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Brasil
O ministro foi cúmplice
Márcio Thomaz Bastos tem o dever de
proteger os direitos dos cidadãos. Mas
ajudou Palocci a encobrir o crime de
violação do sigilo do caseiro Francenildo

Marcelo Carneiro
Dida Sampaio/AE
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| Bastos se refresca depois de uma corrida:
ele errou ao ir à casa e assistir a Malheiros aconselhar
Palocci |
A violação de sigilo do caseiro
Francenildo Costa já produziu a queda de um ministro (Antonio
Palocci, da Fazenda) e do presidente do segundo maior banco estatal
do país (Jorge Mattoso, da Caixa Econômica Federal).
Na semana passada, VEJA revelou que Palocci comandou a operação
ilegal e que um alto funcionário do Ministério da
Justiça Daniel Goldberg, secretário de Direito
Econômico estava na casa do ministro no momento em
que Mattoso lhe entregou um extrato com a movimentação
bancária do caseiro. Na manhã seguinte, a pedido de
Palocci, outro assessor de Márcio Thomaz Bastos seu
chefe-de-gabinete Cláudio Alencar solicitou à
PF que investigasse Francenildo por uma movimentação
atípica em sua conta bancária. Em outras palavras,
que transformasse uma vítima em suspeito de lavagem de dinheiro.
Os fatos são graves, mas o ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, apressou-se em dizer que ele e seus assessores devem
ser preservados porque não tiveram participação
ativa no episódio. O problema é que a história
não termina aí.
Apesar dos esforços do
governo para esconder o fato, VEJA descobriu que, sete dias depois
do convescote inicial na casa de Palocci, o próprio Márcio
Thomaz Bastos foi à residência oficial do ex-ministro
da Fazenda com uma missão ainda mais imprópria: descobrir
uma maneira de encobrir a participação da cúpula
do governo no crime. Essa segunda reunião ocorreu no começo
da tarde de 23 de março. Além de Márcio Thomaz
Bastos e Palocci, também estavam na casa Jorge Mattoso e
o advogado criminalista Arnaldo Malheiros Filho este último
convocado a Brasília pelo próprio ministro da Justiça.
No encontro, Palocci e Mattoso não só discutiram o
que falariam à Polícia Federal como também
a possibilidade de, por 1 milhão de reais, arrumar um funcionário
subalterno da Caixa que assumisse a responsabilidade pela lambança.
Se conseguissem, tanto Palocci quanto Mattoso manteriam seus cargos.
Nilton Fukuda/AE
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Marcelo Casal Jr/ABR
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| Malheiros: levado a Brasília pelas mãos do ministro
da Justiça |
Palocci: ajuda de Bastos durante toda a crise |
Governos podem e devem cumprir missões
secretas. Mas nunca clandestinas. A operação de governo
encetada para manter Antonio Palocci à frente do Ministério
da Fazenda foi clandestina. Dela participaram altos funcionários
da administração federal, que usaram carros oficiais
e conspiraram em residências oficiais. Fossem eles cidadãos
comuns, não investidos de cargos na mais alta hierarquia
administrativa do país, suas ações, pela natureza
ilegal, seriam passíveis de capitulação no
crime de formação de quadrilha. Sendo um complô
orquestrado por funcionários de confiança do presidente
da República, a gravidade do crime se aprofunda de maneira
tal que suas conseqüências são funestas para os
envolvidos e assustadoras para a nação. O paralelo
mais recente é com o escândalo Watergate, que em 1974
levou o presidente americano Richard Nixon à renúncia.
As analogias entre a crise atual
e o caso Watergate são patentes: integrantes de um governo
que acham que podem usar impunemente a máquina do Estado
para perseguir inimigos, um crime menor que se torna cada vez mais
grave e evidente pelas tentativas desesperadas de
acobertamento, a autofagia que se dissemina à medida que
os condenados decidem que não vão pagar a conta sozinhos.
Um ministro da Justiça também teve um papel decisivo
em Watergate: John Mitchell, homem de confiança do presidente
Richard Nixon. Saíram de sua cabeça as principais
malfeitorias do escândalo: a idéia de usar grampos
sem ordem judicial e a criação de um grupo de "assessores"
encarregados de fazer o serviço sujo. Foi ele quem arquitetou
plantar microfones num comitê do Partido Democrata, para levantar
informações lesivas aos adversários políticos.
Quando os autores foram detidos, por acaso, Mitchell orquestrou
todas as manobras para evitar que a ilegalidade fosse relacionada
com a Casa Branca. O caso degringolou até que Nixon, prestes
a ser condenado no Congresso, renunciou. John Mitchell se tornou
o primeiro ex-titular do Departamento de Justiça dos Estados
Unidos a ser condenado e preso.
