Edição 1853 . 12 de maio de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A garota das fotos

Ela queria a lembrança de uma feliz temporada, mas acabou no papel de
mestre-de-cerimônias da indignidade

Seu rosto vem correndo o mundo. O cabelo é curtinho, os olhos meio amendoados. No fundo não passa de uma menina, flagrada nas fotos sempre com sorriso zombeteiro e ar travesso. É uma americaninha do tipo mignon, veste calça de camuflagem e camiseta, e no pulso exibe um relógio um pouco grande demais para seu braço. Que feliz ela parece estar! Abstraindo-se do resto que aparece nas cenas, do lugar e das circunstâncias em que se inscrevem, tais fotos poderiam ser incluídas no gênero das alegres recordações de férias. Elas seriam reunidas num álbum e, anos depois, revistas com saudade. Ah, que bons tempos! Só que...

Só que as fotos em questão retratam o momento de maior indignidade da aventura militar americana no Iraque. São as fotos das torturas e humilhações sofridas por prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib – a mesma que Saddam Hussein usava para encarcerar e igualmente torturar e humilhar os inimigos. As cenas nelas contidas têm tudo para se tornar clássicas. Mais ainda que as da derrubada da estátua de Saddam, nos primeiros dias da ocupação americana, são sérias candidatas a virar a imagem-símbolo da atual guerra – assim como a foto de uma criança, correndo nua e apavorada pela estrada, depois de ter tido parte do corpo queimada por uma bomba de napalm, virou símbolo da Guerra do Vietnã.

As fotos mostram homens nus e encapuzados em posições humilhantes. Em algumas eles aparecem enfileirados. Em outras, sentados uns nas costas dos outros. Em outras ainda, dispostos em pilhas que, pelo amontoado caótico de carne humana, tanto podem lembrar o ponto mais caliente de uma bacanal quanto a macabra encenação de uma vala comum. Há fotos da série, não divulgadas, em que os prisioneiros são forçados a se masturbar perante a câmera ou simular sexo oral uns nos outros. No meio disso tudo, passeando deslumbrada entre os corpos nus, como uma perversa Alice no País das Maravilhas, ou, melhor ainda, uma Justine no País do Marquês de Sade, lá está ela, nossa pequena garota de cabelinho curto e olhos amendoados. Sobre a tortura no Iraque e a submissão dos prisioneiros a situações de degradação sexual já muito se falou. Fixemo-nos na garota de olhos amendoados.

Numa foto, em que aparece junto a uma fileira de presos, ela tem um cigarro na boca e, com a mão, simula um revólver apontado para a genitália de um dos homens. Em outra, ela está ao lado de um preso que tem as mãos cruzadas sobre a cabeça, e igualmente faz o gesto do revólver em direção à genitália dele. Numa terceira, aparece abraçada a um companheiro americano, atrás de uma pilha de corpos nus. Os dois, ela e o companheiro, levantam os polegares para a câmera, em sinal de positivo. O fato de ser uma mulher que protagoniza as cenas empresta-lhes carga redobrada, ainda mais por se tratar de uma região onde mulher usa véu para esconder o cabelo e muitos outros panos para esconder o resto. Mas não é isso o mais chocante. O mais chocante é o sorriso de satisfação que ela estampa no rostinho. O polegar erguido na foto em que está abraçada ao companheiro indica que para ela estava tudo bem – muito, muito bem. Em todas as cenas ela olha para a câmera, sorridente e cheia de si como a aniversariante no dia da festa, ou como a turista em frente à Torre Eiffel. É flagrante o desejo de deixar registrado um dia feliz, num cenário inesquecível.

Quem é a moça? Uma reportagem do The New York Times revela que se trata da soldada Lynndie R. England, de 21 anos, moradora na pequena cidade de Fort Ashby, Estado de West Virginia. Em acréscimo a seu trabalho numa fábrica de processamento de frangos, ela inscreveu-se no Exército para reforçar o orçamento. Desde pequena, tinha o gosto incomum de observar tempestades. Sim, gostava de observar tempestades, rastrear raios e ouvir trovões. Queria – quer ainda – ser meteorologista. Como explicar sua presença naquelas cenas? Sua mãe diz que ela não tinha nada a ver com o que ocorria na prisão. "Por acaso, estava lá quando tiraram aquelas fotos."

A mãe deve estar certa. A função da soldada Lynndie era só registrar os presos, preenchendo fichas e tirando-lhes as impressões digitais. Não fazia parte do time de guardas a quem se atribuem as torturas e humilhações dos presos. Mas namorava um dos guardas, e talvez por isso estivesse lá naquele momento. Por esse amor inoportuno, por ingenuidade, descuido ou deslumbramento, acabou emprestando o rosto para aquelas cenas. Pobre Lynndie. Posou para as fotos como quem quer perpetuar a lembrança de uma temporada inesquecível e, para o resto da vida, amargará a sorte de ter virado uma espécie de mestre-de-cerimônias da indignidade, ou garota-progaganda do opróbrio. Seu consolo é que não passa de minúscula fração de um mal que a ultrapassa em muito. Os Estados Unidos, com igual inconsciência e a mesma cabeça de vento, iniciaram esta guerra julgando que dariam um triunfal passeio. Ei-los engolfados num pesadelo que os atormentará por anos a fio.

 
 
 
 
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