Edição 1853 . 12 de maio de 2004

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Especial
Para agradar a gregos
e troianos

Rodado a um custo de 250 milhões
de dólares, Tróia tem a ambição
de
satisfazer como drama e espetáculo


Isabela Boscov

Fotos divulgação
Pitt, como o guerreiro Aquiles, que luta do lado dos gregos: coxas finas demais para um semideus
Curiosidades, galeria de fotos, trecho da Ilíada de Homero e trailer


Dois povos se engajam numa guerra sangrenta a pretexto de uma provocação tola – um adultério –, que mal oculta o verdadeiro propósito do conflito: exterminar o inimigo. Como toda guerra, essa serve também para que líderes adversários meçam forças um contra o outro. Ou seja, o antagonismo é político, e é muito pessoal. A guerra em questão é a de Tróia, deflagrada quando o príncipe Páris roubou de Esparta – e de seu marido, Menelau – aquela que seria a mulher mais bela do mundo, Helena, dando aos gregos a deixa para uma investida que está entre as mais agressivas da história. Mas, na maneira como é descrita pelo grego Homero nos poemas épicos Ilíada e Odisséia, ela poderia ser qualquer outra guerra – ou todas as guerras. Homero retrata batalhas monumentais entre os exércitos grego e troiano, e lutas dramáticas entre os protagonistas, como os guerreiros Aquiles e Heitor. Mas sua verdadeira matéria-prima é a insensatez que constitui ao mesmo tempo a fraqueza e a beleza da condição humana – o desejo de ser mais e se aproximar dos deuses, e a derrota que aguarda quem tenta essa aventura. Fazer jus ao escopo épico e humano da Ilíada – e repetir o sucesso de Gladiador – é o desafio quase impossível a que se propõe a megaprodução Tróia (Troy, Estados Unidos, 2004), com estréia mundial marcada para a sexta-feira.

 
O cavalo que derrotou Tróia: mito que está na base da civilização

Estrelado por Brad Pitt – devidamente torneado e bronzeado – no papel de Aquiles e dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, de Mar em Fúria, Tróia é o primeiro filhote, mas não o último, do "efeito Gladiador". Depois que o sucesso do filme de Ridley Scott tirou de décadas de ostracismo o gênero saia-e-sandália, todos os estúdios saíram à cata de projetos que recriem a Antiguidade para a platéia do século XXI. Só sobre Alexandre, o Grande há duas produções em curso – uma delas, com estréia prevista para dezembro, a cargo do diretor Oliver Stone. Tróia, entretanto, é a mais ambiciosa dessas apostas. Rodado a um custo oficial de 175 milhões de dólares (e extra-oficial, mas bem mais realista, de 250 milhões), ele quer agradar em duas frentes: como espetáculo e como drama. No primeiro quesito, deve ser inevitavelmente bem-sucedido. No segundo, suscita dúvidas. Petersen se lançou em 1981, com o soberbo O Barco – Inferno no Mar, que acompanhava o desespero da tripulação de um submarino alemão avariado, durante a II Guerra Mundial. Desde então, porém, tem se mostrado mais eficiente na carpintaria do que na condução de dramas. O roteirista de Tróia, David Benioff, é um apaixonado por Homero que saiu vendendo seu script, por conta própria, para os estúdios. Mas, com tanto dinheiro em risco, obrigou-se a fazer diversas concessões ao gosto dos produtores e do público. No aspecto dramático, como se vê, o placar de Tróia marca um empate inconclusivo.