Marcos D'Paula/AE
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| Mattoso: depoimento à Polícia
Federal combinado com Palocci |
Na tarde de sexta-feira, VEJA
ouviu as explicações de Márcio Thomaz Bastos
para sua presença na reunião. O ministro admite ter
convocado Malheiros a pedido de Palocci. Disse que foi à
casa porque o advogado, de quem é amigo, gostaria que ele
estivesse presente. E também "porque, como ministro da Justiça,
eu queria me inteirar dos fatos, já que a Polícia
Federal já havia instaurado um inquérito para apurá-los".
Márcio Thomaz Bastos afirmou ainda que permaneceu apenas
meia hora na residência, período no qual Malheiros
teria feito "uma exposição teórica sobre o
crime de violação de sigilo bancário". Segundo
ele, nenhum outro assunto teria sido discutido. E qual a razão
para a presença de Jorge Mattoso? "Foi uma surpresa. Não
sabíamos (Márcio Thomaz Bastos e Malheiros)
que ele estaria lá. Foi Palocci quem o chamou." Concluída
a reunião, os convidados deixaram juntos a casa do então
ministro da Fazenda. Márcio Thomaz Bastos disse que retomou
sua agenda e que Malheiros e Mattoso se dirigiram a outro local
em Brasília, para conversar com outras pessoas. "Mas não
saberia dizer com quem. Eles não me disseram." Há
vários problemas (todos gravíssimos) no fato de Márcio
Thomaz Bastos admitir sua participação numa reunião
em que tomaram parte um renomado advogado criminalista e dois altos
funcionários do governo, hoje indiciados por quebra de sigilo
bancário. O mais preocupante deles é que o ministro
da Justiça ministro da Justiça, enfatize-se
forneceu assessoria jurídica aos dois violadores de
um dos direitos básicos dos cidadãos, com os quais
tentou forjar uma saída salvadora.
Entende-se que Márcio
Thomaz Bastos tente negar o propósito do encontro do qual
tomou parte. Admiti-lo equivale a renunciar. No encontro, Mattoso
concordou com a estratégia suja de terceirizar a autoria
do crime desde que não se tentasse atribuir a culpa
a funcionários de carreira da Caixa Econômica Federal.
Ficou decidido que somente os nomeados politicamente receberiam
a proposta de embolsar 1 milhão de reais em troca de assumir
a autoria do crime de violação de sigilo bancário.
Mattoso e Malheiros saíram da casa de Palocci para procurar
os candidatos ao "prêmio do milhão". Márcio
Thomaz Bastos, que deixou a casa no mesmo momento, diz não
saber para onde Malheiros e Mattoso seguiram depois do encontro.
Se o ministro da Justiça estiver falando a verdade, é
de presumir que o advogado e o ex-presidente da CEF conversem por
telepatia. Sim, por telepatia, já que, embora nunca tivessem
se encontrado, combinaram um novo compromisso na frente do ministro
da Justiça sem que este percebesse.
Nelson Antoine/Futura Press
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| Borges, vice-presidente da Caixa: "Um
milhão? nunca ouvi falar" |
Desde o início do escândalo,
o ministro Márcio Thomaz Bastos tem ensaiado movimentos erráticos.
Inicialmente deu apoio irrestrito a Palocci. Márcio Thomaz
Bastos só declarou que o ministro seria investigado depois
que o próprio ex-presidente da Caixa Jorge Mattoso revelou
em depoimento à Polícia Federal seu envolvimento.
Até aquele momento, o ministro da Justiça permanecera
calado sobre a participação de seus assessores diretos
no episódio e, principalmente, sobre sua própria presença
na casa de Palocci no dia 23 de março. Esse vai-e-vem obedece
a uma lógica. Assim que os fatos vão sendo revelados,
Márcio Thomaz Bastos vai criando novas versões jurídicas
para defender a pele dos integrantes do governo e, é
claro, a sua própria. Forma-se, dessa maneira, uma espécie
de universo jurídico paralelo, que nunca tangencia a verdade.
Foi assim, por exemplo, na incrível versão de que
a origem do dinheiro do valerioduto eram empréstimos contraídos
em bancos e que os recursos se destinavam apenas a pagar dívidas
de campanha do caixa dois do partido. Tentava-se encobrir algo inquestionável:
o desvio de dinheiro público para comprar deputados dispostos
a votar favoravelmente ao governo em suma, o mensalão.
Segundo informações
obtidas por VEJA, desde que a violação do sigilo do
caseiro foi tornada pública, no início da noite de
sexta-feira 17 de março, Márcio Thomaz Bastos não
só já tinha todos os detalhes da participação
de Palocci no comando da operação como foi escalado
pelo governo para elaborar uma saída que poupasse o ministro.
Isso equivale a dizer que o ministro da Justiça do governo
Lula, que deveria ter dado ordem de prisão a Palocci assim
que foi informado de sua participação em um ato criminoso,
não só fez vista grossa como participou de um complô
para enganar a opinião pública. Não é
preciso ser um gênio jurídico para saber que isso é
grave. Muito grave. Se o estágio civilizatório da
cúpula petista fosse um pouco menos rudimentar, eles teriam
motivos para estar preocupados. Muito preocupados.
