Edição 1853 . 12 de maio de 2004

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Carta ao leitor
Herança bendita


Joedson Alves/AE
Lula: é cedo para falar em legado, mas ele pode ser muito positivo

Com mais da metade do mandato presidencial a ser cumprido, é um exercício à primeira vista muito pouco objetivo especular sobre o legado do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas ele pode vir a ser um marco na história brasileira. A maneira inequívoca como o presidente se apresenta à nação como o fiador da política econômica de austeridade fiscal não pode de modo algum ser menosprezada nem colocada no mesmo prato da balança onde pesam os óbvios malogros administrativos do governo. Lula definiu com clareza seus objetivos como presidente e, com igual precisão, os caminhos para chegar até eles. Os objetivos são os da prosperidade e da paz social. O caminho, vem insistindo Lula, é o único capaz de levar até os alvos desejados sem que se deixe para as gerações futuras uma conta amarga na forma de inflação e dívidas impagáveis. O populista que, com razão, tantos temeram durante a campanha tornou-se, no que respeita às finanças públicas, um presidente responsável e maduro, certo de que não existem mágicas capazes de fazer a economia crescer.

A obstinação de Lula em seguir pelo caminho mais difícil e angustiante, mas o único seguro, pode resultar em taxas de crescimento abaixo das esperadas por todos e muito aquém das prometidas por ele. Mas certamente evitará crises desastrosas e a regressão ao estágio de insanidade das moratórias, dos planos mirabolantes e dos confiscos do passado recente. Em um momento em que só se enxergam os defeitos de Lula, é bom ter em mente esse repto pessoal do presidente. Revendo convicções introjetadas no decorrer de sua carreira política, Lula tornou-se um opositor do aventureirismo econômico. Na campanha de 2002, quando a eleição de Lula começou a ser uma certeza, a cúpula petista incluiu em suas análises a questão de como o PT sobreviveria à experiência de ser governo em nível federal. Agora, os luminares do partido teorizam sobre como o PT se sairá quando voltar a ser oposição. A conclusão deles é a de que o PT incendiário – e, acrescente-se, irresponsável – do "Fora FHC" e "Fora FMI" é coisa do passado. Esse é um fator de estabilidade institucional com o qual os brasileiros não puderam contar nas últimas duas décadas – e uma herança bendita que Lula terá deixado ao país.

 
 
 
 
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