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Cinema
O Gênese americano
Em O Novo Mundo, Pocahontas
é uma espécie de Eva. Mas a idéia
é melhor do que o filme em si

Isabela Boscov
Divulgação
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| Q'Orianka, como Pocahontas, salva o renegado
Smith (Farrell): roupas tão bem cortadas quanto um Givenchy
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Lançando agora seu quarto
filme em 32 anos, o americano Terrence Malick, ex-professor de filosofia
do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e recluso perene,
é uma contradição em termos: forjou um mito
a partir não do que fez, mas do que deixou de fazer. Terra
de Ninguém, de 1973, seu primeiro e excepcional trabalho,
criou uma multidão de expectativas. Ali estava um diretor
que fazia as imagens falar por si próprias, um homem que
refletia sobre as relações humanas e um cineasta com
um entendimento verdadeiro da influência da natureza sobre
o caráter e as ações. Malick, porém,
demorou outros cinco anos para fazer Cinzas do Paraíso,
e mais vinte para entregar Além da Linha Vermelha.
E, a cada um deles, a força das promessas com que ele acenou
foi se dissipando. Com O Novo Mundo (The New World,
Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país,
sua obra finalmente passa a ser um conjunto e permite que se indague
se Malick faz por merecer sua reputação de genialidade.
O Novo Mundo trata da
primeira colônia estabelecida, em 1607, no que viria a ser
o estado americano da Virgínia, do encontro dos europeus
com os "naturais" como eles chamavam os indígenas
, do seu fascínio com uma paisagem mais ampla do que
jamais imaginariam existir e do papel singular que uma jovem índia,
Pocahontas, exerceu nos contatos iniciais entre essas duas civilizações.
Filha do chefe Powhatan, ela ficou célebre por ter se atirado
sobre o renegado John Smith no momento em que seu pai ia executá-lo
(isso segundo relato do próprio Smith, que muitos historiadores
suspeitam ser invenção). Pocahontas, que tinha então
cerca de 11 anos, tornou-se próxima de Smith e, até
que ele fosse enviado de volta à Inglaterra, freqüentou
o assentamento de Jamestown. Em várias ocasiões, salvou
a pele dos europeus com alimentos ou com informações
sobre emboscadas. Levada a crer que Smith havia morrido, ela se
afastou, retomando o convívio apenas ao ser feita refém
por um colono e casar-se com outro, John Rolfe, que a levou para
a Inglaterra e tornou-a atração na corte.
Seria ótimo dizer que
O Novo Mundo não tem nada a ver com Pocahontas.
Mas não é o caso, já que Malick opta, como
o desenho da Disney, pela lenda. Interpretada por Q'Orianka Kilcher,
uma beldade meio suíça e meio quíchua, Pocahontas
é aqui novamente uma jovem irresistível no espírito
e na forma (realçada por vestidos tão bem cortados
quanto um Givenchy), que vive com Smith (Colin Farrell) um romance
idílico circunstância que, de novo, os estudiosos
consideram duvidosa. A intenção de Malick é
clara: Pocahontas é a Eva americana, a primeira mulher dessa
cultura híbrida que viria a se formar e aquela que concentra
em sua figura os movimentos de sedução e hostilidade
que índios e europeus atravessariam.
É uma bela idéia
e, do ponto de vista dos símbolos, é também
procedente. Mas, em que pesem suas imagens arrebatadoras
de um lado, da natureza plácida da Virgínia e, de
outro, do vício e violência em que vivem os europeus
., Malick nunca consegue transpor de forma satisfatória
a distância entre o que ele pretende e o que ele filma. Não
é que ele divida os personagens entre "bons" selvagens e
"maus" europeus, até porque Rolfe (Christian Bale) é
um exemplo da integridade que a civilização produz.
Mas, com sua narração e montagem fragmentadas e sua
tentativa de criar a impressão de algo lembrado e sonhado,
e não narrado, Malick termina por soar, quase sempre, apenas
precioso e maneirista. Idealmente, O Novo Mundo deveria mergulhar
o espectador de qualquer um dos lados dessa equação
na experiência única de um gênese, no sentido
bíblico. Em vez disso, a platéia é obrigada
a adivinhar essa experiência. Esse, enfim, parece ser o destino
de Malick: acenar com promessas, e não cumpri-las até
o fim.
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