|
|
Cinema
Um espinho na pata
Com Selvagem, a animação
da
Disney cola nos rivais. Mas seus
roteiros continuam para trás

Isabela Boscov
Divulgação
 |
| A trupe de Selvagem: fofos como bichos
de pelúcia, mas sem personalidade |
Em Selvagem (The
Wild, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira
no país, o leão Sansão, rei do zoológico
de Nova York, tem problemas com seu filho: não consegue disfarçar
que o rugido fraquinho do júnior é uma decepção.
Quando o bichano foge e, inadvertidamente, é despachado para
a África, papai e seus amigos (uma trupe disparatada, que
inclui uma cobra, uma girafa, um esquilo e um coala) enfrentam perigos
e atravessam o oceano para resgatá-lo. Só por esse
começo, já fica difícil enumerar quantos desenhos
a nova animação da Disney decalca mas, para
ficar nos óbvios, eles incluem O Galinho Chicken Little,
do próprio estúdio, Madagascar, da rival DreamWorks,
e Procurando Nemo, da produtora Pixar (que acaba de ser comprada
pela Disney e é objeto, por parte desta, de uma famosa relação
de inveja e dependência). Ou seja: Selvagem traz à
tona, mais uma vez, uma pergunta cuja resposta equivaleria à
pedra filosofal para o estúdio do Mickey: onde, afinal, foi
parar sua identidade?
Por questão de justiça,
é preciso ressaltar que Selvagem é muito superior
às investidas mais recentes da Disney, como Chicken Little
e Nem que a Vaca Tussa (além de bem menos irritante).
Mas indica que, não fosse a intervenção criativa
que a Pixar certamente vai operar no estúdio, seu departamento
de animação se veria em situação das
mais desalentadoras. Desenhos, como se sabe, são verdadeiras
vacas leiteiras: proporcionam dividendos, na forma de relançamentos,
produtos e entretenimento doméstico, por anos a fio. (No
caso de clássicos, como Bambi, por décadas
seguidas.) Um desenho que não consegue firmar uma "marca",
portanto, influencia de forma negativa os balanços da empresa
por período equivalente. Apenas para comparar: Chicken
Little, um de seus maiores sucessos recentes, rendeu à
Disney 313 milhões de dólares na bilheteria mundial;
Procurando Nemo fez 865 milhões, ou quase o triplo.
Selvagem é um filme agradável, mas esquecível
e chega a dar dó constatar o esforço patente
dos seus produtores em torná-lo algo mais do que isso. Com
uma de suas pernas (a da animação, que aqui é
muito simpática e imita bichos de pelúcia), eles conseguiram
diminuir a distância em relação à concorrência.
Mas a outra, a do roteiro, continua irremediavelmente manca.
|