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Especial
Para
agradar a gregos
e
troianos
Rodado
a um custo de 250 milhões
de dólares, Tróia tem a ambição
de
satisfazer como drama e espetáculo

Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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| Pitt,
como o guerreiro Aquiles, que luta do lado dos gregos: coxas
finas demais para um semideus |
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Dois povos se engajam numa guerra sangrenta a pretexto de uma provocação
tola um adultério , que mal oculta o verdadeiro
propósito do conflito: exterminar o inimigo. Como toda guerra,
essa serve também para que líderes adversários
meçam forças um contra o outro. Ou seja, o antagonismo
é político, e é muito pessoal. A guerra em
questão é a de Tróia, deflagrada quando o príncipe
Páris roubou de Esparta e de seu marido, Menelau
aquela que seria a mulher mais bela do mundo, Helena, dando aos
gregos a deixa para uma investida que está entre as mais
agressivas da história. Mas, na maneira como é descrita
pelo grego Homero nos poemas épicos Ilíada
e Odisséia, ela poderia ser qualquer outra guerra
ou todas as guerras. Homero retrata batalhas monumentais
entre os exércitos grego e troiano, e lutas dramáticas
entre os protagonistas, como os guerreiros Aquiles e Heitor. Mas
sua verdadeira matéria-prima é a insensatez que constitui
ao mesmo tempo a fraqueza e a beleza da condição humana
o desejo de ser mais e se aproximar dos deuses, e a derrota
que aguarda quem tenta essa aventura. Fazer jus ao escopo épico
e humano da Ilíada e repetir o sucesso de Gladiador
é o desafio quase impossível a que se propõe
a megaprodução Tróia (Troy, Estados
Unidos, 2004), com estréia mundial marcada para a sexta-feira.
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| O
cavalo que derrotou Tróia: mito que está na base da civilização
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Estrelado
por Brad Pitt devidamente torneado e bronzeado no
papel de Aquiles e dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen,
de Mar em Fúria, Tróia é o primeiro
filhote, mas não o último, do "efeito Gladiador".
Depois que o sucesso do filme de Ridley Scott tirou de décadas
de ostracismo o gênero saia-e-sandália, todos os estúdios
saíram à cata de projetos que recriem a Antiguidade
para a platéia do século XXI. Só sobre Alexandre,
o Grande há duas produções em curso
uma delas, com estréia prevista para dezembro, a cargo do
diretor Oliver Stone. Tróia, entretanto, é
a mais ambiciosa dessas apostas. Rodado a um custo oficial de 175
milhões de dólares (e extra-oficial, mas bem mais
realista, de 250 milhões), ele quer agradar em duas frentes:
como espetáculo e como drama. No primeiro quesito, deve ser
inevitavelmente bem-sucedido. No segundo, suscita dúvidas.
Petersen se lançou em 1981, com o soberbo O Barco
Inferno no Mar, que acompanhava o desespero da tripulação
de um submarino alemão avariado, durante a II Guerra Mundial.
Desde então, porém, tem se mostrado mais eficiente
na carpintaria do que na condução de dramas. O roteirista
de Tróia, David Benioff, é um apaixonado por
Homero que saiu vendendo seu script, por conta própria, para
os estúdios. Mas, com tanto dinheiro em risco, obrigou-se
a fazer diversas concessões ao gosto dos produtores e do
público. No aspecto dramático, como se vê, o
placar de Tróia marca um empate inconclusivo.
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| Uma
das batalhas rodadas no México: paciência com os cactos ameaçados
e os halterofilistas búlgaros |
Então,
ao que é certo: o espetáculo. A mais célebre
guerra da Antiguidade, diz a lenda (veja
quadro), começou quando a Grécia lançou
ao mar 1.000 navios para cercar Tróia e recapturar Helena.
