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Medicina
Prozac
foi só o começo
Uma
nova droga congestiona ainda
mais o concorrido mercado mundial
de antidepressivos

Anna
Paula Buchalla
Seis
de cada dez pacientes vítimas de depressão abandonam
o tratamento antes do tempo. Para reverter esse quadro, a indústria
farmacêutica investe pesado no desenvolvimento de antidepressivos
que ajam cada vez mais rápido e com menos efeitos colaterais.
Os remédios disponíveis contra a doença levam,
em média, de duas a quatro semanas para começar a
fazer efeito. Na semana passada, durante o congresso da Associação
Americana de Psiquiatria, em Nova York, foram apresentados estudos
com um novo antidepressivo que promete diminuir a severidade dos
sintomas da depressão já na primeira semana de uso.
A duloxetina, princípio ativo do medicamento Cymbalta, faz
parte de uma nova geração de antidepressivos que atuam
em mais de uma substância cerebral como os remédios
mais antigos, os tricíclicos, sem, no entanto, causar os
pesados efeitos colaterais desses. A duloxetina age sobre a serotonina
e a noradrenalina, substâncias que, em conjunto, regulam o
humor e as funções cognitivas. Um comprimido do remédio
por dia seria suficiente para melhorar sintomas como ansiedade,
pessimismo, sentimentos de culpa, pensamentos suicidas e choro fácil.
As pesquisas realizadas até agora com a duloxetina foram
encomendadas pelos próprios fabricantes do remédio,
os laboratórios Eli Lilly e Boehringer Ingelheim. Segundo
esses trabalhos, a taxa de eliminação total dos sintomas
é superior a 40% entre os pacientes tratados com duloxetina.
Com outros antidepressivos, esse índice é de 30% dos
casos. Mais de 3 000 pessoas já participaram de estudos com
o Cymbalta.
Do
ponto de vista químico, o desequilíbrio nos níveis
de serotonina e noradrenalina está na origem dos quadros
depressivos. Encontrar uma fórmula que atue especificamente
nessas duas substâncias e seja bem tolerada é hoje
questão de ordem na indústria farmacêutica.
Houve avanços tremendos nas cinco décadas que se seguiram
desde o descobrimento do primeiro remédio para tratar depressão.
A primeira classe de antidepressivos, os tricíclicos, ao
agir na produção de serotonina e de noradrenalina,
acaba por interferir em outras substâncias (veja
quadro). Por isso, medicamentos como Anafranil e
Tofranil, entre outros, causam ganho de peso, boca seca, constipação,
tontura e visão embaçada, além de problemas
sexuais. Mesmo assim, muitos médicos ainda consideram os
tricíclicos o tratamento de primeira linha para depressão,
especialmente nos casos mais graves. Isso porque cada paciente responde
de forma diferente ao mesmo remédio. Há também
os antidepressivos inibidores da MAO, a enzima monoaminoxidase.
Apesar de potentes, esses remédios podem causar um tipo letal
de hipertensão caso haja interação com determinados
tipos de substâncias. Uma reviravolta ocorreu no fim da década
de 80, com o lançamento do Prozac, que prometia eliminar
todos esses efeitos adversos. Pertencente à classe dos medicamentos
com a ação específica sobre os níveis
de serotonina, foi logo batizado de "pílula da felicidade",
num lance de marketing extremamente bem-sucedido. Embora seja bem
mais tolerável pelo organismo, estudos clínicos mostraram
que, em alguns casos, principalmente os de depressão severa,
sua eficácia não atinge os mesmos níveis dos
tricíclicos. A nova geração de antidepressivos,
da qual faz parte a duloxetina, combina, enfim, a eficácia
dos tricíclicos com a maior tolerância dos remédios
da família do Prozac. Isso porque, na maioria dos casos,
a interferência deles nas taxas de outras substâncias
cerebrais é mínima. A duloxetina pertence à
mesma classe de medicamentos como Efexor, Serzone e Remeron, lançados
no fim da década de 90.
Dos
vinte antidepressivos mais vendidos no Brasil, oito têm ação
sobre serotonina e noradrenalina. Desde o lançamento do primeiro,
o Remeron, em 1996, esse tipo de remédio já conquistou
quase 35% do mercado brasileiro de medicamentos contra a depressão,
que no ano passado movimentou 150 milhões de dólares.
É a quarta classe de remédios mais vendida no país,
depois de antiinflamatórios, analgésicos e contraceptivos.
O Lilly aposta que o Cymbalta será um santo remédio
financeiro deverá recuperar o que o laboratório
deixou de ganhar com a perda de patente do Prozac, em 2001. A "pílula
da felicidade" virou um blockbuster, aquela categoria de
remédios "arrasa-quarteirão", cujas vendas somam bilhões
de dólares por ano.
Os
estudos focados nos efeitos colaterais dos antidepressivos levaram
a algumas descobertas interessantes. A mais recente delas relaciona
o uso dos remédios da família do Prozac ao comprometimento
da capacidade de envolvimento amoroso. Cerca de 70% das pessoas
que tomam antidepressivos de qualquer classe relatam problemas sexuais.
Os especialistas notam, agora, que essa diminuição
da libido vem acompanhada da perda de habilidade para iniciar ou
manter um romance em pacientes que se tratam com os remédios
específicos para serotonina. Uma explicação
plausível é que, ao aumentar as taxas da substância
no cérebro, esses antidepressivos refreariam os impulsos
amorosos. Isso porque já está provado que baixos níveis
de serotonina favorecem a paixão.
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