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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Procuro
um avalista
"Se
você pretende ser avalista de alguém,
lembre-se de que poderá perder o amigo,
seus bens e também sua
esposa"
De
vez em quando um amigo que mal me cumprimenta, ou um colega de trabalho
que nunca me ajudou, me pede que seja seu avalista. Provavelmente,
ele raciocina que perguntar não ofende, só depende
da cara-de-pau de cada um. Por que os bancos insistem em obter um
aval de um amigo do cliente? No fundo, o que os bancos querem é
reduzir o risco da operação de crédito, arrolando
também os bens pessoais do avalista como garantia.
Mas
que interesse tem o avalista em colocar seus bens em risco sem nada
receber em troca? O avalista entra gratuitamente nesse contrato
como um voluntário, um altruísta, sem receber uma
remuneração pelo serviço que presta ao banco.
O avalista só entra com obrigações e não
tem nenhum benefício, só chateação.
O banco ficará obviamente feliz com o empréstimo que
você viabilizou.
Uma
técnica que eu uso nessas ocasiões, e que aprendi
com um verdadeiro amigo, é ficar indignado com os juros exorbitantes
cobrados pelo banco e oferecer o mesmo empréstimo, sem cobrar
juros.
Seu
amigo ou parente vai pular de alegria, e você coloca uma única
e singela imposição: que o gerente ou o presidente
do banco avalize a operação. Não é um
pedido exorbitante, e nenhum gerente de banco poderá recusar,
porque é exatamente o mesmo pedido que eles estão
fazendo. Seria hipocrisia recusar.
Ilustração Ale Setti
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Ninguém nunca voltou com meu contrato assinado, não
sei por quê. Mas existe um efeito socialmente muito negativo
nessa prática do aval, para o qual infelizmente sociólogos
e antropólogos nunca atentaram. Ao pedir um aval de um parente
ou amigo, o sistema financeiro usa para seu próprio conforto
creditício os laços familiares e de amizade longamente
costurados pela sociedade brasileira.
Que
tio pode recusar um aval a um sobrinho? Que irmão pode recusar
dar um aval a outro irmão necessitado? É uma saia-justa
complicada. Se você negar o pedido, deixará o parente
magoado e a família ressentida. Ninguém obviamente
avalia corretamente os riscos que você está correndo,
só o banco.
Os
laços de amizade e confiança que o próprio
banco nunca sedimentou com seus clientes são substituídos
pelos laços de amizade e confiança que seus familiares
e amigos criaram com você. Aliás, se não tem
o dinheiro para cobrir o aval, você nunca deveria tê-lo
dado. Caso contrário o banco poderá vender seus bens
oferecidos em garantia. Dar um aval ou emprestar o mesmo montante
é financeiramente a mesma coisa, porque um aval significa
dar o dinheiro ao banco se seu amigo ou parente virar caloteiro.
Já
vi mais de vinte famílias ser desestruturadas pelo simples
fato de um parente não ter pago um empréstimo e o
avalista ter sido processado, prejudicando duplamente a família.
Há pessoas hoje pobres e destituídas que cometeram
o pequeno erro de dar um único aval. Muitos eram diretores
e empregados de empresas, obrigados a dar um aval a um banco que
financiava a empresa, senão perderiam o emprego.
Nenhum
país dará certo se não puder criar um clima
de confiança mútua entre seus cidadãos. Nossa
inflação e as constantes mudanças das regras
e dos planos econômicos dilapidaram, e muito, nossos laços
de confiança. Colocaram-se várias vezes empregados
contra patrões, fornecedores versus clientes, inquilinos
versus senhorios, alunos versus professores, por causa de planos
econômicos mal estruturados, que aumentaram a desconfiança
entre nós, por nenhuma culpa das partes.
Para
piorar ainda mais, o novo Código Civil exige que a esposa
assine também o aval, criando discórdia entre marido
e mulher, e nem toda esposa tem como recusar. Mais sensatas que
os homens, elas jamais aceitariam dar um aval a um amigo do marido.
O
novo Código Civil, em vez de aumentar os laços de
confiança da sociedade, aumentou os pontos de atrito entre
marido e mulher. O correto seria restringir o uso do aval, e não
tornar a esposa co-solidária da operação financeira
que em nada a beneficia. Mulheres, portanto, prestem muita atenção.
Lembrem-se de que, caso o amigo do seu marido se torne inadimplente,
você perderá seus bens e os de seus filhos. E você,
que pretende ser avalista, lembre-se de que poderá perder
seu amigo, seus bens e também sua esposa. Dito isso, alguém
poderia me dar um aval?
Stephen
Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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