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Internacional
América Latina entre
dois destinos
Por que o caminho adotado pelo
Chile
é a alternativa saudável ao desastre
econômico de Hugo Chávez

Ruth Costas
Há pelo menos dois anos, a América
Latina está diante de uma chance de ouro. A retomada do crescimento
da economia mundial, depois da onda de choque causada pelos atentados
de 2001, impulsionou os preços de produtos abundantes em
alguns países da região, como o cobre, a soja e o
petróleo. Existe fartura de dinheiro no mercado internacional
para ser investido ou emprestado a juros baixos aos países
emergentes. Também ajuda que a maioria dos países
latino-americanos não apenas tenha a inflação
sob controle, como também governos eleitos democraticamente.
Como tirar proveito desse cenário favorável? O exemplo
óbvio a ser seguido é o do Chile, que na última
década tem mantido ritmo de crescimento similar ao dos Tigres
Asiáticos. Com um modelo exportador agressivo, o Chile integrou-se
à economia global. Os chilenos também fornecem um
paradigma de governo responsável, com controle dos gastos
públicos e estabilidade democrática. "Mas não
é esse o modelo que instiga a imaginação da
grande maioria dos pobres latino-americanos. O que os motiva não
é o chilenismo, mas o chavismo", escreveu o venezuelano Moisés
Naím no relatório sobre competitividade na América
Latina, lançado pelo Fórum Econômico Mundial
em São Paulo, na semana passada.
É sintomático que
Naím, ex-diretor executivo do Banco Mundial e ex-ministro
venezuelano, tenha cunhado a primeira expressão a partir
do nome de um país. O chilenismo é o fruto de um consenso
nacional e político. Por sua vez, o chavismo depende da vontade
do presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Fanfarrão,
desbocado e implacável com a oposição, Chávez
é o político atualmente com a maior visibilidade na
América Latina. Depois de Fidel Castro, é o que está
há mais tempo no poder. Seria difícil deixar de notar
um governante que, no mês passado, chamou o presidente George
W. Bush, dos Estados Unidos, de "burro", "beberrão" e "covarde"
e o desafiou a invadir seu país. Com o dinheiro da venda
do petróleo (a Venezuela tem as maiores reservas petrolíferas
fora do Oriente Médio) para gastar à vontade, Chávez
está se convertendo no herói daqueles latino-americanos
que vêem utilidade em se opor com cega obstinação
aos EUA.
Miraflores Palace/Reuters
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| Chávez e seu novo brinquedo: gastos
com armas em lugar de investimento em infra-estrutura |
O modelo chavista baseia-se na intervenção
do Estado no dia-a-dia da economia. O regime trata as companhias
estrangeiras como inimigas, desconfia dos empresários nacionais
e não se preocupa em diversificar as exportações,
hoje praticamente reduzidas a um único produto, o petróleo.
Incapaz de gerar empregos e aumentar a renda da população,
adota um modelo assistencialista cuja contrapartida exige a lealdade
dos beneficiados. "Enquanto o Chile olha para o futuro e procura
adaptar-se ao mundo globalizado, o presidente venezuelano defende
uma estratégia de desenvolvimento endógena, que já
fracassou em décadas anteriores", disse a VEJA o cientista
político venezuelano Carlos Romero, da Universidade Central
da Venezuela, em Caracas.
O resultado prático desses modelos
econômicos pode ser aferido pelas estatísticas. Desde
que Chávez se elegeu pela primeira vez, em 1998, os investimentos
estrangeiros no país caíram pela metade e a classe
média venezuelana ficou 57% menor. No Chile, que começou
suas reformas econômicas na década de 80 e há
mais de dez anos tem um crescimento médio de 6%, a parcela
da população que vive abaixo da linha de pobreza foi
reduzida pela metade. No ranking elaborado pelo Fórum Econômico
Mundial para medir a competitividade de 117 países, a Venezuela
está na posição 84. O Chile, o mais bem colocado
da América Latina, ocupa o 27º lugar, à frente
de treze países da União Européia. É
estranho que, diante desses números, tantos esquerdistas
latino-americanos torçam o nariz ao governo socialista do
Chile e prefiram aplaudir o populismo de Chávez. Mas é
isso que está ocorrendo.
Eleito no começo deste ano,
o boliviano Evo Morales é uma espécie de mini-Chávez,
de quem, aliás, recebe apoio e dinheiro. Está em seus
planos estatizar a única riqueza do país, o gás
natural. Se fizer isso, corre o risco de ficar sem nada, pois a
Bolívia, a nação mais pobre da América
do Sul, não tem recursos para investir na exploração
do subsolo. No vizinho Peru, o dinheiro de Chávez ajuda na
campanha a presidente de Ollanta Humala. Os dois têm muito
em comum. Ambos são militares e realizaram tentativas fracassadas
de tomar o poder pela força de quarteladas. O financiamento
de Morales e Humala é uma pequena parte do esforço
do presidente venezuelano para comprar apoio e simpatias no exterior.
No ano passado, essa operação internacional custou
3,5 bilhões de dólares à Venezuela. Estão
incluídas nessa conta a compra de 1 bilhão de dólares
em títulos do governo argentino (dinheiro que seu amigo Néstor
Kirchner usou para saldar uma dívida com o Fundo Monetário
Internacional) e a mesada que mantém a combalida economia
de Cuba.
Aizar Raldes/AFP
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Eitan Abramovich/AFP
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| O boliviano Evo Morales (à
esq.) e o peruano Ollanta Humala: além da fantasia
de índio, eles querem ser Chávez |
O paradoxo da popularidade do
chavismo, apesar de seus resultados desastrosos para a Venezuela,
tem várias explicações, escreveu Moisés
Naím. Uma delas é o alto preço do barril de
petróleo, que garante ao presidente venezuelano dinheiro
farto para bancar suas aventuras. Outra é o discurso antiamericano,
que combina com a desaprovação geral da guerra no
Iraque. Há também o desapontamento generalizado na
América Latina com as promessas não cumpridas das
reformas de mercado e da globalização nos anos 90.
Por fim, há uma velha e infeliz tradição latino-americana
– aquela que o leva a acreditar nas palavras do caudilho que promete
punir os responsáveis pela pobreza, pela corrupção,
pelo subdesenvolvimento, mesmo que isso seja uma balela. A política
adotada por Chávez e seus imitadores não é
muito diferente de outras tentadas no passado. Se há um responsável
pelo desemprego, pela desigualdade social e pela falta de competitividade
dos países latino-americano, esse se constitui, sobretudo,
nas tentativas de dirigir a economia de dentro do palácio
de governo. Na América Latina, o chileno ainda é o
modelo que se mostrou mais eficaz contra a pobreza.
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