Durante dez anos, as batalhas se sucederam com fúria, sem
que um dos lados alcançasse vantagem sobre o outro. Os gregos,
então, retiraram-se para uma ilha próxima, fingindo
haver abandonado o conflito, e enviaram a Tróia um imenso
cavalo de madeira como presente. Com o cavalo abrigado no interior
da cidadela, os troianos festejaram o fim da guerra durante toda
uma noite e, claro, embriagaram-se. Na manhã seguinte,
com o inimigo posto fora de combate, uma força-tarefa grega
saiu de dentro do cavalo e abriu os portões para que seu
Exército arrasasse Tróia de vez.
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| Bana
e Saffron: o diretor só quis "gente belíssima" |
Trata-se
de uma história que proporciona inúmeras possibilidades
para um diretor com domínio de superproduções,
e Petersen tirou todo o proveito delas. Dos 1.000 navios recriados
em computação gráfica às locações
magníficas no México e em Malta (onde também
Gladiador foi rodado), o diretor não se poupou esforços
nem ao seu elenco e equipe. Durante cinco meses, eles enfrentaram
dois furacões, reconstruíram do zero cenários
destruídos, atravessaram greves de 150 halterofilistas búlgaros
contratados para os closes nas cenas de batalha e
esperaram, pacientemente, que membros de organizações
ambientais retirassem milhares de exemplares de cactos raros, um
a um, de uma praia mexicana. Isso sem falar no bizarro ritual do
prato de sopa às 11 da manhã, do qual Petersen não
abre mão, e ironia na lesão que Pitt
sofreu no tendão de Aquiles, que adiou por três meses
a filmagem de uma cena crucial. A despeito da grandiosidade dessa
recriação da Antiguidade, o maior trunfo de Tróia
é seu elenco. E não só porque ele conta com
uma retaguarda de talentos experimentados, como Peter O'Toole, Brendan
Gleeson e Brian Cox. "Quando li o roteiro", diz o diretor, "vi que
o filme só funcionaria se houvesse gente belíssima
em cena." Daí a escolha de Pitt, para começar
embora os boatos dêem conta de que ele teve de usar um dublê
de coxas, já que as suas seriam finas demais para o padrão
semideus , e também de Orlando Bloom (Páris),
Eric Bana (Heitor), Sean Bean (Odisseu), Saffron Burrows (Andrômaca)
e da ex-modelo alemã Diane Kruger (Helena). Ao menos no que
depender dessa seleção, Tróia prova
que o ser humano às vezes chega bem perto dos deuses.
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O
enigma de Homero
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| Diane,
como Helena: o poeta era um cavalheiro
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Frustração
é o destino de qualquer historiador que se especialize
na obra do grego Homero. Primeiro, porque nem é
possível afirmar categoricamente que ele tenha
existido. Depois, porque os eventos que relata na
Ilíada e na Odisséia
os textos sobre os quais se assentam as fundações
da civilização ocidental são
de comprovação tortuosa. As hipóteses
mais prováveis indicam que Homero viveu no século
8 a.C., e que fez a Odisséia muito depois
de ter completado a Ilíada, rememorando
fatos que teriam acontecido cerca de 500 anos antes,
no fim da Idade do Bronze. Ou seja, não há
como garantir que a Guerra de Tróia seja real,
ou que tenha se passado da forma descrita. Não
que isso importe. Homero é essencial não
como historiador, e sim, digamos, como inventor da história.
Da profundidade com que ele enxerga a condição
humana a arquétipos como o rapto da donzela e
a volta para casa o tema da Odisséia
, tudo o que somos ainda hoje está contido
e iluminado em sua obra, e não seria exagero
dizer que, em boa medida, ela nos moldou. Por isso,
apesar de seus quase três milênios de idade,
os poemas mantêm intacto o poder de influenciar
o pensamento ocidental. Fosse seu autor quem fosse.
Só uma coisa parece certa na biografia de Homero
ele era um legítimo cavalheiro. Afinal,
é improvável que só o lindo rosto
de Helena tenha causado tamanha bagunça. Algum
outro segredinho ela devia ter.
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