Edição 1951 . 12 de abril de 2006

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Entrevista: Michelle Bachelet
País de baixo risco

A presidente do Chile diz que a
estabilidade econômica e política
está na base da prosperidade chilena


Diogo Schelp

Roberto Candia/AP

"O crescimento também se deve aos empresários que foram capazes de identificar oportunidades para fazer negócios dentro e fora do país"

Michelle Bachelet, de 54 anos, assumiu no mês passado a Presidência de um país de desempenho econômico excepcional – o Chile cresce 6% ao ano há mais de uma década. Socialista, ela foi eleita pela aliança de centro-esquerda que governa o país desde o fim da ditadura, em 1990, e que se tornou fiadora da economia aberta e estável que garante a prosperidade nacional. Bachelet começou a pavimentar seu caminho para a Presidência ao assumir o Ministério da Saúde e, em seguida, o da Defesa no governo de seu antecessor, Ricardo Lagos, que deixou o cargo com 70% de aprovação popular. A presidente é filha de um general da Força Aérea chilena que morreu na cadeia depois do golpe militar que depôs o presidente socialista Salvador Allende, em 1973. Ela própria foi presa e acabou exilada, com sua mãe. Médica, divorciada duas vezes, com três filhos, Bachelet fala cinco línguas e faz questão de apresentar sua eleição como uma conquista das mulheres e uma prova da modernização pela qual passa o Chile. Ela concedeu esta entrevista a VEJA em seu gabinete no Palácio de La Moneda, em Santiago, na semana passada, quando se preparava para uma visita ao Brasil, marcada para esta semana.

Veja – Como se pode definir em poucas palavras o sucesso econômico do Chile?
Michelle Bachelet – O Chile avançou muito graças à grande disciplina fiscal, à estabilidade econômica e política e à coesão social muito forte. O crescimento também se deve aos empresários que foram capazes de identificar oportunidades para fazer negócios dentro e fora do país. O Chile, com toda essa estabilidade, converteu-se em um país de baixo risco, o que atrai investimentos importantes. A aposta no modelo exportador também deu bons resultados. Investimos muito para que a população tivesse melhor qualificação e, dessa forma, pudesse se somar ao esforço de nos tornar um país exportador. Temos uma classe trabalhadora comprometida e capaz. Nessa nova etapa, vamos cuidar para que as coisas dêem certo também para os médios e pequenos empresários. Embora o modelo exportador inclua muitos médios empresários e alguns pequenos, ainda precisa conseguir atrair mais gente.

Veja – Apesar de o Chile crescer muito rápido, uma parte da população não consegue melhorar sua condição de vida com a mesma rapidez. Como a senhora pretende levar os benefícios do crescimento aos mais pobres?
Bachelet – Antes de qualquer coisa, o país precisa continuar crescendo. Em seguida, decidir como fazer para que os benefícios do crescimento cheguem a todos. Reforçar a educação, melhorar a qualificação de nossas crianças, jovens e trabalhadores, de maneira que sejam capazes de obter empregos de maior qualidade e melhores salários, são políticas de médio e longo prazo. Também é preciso aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho. Há dois motivos para isso. Primeiro, porque, quando elas são as chefes de família, garantir-lhes um bom emprego é a melhor maneira de melhorar o nível de vida de sua família. Segundo, quando a mulher não é a chefe de família, ter duas pessoas trabalhando numa casa é o modo mais fácil de alcançar uma renda maior.

Veja – A senhora entregou metade de seu ministério a mulheres. Por quê?
Bachelet – Um compromisso do meu governo é a paridade entre homens e mulheres. A razão disso é que a população do Chile é metade de mulheres e metade de homens. Na verdade, há até um pouco mais de mulheres. Há mulheres estupendas, muito talentosas, que esperavam um sinal claro da presidente de que teriam espaço e oportunidade. Não é só no meu gabinete. Isso acontece em todo o meu governo. A paridade está nos chefes de repartição, nos secretários regionais e ministeriais. Trata-se de um passo importante na busca de um país mais democrático, que integre realmente suas pessoas mais valiosas, tanto homens como mulheres.

Veja – O Chile prepara um "Plano Brasil". De que se trata?
Bachelet – Depois da minha posse, conversei com o presidente Lula sobre uma aliança renovada entre os dois países. Vou ao Brasil justamente para trabalhar com o presidente brasileiro na busca do fortalecimento dessa aliança, que é antiga. Podemos ampliar nossos acordos comerciais e incluir, por exemplo, a área de serviços. Também queremos incentivar o intercâmbio cultural e entre nossas Forças Armadas. Enfim, em todas as áreas, porque o Chile e o Brasil têm uma longa história de amizade. Por fim, queremos apoiar uma característica do Brasil e do presidente Lula, que é o espírito de integração.

