Edição 1951 . 12 de abril de 2006

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Cinema
Um espinho na pata

Com Selvagem, a animação da
Disney cola nos rivais. Mas seus
roteiros continuam para trás


Isabela Boscov


Divulgação
A trupe de Selvagem: fofos como bichos de pelúcia, mas sem personalidade

Em Selvagem (The Wild, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, o leão Sansão, rei do zoológico de Nova York, tem problemas com seu filho: não consegue disfarçar que o rugido fraquinho do júnior é uma decepção. Quando o bichano foge e, inadvertidamente, é despachado para a África, papai e seus amigos (uma trupe disparatada, que inclui uma cobra, uma girafa, um esquilo e um coala) enfrentam perigos e atravessam o oceano para resgatá-lo. Só por esse começo, já fica difícil enumerar quantos desenhos a nova animação da Disney decalca – mas, para ficar nos óbvios, eles incluem O Galinho Chicken Little, do próprio estúdio, Madagascar, da rival DreamWorks, e Procurando Nemo, da produtora Pixar (que acaba de ser comprada pela Disney e é objeto, por parte desta, de uma famosa relação de inveja e dependência). Ou seja: Selvagem traz à tona, mais uma vez, uma pergunta cuja resposta equivaleria à pedra filosofal para o estúdio do Mickey: onde, afinal, foi parar sua identidade?

Por questão de justiça, é preciso ressaltar que Selvagem é muito superior às investidas mais recentes da Disney, como Chicken Little e Nem que a Vaca Tussa (além de bem menos irritante). Mas indica que, não fosse a intervenção criativa que a Pixar certamente vai operar no estúdio, seu departamento de animação se veria em situação das mais desalentadoras. Desenhos, como se sabe, são verdadeiras vacas leiteiras: proporcionam dividendos, na forma de relançamentos, produtos e entretenimento doméstico, por anos a fio. (No caso de clássicos, como Bambi, por décadas seguidas.) Um desenho que não consegue firmar uma "marca", portanto, influencia de forma negativa os balanços da empresa por período equivalente. Apenas para comparar: Chicken Little, um de seus maiores sucessos recentes, rendeu à Disney 313 milhões de dólares na bilheteria mundial; Procurando Nemo fez 865 milhões, ou quase o triplo. Selvagem é um filme agradável, mas esquecível – e chega a dar dó constatar o esforço patente dos seus produtores em torná-lo algo mais do que isso. Com uma de suas pernas (a da animação, que aqui é muito simpática e imita bichos de pelúcia), eles conseguiram diminuir a distância em relação à concorrência. Mas a outra, a do roteiro, continua irremediavelmente manca.

 
 
 
 
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