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Entrevista: Michelle
Bachelet
País de baixo risco
A presidente do Chile diz que a
estabilidade econômica e política
está na base da prosperidade chilena

Diogo Schelp
Roberto Candia/AP
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"O crescimento também se deve aos
empresários que foram capazes de identificar oportunidades
para fazer negócios dentro e fora do país"
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Michelle Bachelet, de 54 anos,
assumiu no mês passado a Presidência de um país
de desempenho econômico excepcional o Chile cresce
6% ao ano há mais de uma década. Socialista, ela foi
eleita pela aliança de centro-esquerda que governa o país
desde o fim da ditadura, em 1990, e que se tornou fiadora da economia
aberta e estável que garante a prosperidade nacional. Bachelet
começou a pavimentar seu caminho para a Presidência
ao assumir o Ministério da Saúde e, em seguida, o
da Defesa no governo de seu antecessor, Ricardo Lagos, que deixou
o cargo com 70% de aprovação popular. A presidente
é filha de um general da Força Aérea chilena
que morreu na cadeia depois do golpe militar que depôs o presidente
socialista Salvador Allende, em 1973. Ela própria foi presa
e acabou exilada, com sua mãe. Médica, divorciada
duas vezes, com três filhos, Bachelet fala cinco línguas
e faz questão de apresentar sua eleição como
uma conquista das mulheres e uma prova da modernização
pela qual passa o Chile. Ela concedeu esta entrevista a VEJA em
seu gabinete no Palácio de La Moneda, em Santiago, na semana
passada, quando se preparava para uma visita ao Brasil, marcada
para esta semana.
Veja Como se
pode definir em poucas palavras o sucesso econômico do Chile?
Michelle Bachelet O Chile avançou muito graças
à grande disciplina fiscal, à estabilidade econômica
e política e à coesão social muito forte. O
crescimento também se deve aos empresários que foram
capazes de identificar oportunidades para fazer negócios
dentro e fora do país. O Chile, com toda essa estabilidade,
converteu-se em um país de baixo risco, o que atrai investimentos
importantes. A aposta no modelo exportador também deu bons
resultados. Investimos muito para que a população
tivesse melhor qualificação e, dessa forma, pudesse
se somar ao esforço de nos tornar um país exportador.
Temos uma classe trabalhadora comprometida e capaz. Nessa nova etapa,
vamos cuidar para que as coisas dêem certo também para
os médios e pequenos empresários. Embora o modelo
exportador inclua muitos médios empresários e alguns
pequenos, ainda precisa conseguir atrair mais gente.
Veja Apesar
de o Chile crescer muito rápido, uma parte da população
não consegue melhorar sua condição de vida
com a mesma rapidez. Como a senhora pretende levar os benefícios
do crescimento aos mais pobres?
Bachelet Antes de qualquer coisa, o país precisa
continuar crescendo. Em seguida, decidir como fazer para que os
benefícios do crescimento cheguem a todos. Reforçar
a educação, melhorar a qualificação
de nossas crianças, jovens e trabalhadores, de maneira que
sejam capazes de obter empregos de maior qualidade e melhores salários,
são políticas de médio e longo prazo. Também
é preciso aumentar a participação das mulheres
no mercado de trabalho. Há dois motivos para isso. Primeiro,
porque, quando elas são as chefes de família, garantir-lhes
um bom emprego é a melhor maneira de melhorar o nível
de vida de sua família. Segundo, quando a mulher não
é a chefe de família, ter duas pessoas trabalhando
numa casa é o modo mais fácil de alcançar uma
renda maior.
Veja A senhora
entregou metade de seu ministério a mulheres. Por quê?
Bachelet Um compromisso do meu governo é a
paridade entre homens e mulheres. A razão disso é
que a população do Chile é metade de mulheres
e metade de homens. Na verdade, há até um pouco mais
de mulheres. Há mulheres estupendas, muito talentosas, que
esperavam um sinal claro da presidente de que teriam espaço
e oportunidade. Não é só no meu gabinete. Isso
acontece em todo o meu governo. A paridade está nos chefes
de repartição, nos secretários regionais e
ministeriais. Trata-se de um passo importante na busca de um país
mais democrático, que integre realmente suas pessoas mais
valiosas, tanto homens como mulheres.
Veja O Chile
prepara um "Plano Brasil". De que se trata?
Bachelet Depois da minha posse, conversei com o presidente
Lula sobre uma aliança renovada entre os dois países.
Vou ao Brasil justamente para trabalhar com o presidente brasileiro
na busca do fortalecimento dessa aliança, que é antiga.
Podemos ampliar nossos acordos comerciais e incluir, por exemplo,
a área de serviços. Também queremos incentivar
o intercâmbio cultural e entre nossas Forças Armadas.