 
Uma das batalhas rodadas no México: paciência com os cactos ameaçados e os halterofilistas búlgaros

Então, ao que é certo: o espetáculo. A mais célebre guerra da Antiguidade, diz a lenda (veja quadro), começou quando a Grécia lançou ao mar 1.000 navios para cercar Tróia e recapturar Helena. Durante dez anos, as batalhas se sucederam com fúria, sem que um dos lados alcançasse vantagem sobre o outro. Os gregos, então, retiraram-se para uma ilha próxima, fingindo haver abandonado o conflito, e enviaram a Tróia um imenso cavalo de madeira como presente. Com o cavalo abrigado no interior da cidadela, os troianos festejaram o fim da guerra durante toda uma noite – e, claro, embriagaram-se. Na manhã seguinte, com o inimigo posto fora de combate, uma força-tarefa grega saiu de dentro do cavalo e abriu os portões para que seu Exército arrasasse Tróia de vez.

 
Bana e Saffron: o diretor só quis "gente belíssima"

Trata-se de uma história que proporciona inúmeras possibilidades para um diretor com domínio de superproduções, e Petersen tirou todo o proveito delas. Dos 1.000 navios recriados em computação gráfica às locações magníficas no México e em Malta (onde também Gladiador foi rodado), o diretor não se poupou esforços – nem ao seu elenco e equipe. Durante cinco meses, eles enfrentaram dois furacões, reconstruíram do zero cenários destruídos, atravessaram greves de 150 halterofilistas búlgaros – contratados para os closes nas cenas de batalha – e esperaram, pacientemente, que membros de organizações ambientais retirassem milhares de exemplares de cactos raros, um a um, de uma praia mexicana. Isso sem falar no bizarro ritual do prato de sopa às 11 da manhã, do qual Petersen não abre mão, e – ironia – na lesão que Pitt sofreu no tendão de Aquiles, que adiou por três meses a filmagem de uma cena crucial. A despeito da grandiosidade dessa recriação da Antiguidade, o maior trunfo de Tróia é seu elenco. E não só porque ele conta com uma retaguarda de talentos experimentados, como Peter O'Toole, Brendan Gleeson e Brian Cox. "Quando li o roteiro", diz o diretor, "vi que o filme só funcionaria se houvesse gente belíssima em cena." Daí a escolha de Pitt, para começar – embora os boatos dêem conta de que ele teve de usar um dublê de coxas, já que as suas seriam finas demais para o padrão semideus –, e também de Orlando Bloom (Páris), Eric Bana (Heitor), Sean Bean (Odisseu), Saffron Burrows (Andrômaca) e da ex-modelo alemã Diane Kruger (Helena). Ao menos no que depender dessa seleção, Tróia prova que o ser humano às vezes chega bem perto dos deuses.

 

O enigma de Homero

Diane, como Helena: o poeta era um cavalheiro

Frustração é o destino de qualquer historiador que se especialize na obra do grego Homero. Primeiro, porque nem é possível afirmar categoricamente que ele tenha existido. Depois, porque os eventos que relata na Ilíada e na Odisséia – os textos sobre os quais se assentam as fundações da civilização ocidental – são de comprovação tortuosa. As hipóteses mais prováveis indicam que Homero viveu no século 8 a.C., e que fez a Odisséia muito depois de ter completado a Ilíada, rememorando fatos que teriam acontecido cerca de 500 anos antes, no fim da Idade do Bronze. Ou seja, não há como garantir que a Guerra de Tróia seja real, ou que tenha se passado da forma descrita. Não que isso importe. Homero é essencial não como historiador, e sim, digamos, como inventor da história. Da profundidade com que ele enxerga a condição humana a arquétipos como o rapto da donzela e a volta para casa – o tema da Odisséia –, tudo o que somos ainda hoje está contido e iluminado em sua obra, e não seria exagero dizer que, em boa medida, ela nos moldou. Por isso, apesar de seus quase três milênios de idade, os poemas mantêm intacto o poder de influenciar o pensamento ocidental. Fosse seu autor quem fosse. Só uma coisa parece certa na biografia de Homero – ele era um legítimo cavalheiro. Afinal, é improvável que só o lindo rosto de Helena tenha causado tamanha bagunça. Algum outro segredinho ela devia ter.

 

 
 
 
 
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