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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Flutua, astronauta, flutua
O simpático Marcos
Pontes estrelou
um show caipira e fraudulento ao custo
de 10 milhões de dólares
Pouco antes de o programa entrar no ar, o coordenador
técnico-científico da Agência Espacial Brasileira,
Raimundo Mussi, informou: "Recomendei ao Pontes para flutuar o máximo
possível". Era o começo da noite de quarta-feira,
e dali a instantes o astronauta brasileiro Marcos Pontes iria aparecer
no vídeo, para uma conversa com o presidente Lula. A recomendação
do coordenador técnico-científico, transformado naquele
momento em diretor de cena, conferiu chancela oficial ao que já
se desconfiava: que o objetivo verdadeiro da missão de Marcos
Pontes era encenar um showzinho para impressionar os habitantes
do trecho do planeta Terra situado entre o Monte Roraima, nas vizinhanças
da linha do Equador, e a curva mais meridional do arroio chamado
Chuí. Que graça teria, se ele não flutuasse?
Se a "videoconferência" do presidente, como foi chamada, com
boa dose de licença poética, fosse com Robinho, o
diretor de cena recomendaria: "Não se esqueça de pedalar".
Se fosse com Carmen Miranda: "Não se esqueça do abacaxi
na cabeça". A fala de Mussi vazou pelos microfones esquecidos
abertos. O astronauta não poderia se esquecer de flutuar,
bambo como palmeira ao vento, instável como bêbado
no caminho de volta a casa.
Duda Mendonça foi embora, mas a marca marqueteira
continua a impregnar o Brasil da era Lula. O tenente-coronel Marcos
Pontes até que é um bom sujeito, simpático,
e o menos culpado de tudo, mas o fato é que foi escalado
para o papel de café-com-leite, na brincadeira de gente grande
montada na Estação Espacial Internacional. O trabalho
para valer ficou com os russos e americanos. Para ele, sobrou plantar
feijão. Nas poses em conjunto, os outros astronautas olhavam
entre condescendentes e atônitos para o brasileiro, que, como
modelo que se esfalfa para expor o mais possível sua grife,
apontava para a bandeirinha gravada na roupa, quando não
desfraldava a bandeira que trazia sempre à mão. O
que a missão do astronauta brasileiro teve de mais científico
foi a tentativa de plantar a semente do ufanismo no coração
dos compatriotas. Lula disse que ao ver Marcos Pontes com a bandeira
na mão lembrou de Ayrton Senna. Só faltou a locução,
inebriante de amor à pátria, de Galvão Bueno.
Mas não faltou a Rede Globo. Os apresentadores
dos telejornais foram possuídos da euforia das jornadas épicas.
Tal como o desfile das escolas de samba e a Copa do Mundo, o astronauta
era da Globo. E assim se sucederam as entrevistas exclusivas, anunciadas
entre os sorrisos que, como se sabe, são obrigatórios
na emissora, para ajudar os distraídos a se convencer de
que a notícia é boa. Numa delas, o titular do Jornal
Nacional, William Bonner, aventurou-se pelo delicado caminho
da "modificação na forma de enxergar a vida, a mudança
na espiritualidade", que "muitos astronautas" contrairiam ao enxergar
o planeta lá do alto, "girando devagar", e perguntou se Pontes
já fora tocado por algo parecido. Foi uma tentativa de acrescentar
à história um toque à Paulo Coelho. Noutra
ocasião, a irmã e o irmão do astronauta foram
postos em contato com ele para dizer do orgulho da família,
inclusive do pai octogenário. A Paulo Coelho, somava-se a
tentativa de produzir confissões em voz embargada e, se possível,
lágrimas.
Marcos Pontes saiu-se de tais armadilhas com dignidade.
À questão da espiritualidade, respondeu que andava
com a cabeça muito tomada de outras coisas para pensar no
assunto. Para seu crédito, não ousou dizer que vira
o dedo de Deus a fazer girar o planeta nem que vislumbrara a sombra
de um anjo a cruzar a galáxia. Com os irmãos, manteve
diálogo sóbrio e econômico. Esteve longe do
choro, aquele momento que a Globo preza tanto quanto o sorriso dos
apresentadores – momento em que a câmera se fecha sobre o
rosto do entrevistado, numa apoteose de jornalismo impregnado de
telenovela.
A brincadeira de mandar um astronauta ao espaço
custou ao Brasil 10 milhões de dólares. Foi uma "carona
paga", segundo o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência, Ennio Candotti. Nos meios científicos,
o ufanismo não pegou. "O vôo de Marcos Pontes é
na realidade uma grande jogada eleitoreira do governo", escreveu
o astrônomo Ronaldo Rogério de Freiras Mourão.
O biólogo Fernando Reinach, em artigo no jornal O Estado
de S. Paulo, calculou que, com 10 milhões de dólares,
o Brasil poderia formar 290 novos doutores, em universidades do
país, ou 150, em universidades estrangeiras. "Cento e cinqüenta
doutores foram para o espaço", era o título do artigo.
Em acréscimo à constatação de que feijão
pode crescer no espaço, da mesma forma como num algodão
embebido em água, como sabem as crianças, o Brasil
colheu dois resultados com a aventura espacial do coronel Pontes.
Primeiro, a fama de otário que paga 10 milhões para
fazer figuração num foguete. Segundo, o show caipira
e fraudulento em que a mera presença de um simpático
brasileiro no programa espacial dos outros era apresentada como
grande conquista da pátria.
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