Não é por acaso que Böll aceitou o triste epíteto com que a obra de sua geração de escritores ficou conhecida: "literatura de escombros".

Primeiro Amor, de Samuel Beckett (tradução de Célia Euvaldo; Cosac & Naify; 32 páginas; 22 reais) – Escrita em 1945 mas publicada somente em 1970, essa foi a primeira obra que o irlandês Beckett compôs em francês, língua em que mais tarde criaria peças fundamentais do teatro moderno, como Esperando Godot. Nessa edição elegante, o texto ocupa apenas as páginas pares – as ímpares trazem expressivas manchas negras desenhadas pela tradutora. É um texto muito curto, para ler de uma só vez. Mas é também uma novela perturbadora, capaz de devastar qualquer ilusão romântica sugerida pelo título. O leitor termina o livro sem saber se o protagonista, um tipo desgarrado que se envolve com uma prostituta, é uma vítima ou um monstro. Leia trecho.

 

DISCOS

In Tokyo, João Gilberto (Universal) – Em suas apresentações ao vivo, o cantor e compositor baiano opera milagres: ele é capaz de transformar cada show numa experiência única, embora sempre se calque no mesmo repertório e mantenha a mesma atitude no palco. Não foi diferente no espetáculo que deu origem a esse CD, ocorrido em Tóquio no ano passado. Ainda que grande parte das músicas tenha sido gravada pelo artista inúmeras vezes, João Gilberto dá a elas um tratamento diferenciado, seja no acompanhamento ao violão, seja com uma mudança sutil em sua interpretação. Por exemplo: Aos Pés da Cruz, sucesso na voz de Orlando Silva, ganha uma entonação mais pungente. Além disso, ele surpreende a platéia ao tirar um clássico do fundo do baú: Louco, da dupla Wilson Batista e Henrique de Almeida.

 
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Franz Ferdinand: um escocês que não é falsificado  

Franz Ferdinand (Trama) – O quarteto escocês Franz Ferdinand é uma grata revelação do rock atual. Liderado pelo cantor Alex Kapanos – uma figura que tem um timbre vocal parecido com o do americano Iggy Pop –, o grupo oferece uma conjugação de boas melodias, letras inteligentes e frescor juvenil. A fonte de inspiração dos rapazes é o rock dos anos 70 e 80, principalmente do estilo conhecido como new wave. Mas não se trata de uma proposta cuja razão de ser é o saudosismo. Como se comprova em faixas como Darts of Pleasure e Take Me Out, que conquistaram as paradas da Inglaterra e catapultaram o grupo para a fama, originalidade é o que não falta ao Franz Ferdinand.

 

 

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