Só depois que VEJA revelou
a presença dos assessores de Márcio Thomaz Bastos,
Goldberg e Alencar, em reuniões na casa de Palocci, o ministro
finalmente veio a público prestar esclarecimentos sobre o
episódio. Jurou que não tinha nada a ver com o que
seus auxiliares foram fazer na residência oficial do ministro
da Fazenda, na calada da noite. Deu até um álibi:
estava em Rondônia e seu telefone não funcionava. Considerando
que, enquanto o ministro estava em Rondônia, a PF iniciou
uma perseguição ao caseiro, resta uma pergunta: será
que foi à revelia de Márcio Thomaz Bastos, a quem
a PF é subordinada? Na segunda-feira passada, sob pressão
da oposição, que exigia explicações,
Márcio Thomaz Bastos declarou: "Não tenho motivo para
ser ouvido". A determinação do ministro não
durou três dias. Na quinta-feira, com a sua situação
ainda mais complicada, o titular da Justiça declarou que
havia mudado novamente de idéia. Agora se oferecia para prestar
esclarecimentos no Congresso. Márcio Thomaz Bastos e o governo
ainda têm muito a explicar sobre o episódio. A proposta
de dar 1 milhão de reais para que funcionários da
Caixa assumissem a violação das contas do caseiro
é um exemplo. Não é o único. É
o mais ousado.
Ricardo Stuckert/ABR
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| Gilberto Carvalho, o chefe-de-gabinete de
Lula: recado do presidente para ficar "fora dessa confusão"
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Na semana passada, VEJA ouviu de um ex-integrante da república
petista a seguinte história: um dos responsáveis por
arregimentar candidatos à bolada foi Carlos Augusto Borges,
atual vice-presidente de Transferência de Benefícios
da Caixa. Borges, um sindicalista que chegou a presidente da Federação
Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica
Federal, é homem de confiança de Lula. Na Caixa, sua
nomeação foi explicada como cota pessoal do presidente.
De acordo com o relato obtido por VEJA, Borges fez a oferta a pelo
menos dois funcionários do banco. Um deles, Clarice Coppetti,
também vice-presidente, da área de Tecnologia da CEF,
teria aceitado assumir a responsabilidade pela quebra. Mas a oferta
esbarrou em um problema: Clarice é casada com Cesar Alvarez,
assessor especial da Presidência da República e, por
isso mesmo, muito próximo a Lula. A emenda poderia sair pior
que o soneto e a crise acabaria batendo às portas do Palácio
do Planalto. Tanto Borges como Clarice, por meio da assessoria de
imprensa da Caixa, negaram participação e disseram
que, caso tivessem seus nomes citados, processariam a revista. A
única coisa certa que se sabe desse "jogo do milhão"
é que ninguém pegou a bolada.
Outro fato nebuloso é a
participação da Receita Federal no escândalo.
Inicialmente, a Receita informou que não podia ter sido a
responsável por um eventual vazamento do recolhimento de
CPMF nas contas do caseiro, entre janeiro e março de 2006,
porque esse período ainda nem está em sua base de
dados. Explica-se: teriam sido informações sobre o
recolhimento de CPMF que permitiram aos violadores constatar que
o caseiro havia recebido depósitos altos em sua conta. Recomenda-se
agora que a Receita mude sua versão, assim como o ministro
da Justiça muda a sua a cada dia. Isso porque, embora a CEF
só tivesse obtido um extrato com a movimentação
recente do caseiro, Marcelo Netto, assessor do ex-ministro Palocci,
dizia aos quatro cantos que obtivera os dados de recolhimento de
CPMF nos três últimos meses de 2005 informações
que a Receita efetivamente tinha e que, tudo indica, foram repassadas
a Netto. Ou seja, a Receita realmente não vazou os dados
de 2006. Vazou os de 2005. A cada dia, o escândalo da violação
do sigilo de um simples caseiro vai tornando mais insustentável
o cargo dos inventores de versões. A participação
do ministro da Justiça na farsa só contribui para
acelerar a espiral de incerteza em que se afunda o governo Lula.
No momento, é impossível afirmar até onde vai
a cadeia de comando dessa sucessão de crimes.
Mas não é impossível
supor. Na semana passada, o nome de Gilberto Carvalho, chefe do
gabinete pessoal do presidente Lula, aparecia como um dos envolvidos
na operação. Não existem evidências concretas
disso. Apenas a recomendação que Carvalho recebeu
de Lula: "Fica longe da confusão senão sobra para
você". O exemplo de Watergate mostra que essas trapalhadas
começam com a simplicidade do furto e terminam com a força
das grandes reviravoltas da história.
Com reportagem de
Giuliano Guandalini,
Thaís Oyama e Victor Martino
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