Edição 1951 . 12 de abril de 2006

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Cinema
O Gênese americano

Em O Novo Mundo, Pocahontas
é uma espécie de Eva. Mas a idéia
é melhor do que o filme em si


Isabela Boscov


Divulgação
Q'Orianka, como Pocahontas, salva o renegado Smith (Farrell): roupas tão bem cortadas quanto um Givenchy


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Trailer do filme

Lançando agora seu quarto filme em 32 anos, o americano Terrence Malick, ex-professor de filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e recluso perene, é uma contradição em termos: forjou um mito a partir não do que fez, mas do que deixou de fazer. Terra de Ninguém, de 1973, seu primeiro e excepcional trabalho, criou uma multidão de expectativas. Ali estava um diretor que fazia as imagens falar por si próprias, um homem que refletia sobre as relações humanas e um cineasta com um entendimento verdadeiro da influência da natureza sobre o caráter e as ações. Malick, porém, demorou outros cinco anos para fazer Cinzas do Paraíso, e mais vinte para entregar Além da Linha Vermelha. E, a cada um deles, a força das promessas com que ele acenou foi se dissipando. Com O Novo Mundo (The New World, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país, sua obra finalmente passa a ser um conjunto e permite que se indague se Malick faz por merecer sua reputação de genialidade.

O Novo Mundo trata da primeira colônia estabelecida, em 1607, no que viria a ser o estado americano da Virgínia, do encontro dos europeus com os "naturais" – como eles chamavam os indígenas –, do seu fascínio com uma paisagem mais ampla do que jamais imaginariam existir e do papel singular que uma jovem índia, Pocahontas, exerceu nos contatos iniciais entre essas duas civilizações. Filha do chefe Powhatan, ela ficou célebre por ter se atirado sobre o renegado John Smith no momento em que seu pai ia executá-lo (isso segundo relato do próprio Smith, que muitos historiadores suspeitam ser invenção). Pocahontas, que tinha então cerca de 11 anos, tornou-se próxima de Smith e, até que ele fosse enviado de volta à Inglaterra, freqüentou o assentamento de Jamestown. Em várias ocasiões, salvou a pele dos europeus com alimentos ou com informações sobre emboscadas. Levada a crer que Smith havia morrido, ela se afastou, retomando o convívio apenas ao ser feita refém por um colono e casar-se com outro, John Rolfe, que a levou para a Inglaterra e tornou-a atração na corte.

Seria ótimo dizer que O Novo Mundo não tem nada a ver com Pocahontas. Mas não é o caso, já que Malick opta, como o desenho da Disney, pela lenda. Interpretada por Q'Orianka Kilcher, uma beldade meio suíça e meio quíchua, Pocahontas é aqui novamente uma jovem irresistível no espírito e na forma (realçada por vestidos tão bem cortados quanto um Givenchy), que vive com Smith (Colin Farrell) um romance idílico – circunstância que, de novo, os estudiosos consideram duvidosa. A intenção de Malick é clara: Pocahontas é a Eva americana, a primeira mulher dessa cultura híbrida que viria a se formar e aquela que concentra em sua figura os movimentos de sedução e hostilidade que índios e europeus atravessariam.

É uma bela idéia e, do ponto de vista dos símbolos, é também procedente. Mas, em que pesem suas imagens arrebatadoras – de um lado, da natureza plácida da Virgínia e, de outro, do vício e violência em que vivem os europeus .–, Malick nunca consegue transpor de forma satisfatória a distância entre o que ele pretende e o que ele filma. Não é que ele divida os personagens entre "bons" selvagens e "maus" europeus, até porque Rolfe (Christian Bale) é um exemplo da integridade que a civilização produz. Mas, com sua narração e montagem fragmentadas e sua tentativa de criar a impressão de algo lembrado e sonhado, e não narrado, Malick termina por soar, quase sempre, apenas precioso e maneirista. Idealmente, O Novo Mundo deveria mergulhar o espectador de qualquer um dos lados dessa equação na experiência única de um gênese, no sentido bíblico. Em vez disso, a platéia é obrigada a adivinhar essa experiência. Esse, enfim, parece ser o destino de Malick: acenar com promessas, e não cumpri-las até o fim.

 
 
 
 
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