Edição 1951 . 12 de abril de 2006

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Diogo Mainardi
Festa na Granja

"A festinha teve de ser suspensa porque
o presidente Lula recebeu a notícia de
que o guarda-costas de seu filho havia
sido baleado no ABC paulista, durante
uma tentativa de assalto"

Jeany Mary Corner mandou suas garotas de programa para uma festinha na Granja do Torto. Foi o que ela declarou, em diferentes ocasiões, a dois jornalistas. Os dois jornalistas estão dispostos a confirmar o depoimento da cafetina, a qualquer hora e em qualquer lugar.

O fato teria ocorrido, segundo Jeany Mary Corner, em 18 de junho de 2003. Tudo fora preparado para receber o presidente. Os guardas da Granja do Torto haviam sido alertados de que naquela noite, excepcionalmente, deveriam permitir a entrada na propriedade de uma van com vidros escuros. Dentro da van estariam as garotas de programa. Jeany Mary Corner não informou aos jornalistas quantas elas eram. Nem seus nomes de guerra. Nem, mais importante, quem iria pagar a conta. O que ela disse foi que, a certa altura, a festinha teve de ser suspensa porque o presidente Lula recebeu a notícia de que o guarda-costas de seu filho havia sido baleado no ABC paulista, durante uma tentativa de assalto.

Jeany Mary Corner contou essa mesma história a um terceiro jornalista. Como os outros dois, ele pode confirmá-la. Ele pode confirmar também o que aconteceu algum tempo depois. Os advogados de Jeany Mary Corner levaram o assunto a representantes do governo e exigiram o pagamento de uma soma em dinheiro para que ela, entre outras coisas, permanecesse calada a respeito da festinha na Granja do Torto. O achaque de Jeany Mary Corner deu certo: rendeu-lhe pelo menos 50.000 reais.

Pode ser que a cafetina tenha mentido aos jornalistas. Pode ser que ela tenha inventado o episódio da Granja do Torto apenas para exercer pressão sobre o governo. O fato é que, por um certo período, antes que seus advogados se acertassem com os emissários dos ministérios, ela repetiu o relato, exatamente com os mesmos detalhes, a uma série de testemunhas. Hoje em dia, Jeany Mary Corner se recusa a discutir a questão com estranhos. Ela nega que suas garotas de programa tenham participado de uma festinha na Granja do Torto. Ela nega que seus advogados tenham tratado do assunto com integrantes do governo. Ela nega que tenha falado sobre o episódio com jornalistas. Jeany Mary Corner já não abre mais o bico. Ela está, conforme suas palavras, "cansada disso tudo".

Os lobistas de Ribeirão Preto, reunidos em torno de Rogério Buratti, estavam entre os melhores clientes de Jeany Mary Corner. Como admitiu o próprio Buratti, eles ofereciam garotas de programa aos políticos. Não há nada de escandaloso em investigar se o episódio da Granja do Torto tem algo a ver com isso. Especialmente porque ocorreu, de acordo com a cafetina, apenas dois meses depois que Buratti intermediou os contatos entre o governo e a GTech, prometendo uma propina milionária ao PT.

Os brasileiros sempre respeitaram a vida pessoal dos políticos. Chegou a hora de mudar. Os políticos só nos aborrecem. Então vamos tentar tirar algum divertimento deles importunando-os até na cama.

 
 
 
 
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