Edição 1853 . 12 de maio de 2004

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Trabalho
Brotaram empregos no campo

Longe das grandes cidades: é lá que o país
consegue criar mais postos de trabalho


Leandra Peres

 
Raul Junior
Feira agrícola em Ribeirão Preto: o agronegócio criou novos pólos de desenvolvimento

O interior brasileiro acaba de produzir uma boa notícia num dos campos mais espinhosos da atual conjuntura econômica: as taxas de desemprego. Um estudo recém-concluído pelo Ministério da Fazenda demonstra que as pequenas e médias cidades de várias regiões do país ampliaram o seu ritmo de criação de postos de trabalho, ao contrário do que acontece nos grandes centros urbanos. Em 2000, 197.000 novos empregos formais surgiram no interior dos seguintes Estados: Pará, Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Entre abril de 2003 e março de 2004, esse número saltou para 365.000 empregos. Foi um aumento de 85%. Nas capitais desses mesmos Estados, detectou-se um movimento inverso. A criação de novas vagas com carteira assinada caiu 10%: passou de 309.000 para 277.000. Segundo o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa, o impacto desses dados é considerável. "Uma mudança na distribuição geográfica do emprego está em curso no país", diz ele.

O desemprego é um calcanhar-de-aquiles do governo Lula. Uma de suas promessas de campanha era a criação de 10 milhões de empregos novos em quatro anos – meta que já foi abandonada. Apropriar-se do bom resultado que se observa no interior é sem dúvida uma tentação. O programa político do PT, que foi ao ar na semana passada, tratou do assunto. Por isso, não custa lembrar que as boas notícias auferidas pelo Ministério da Fazenda não são mérito de um governo específico, mas resultado do trabalho de quem planta e investe no país. O movimento de interiorização do emprego que agora se observa tem duas causas principais. Uma delas é o processo de desconcentração industrial que se opera há mais de uma década no Brasil. Ele se deve em boa parte à eliminação de subsídios governamentais que tornavam mau negócio, para diversas indústrias, a idéia de afastar-se dos grandes centros urbanos. O segundo e mais importante motivo é o excelente desempenho dos setores de agricultura e pecuária. O agronegócio tem desbravado rincões e criado novos pólos de desenvolvimento no Brasil. Enquanto a economia nacional encolheu 0,2% no ano passado, o PIB do Brasil agrícola aumentou 5%. Um em cada 3 reais gerados na economia brasileira tem alguma ligação com a agropecuária. Em termos globais, esse setor responde atualmente por 37% dos empregos do país.

As conseqüências de longo prazo de uma "nova distribuição geográfica do emprego no país" seriam muito benéficas. Com a industrialização e os maciços investimentos em infra-estrutura que foram feitos durante a década de 70, no período do milagre econômico, o Brasil assistiu a um intenso processo de migração do campo para as cidades. A expansão das regiões urbanas continuou nos anos 80, e, nesse período de baixo crescimento econômico, inflação descontrolada e calote nas dívidas públicas, tornou-se ainda mais flagrante a dificuldade que as cidades brasileiras tinham de absorver novos moradores. Esse inchaço das grandes cidades levou os serviços públicos ao ponto de colapso e resultou em fenômenos como o aumento desenfreado da violência. A volta do emprego para o interior reduziria as pressões sobre as metrópoles brasileiras.

Além de demonstrar a pujança do interior, o resultado do estudo do Ministério da Fazenda pode significar que o desemprego no Brasil é um pouquinho menor do que se imagina. Os principais índices de desemprego do país, o do IBGE e o do Dieese, fazem medições apenas em capitais e regiões metropolitanas. A coleta de dados no campo poderia trazer boas surpresas – mas não a ponto de demonstrar que o desemprego no Brasil está em queda. De acordo com o IBGE, havia 2,7 milhões de pessoas sem trabalho no país em março. Isso corresponde a uma taxa de desemprego de 12,8% – o pior resultado desde outubro do ano passado. Com uma política voltada para o crescimento econômico, a queda desse número para 9% seria factível, segundo os economistas. Daí em diante, a situação só melhoraria com outro tipo de reforma. "Seria preciso mudar as leis trabalhistas para aumentar a flexibilidade do sistema e reduzir os custos de contratação. Esse é o grande nó do mercado de trabalho hoje em dia", diz o economista José Márcio Camargo, da PUC do Rio de Janeiro. "No curto prazo a taxa de desemprego cai com a recuperação da economia, mas no longo prazo serão necessárias medidas estruturais."

 
 
 
 
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