Enfim, em todas as áreas, porque o Chile e o Brasil têm
uma longa história de amizade. Por fim, queremos apoiar uma
característica do Brasil e do presidente Lula, que é
o espírito de integração.
Veja O governo
brasileiro adotou posição firme contra a Alca, a área
de livre-comércio proposta pelos Estados Unidos. Qual é
a posição de seu governo?
Bachelet Há muitas diferenças dentro
do continente americano, e elas se refletem na construção
de uma série de estruturas regionais, como o Mercosul. Cada
um desses países tem legislação, estruturas
tributárias e aduaneiras distintas. Eu estava presente quando
o presidente Lagos apresentou, na reunião de Mar del Plata,
sua tese de que poderíamos avançar, pelo menos, para
uma espécie de Alca básica. Os requisitos necessários
para isso já são cumpridos pela maioria dos países.
Depois, aos poucos, poderíamos ver como melhorar os níveis
de integração e dos acordos, sempre respeitando a
diversidade e as diferenças existentes entre os países.
Veja Na sua opinião,
os Estados Unidos são um perigo ou um parceiro?
Bachelet Nós, chilenos, temos uma boa relação
com os Estados Unidos. Conseguimos firmar com eles acordos comerciais
de muito bom nível. Nosso tratado de livre-comércio
vai muito bem. Por outro lado, compartilhamos valores comuns com
os americanos, como a democracia, o respeito aos direitos humanos
e a opção por um mundo aberto. Vamos manter essa relação
fluida com os Estados Unidos, sob a lógica de uma relação
de amizade naquilo que nos une e uma relação de independência
e autonomia em matéria de política exterior sempre
que o Chile considerar que tem uma posição diferente.
Veja O que é
ser socialista ou de esquerda hoje?
Bachelet É, como sempre, trabalhar todos os
dias para que cada um de nossos países seja mais justo, mais
humanitário, mais solidário e menos desigual. Os instrumentos,
as estratégias, os modelos específicos podem variar.
Mas o objetivo de fazer com que as pessoas possam viver melhor continua
sendo o fundamental.
Veja Como a
senhora vê as diferentes formas de esquerda atualmente disputando
o poder na América Latina?
Bachelet O que vejo são governos eleitos de
maneira legítima, que poderiam ser qualificados de progressistas
e têm em comum o objetivo de conseguir para seus povos melhores
condições de vida, mais justiça, mais segurança,
mais paz e mais igualdade. Obviamente cada país é
diferente e, por isso, as estratégias podem ser diferentes.
A diversidade não está apenas nas condições
de desenvolvimento social e econômico de cada país.
Está também nas leis e na estrutura social. O que
temos em comum é que queremos sociedades e nações
mais inclusivas e menos discriminatórias por gênero,
por etnia ou por situação socioeconômica.
Veja Que presidente
latino-americano, em sua opinião, se enquadra melhor nessa
definição?
Bachelet Não gosto de classificar. Temos governos
eleitos recentemente ou já eleitos há algum tempo
que compartilham os objetivos de que falei. Eu vou trabalhar com
todos, qualquer que seja o seu signo, de maneira positiva. Eu sou
presidente de todas e todos os chilenos. Também no interior
do meu governo vou trabalhar com todos. Por isso convidei especialistas
de todas as tendências para integrar as comissões de
trabalho que estou criando. Quando há projetos de lei, conversamos
tanto com os parlamentares que apóiam nossa coalizão
como com a oposição. Faço isso porque acredito
que todos querem um país muito melhor.
Veja Apesar
de esquerdistas, o candidato que ganhou as eleições
na Bolívia e o que pode ganhar no Peru adotam discursos nacionalistas
e antichilenos. Como enfrentar esse desafio?
Bachelet O presidente boliviano Evo Morales e eu temos
um desafio comum, que é o de oferecer uma vida melhor a nossos
povos. Estou convencida de que podemos construir uma agenda de futuro
em que ambos os países possam sair ganhando. Sempre digo
que o melhor que pode acontecer ao Chile é que seus vizinhos
estejam bem. Quero que esteja sempre tudo bem com o Peru, com a
Bolívia e com a Argentina.
Veja Uma prioridade
da política externa brasileira é conseguir uma vaga
permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Chile apóia
a candidatura brasileira?
Bachelet O Chile tem o compromisso adotado já
há vários anos, e que eu reitero, de considerar que
o Brasil deve ser membro permanente no Conselho de Segurança.
Há países de outros continentes que também
têm nosso apoio. Para nós, o Brasil é uma potência
econômica importante e um fator de estabilidade, de desenvolvimento
e de integração na região e, por isso, merece
estar permanentemente no Conselho de Segurança.
Veja Os defeitos
do ditador Augusto Pinochet, todos nós já conhecemos.
A senhora reconhece algo de bom no governo dele?
Bachelet Ele se encarregou de promover a modernização
no Estado, o que era necessário naquele momento. Algumas
das medidas que tomou ainda funcionam, mas trouxeram problemas por
terem sido impostas em lugar de serem o produto de um processo de
amadurecimento social. É preciso lembrar que certas medidas
eram idéias que vinham de antes, do presidente Salvador Allende,
que ele depôs no golpe militar. A idéia da regionalização
e a de conceder maior poder aos municípios, por exemplo.
Era, de fato, necessário reformar o sistema previdenciário,
como Pinochet fez. No entanto, a reforma não deu uma resposta
adequada ao novo tipo de mercado de trabalho. Tampouco funcionou
para as pessoas com menos recursos. Era preciso fazê-la, mas,
devido à maneira como foi realizada, temos hoje uma crise
no sistema de aposentadoria. Agora é preciso fazer uma nova
reforma.
Veja Quando
as reformas foram feitas por Pinochet, a senhora já as considerava
necessárias?
Bachelet Fui uma grande crítica da municipalização,
por exemplo. Hoje vejo que, como conceito, não era ruim.
Sim, reconheço que algumas mudanças eram necessárias.
Pinochet pôde fazer com facilidade porque tinha o poder absoluto.
Eu acredito que em uma democracia é preciso buscar mecanismos
para convencer os outros da necessidade de fazer algo. Os processos
políticos, para ser bem-sucedidos, têm de contar com
a vontade da cidadania, e por isso eu prefiro a democracia.
Veja A senhora
acredita que a transição para a democracia no Chile
está completa ou será preciso esperar a morte de Pinochet?
Bachelet Está completa, mas não é
perfeita. Temos tarefas pendentes. É preciso reformar o sistema
eleitoral, reconhecer a identidade dos povos indígenas, promover
uma descentralização administrativa mais profunda,
para citar só alguns dos problemas. Por isso digo que estamos
em uma democracia plena mas imperfeita.
Veja Sua mãe
e a senhora foram presas e seu pai morreu nas mãos da ditadura.
As feridas deixadas pela ditadura na senhora e no povo chileno já
estão curadas?
Bachelet As feridas não cicatrizam jamais.
Elas se reabrem muitas vezes em momentos difíceis da sociedade
e do país. É preciso aprender a viver com essas feridas,
como pessoa e como sociedade. O que se deve fazer, com muita força,
é tentar fechar bem a ferida. Desde que esteja limpa, porque,
como médica, sei que ferida suja não se cura. Como
se consegue isso? Com o que já se está fazendo: buscando
a verdade, a justiça e a reparação a todas
as vítimas da violência. Por outro lado, deve-se guardar
a memória histórica, porque na verdade o que queremos
é nunca, nunca mais ter de passar pelo que passamos. Para
conseguir isso precisamos não apenas ser capazes de desenvolver
a democracia do ponto de vista representativo, mas também
a cultura democrática. Isso significa aprender que se o outro
pensa de maneira diferente da sua não quer dizer que seja
uma pessoa ruim. Apenas que pensa diferente e que parte do que defende
talvez seja perfeitamente aceitável. Isso é o mais
difícil de conseguir.
Veja O que há
em comum e de diferente entre a doutora Bachelet que estudou na
Alemanha Oriental, comunista, e a presidente Bachelet?
Bachelet Quando estudei na República Democrática
Alemã tinha 23 anos, e agora tenho 54. Continuo sendo a mesma,
no sentido de que quero o mesmo, um país mais justo. Quero
um país em que as pessoas desejem fazer negócios e
que eu possa apoiá-las, que os empresários se dêem
bem e que os trabalhadores também tenham empregos dignos.
São os mesmos sonhos que eu tinha aos 23 anos. Eu diria que
sou mais velha, mais sábia e madura todos aprendemos
, mas com a mesma energia, força e compromisso para
buscar os ideais que tenho.
Veja A senhora
já estudou português. Por quê?
Bachelet Quando era adolescente, com 15 anos, estudei
português porque era fã de Roberto Carlos. Sabendo
disso, o presidente Lula me presenteou com Roberto Carlos pra
Sempre, uma coleção com quarenta CDs do cantor.
Passada a fase da adolescência, também gostei muito
de Maria Bethânia, João Gilberto, Caetano Veloso, Vinicius
de Moraes, Chico Buarque e Elis Regina. A música brasileira
me fascina. Em uma das ocasiões em que me encontrei com o
presidente Lula, ele se impressionou quando me pus a cantar o Hino
Brasileiro.
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