Veja – O governo brasileiro adotou posição firme contra a Alca, a área de livre-comércio proposta pelos Estados Unidos. Qual é a posição de seu governo?
Bachelet – Há muitas diferenças dentro do continente americano, e elas se refletem na construção de uma série de estruturas regionais, como o Mercosul. Cada um desses países tem legislação, estruturas tributárias e aduaneiras distintas. Eu estava presente quando o presidente Lagos apresentou, na reunião de Mar del Plata, sua tese de que poderíamos avançar, pelo menos, para uma espécie de Alca básica. Os requisitos necessários para isso já são cumpridos pela maioria dos países. Depois, aos poucos, poderíamos ver como melhorar os níveis de integração e dos acordos, sempre respeitando a diversidade e as diferenças existentes entre os países.

Veja – Na sua opinião, os Estados Unidos são um perigo ou um parceiro?
Bachelet – Nós, chilenos, temos uma boa relação com os Estados Unidos. Conseguimos firmar com eles acordos comerciais de muito bom nível. Nosso tratado de livre-comércio vai muito bem. Por outro lado, compartilhamos valores comuns com os americanos, como a democracia, o respeito aos direitos humanos e a opção por um mundo aberto. Vamos manter essa relação fluida com os Estados Unidos, sob a lógica de uma relação de amizade naquilo que nos une e uma relação de independência e autonomia em matéria de política exterior sempre que o Chile considerar que tem uma posição diferente.

Veja – O que é ser socialista ou de esquerda hoje?
Bachelet – É, como sempre, trabalhar todos os dias para que cada um de nossos países seja mais justo, mais humanitário, mais solidário e menos desigual. Os instrumentos, as estratégias, os modelos específicos podem variar. Mas o objetivo de fazer com que as pessoas possam viver melhor continua sendo o fundamental.

Veja – Como a senhora vê as diferentes formas de esquerda atualmente disputando o poder na América Latina?
Bachelet – O que vejo são governos eleitos de maneira legítima, que poderiam ser qualificados de progressistas e têm em comum o objetivo de conseguir para seus povos melhores condições de vida, mais justiça, mais segurança, mais paz e mais igualdade. Obviamente cada país é diferente e, por isso, as estratégias podem ser diferentes. A diversidade não está apenas nas condições de desenvolvimento social e econômico de cada país. Está também nas leis e na estrutura social. O que temos em comum é que queremos sociedades e nações mais inclusivas e menos discriminatórias por gênero, por etnia ou por situação socioeconômica.

Veja – Que presidente latino-americano, em sua opinião, se enquadra melhor nessa definição?
Bachelet – Não gosto de classificar. Temos governos eleitos recentemente ou já eleitos há algum tempo que compartilham os objetivos de que falei. Eu vou trabalhar com todos, qualquer que seja o seu signo, de maneira positiva. Eu sou presidente de todas e todos os chilenos. Também no interior do meu governo vou trabalhar com todos. Por isso convidei especialistas de todas as tendências para integrar as comissões de trabalho que estou criando. Quando há projetos de lei, conversamos tanto com os parlamentares que apóiam nossa coalizão como com a oposição. Faço isso porque acredito que todos querem um país muito melhor.

Veja – Apesar de esquerdistas, o candidato que ganhou as eleições na Bolívia e o que pode ganhar no Peru adotam discursos nacionalistas e antichilenos. Como enfrentar esse desafio?
Bachelet – O presidente boliviano Evo Morales e eu temos um desafio comum, que é o de oferecer uma vida melhor a nossos povos. Estou convencida de que podemos construir uma agenda de futuro em que ambos os países possam sair ganhando. Sempre digo que o melhor que pode acontecer ao Chile é que seus vizinhos estejam bem. Quero que esteja sempre tudo bem com o Peru, com a Bolívia e com a Argentina.

Veja – Uma prioridade da política externa brasileira é conseguir uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Chile apóia a candidatura brasileira?
Bachelet – O Chile tem o compromisso adotado já há vários anos, e que eu reitero, de considerar que o Brasil deve ser membro permanente no Conselho de Segurança. Há países de outros continentes que também têm nosso apoio. Para nós, o Brasil é uma potência econômica importante e um fator de estabilidade, de desenvolvimento e de integração na região e, por isso, merece estar permanentemente no Conselho de Segurança.

Veja – Os defeitos do ditador Augusto Pinochet, todos nós já conhecemos. A senhora reconhece algo de bom no governo dele?
Bachelet – Ele se encarregou de promover a modernização no Estado, o que era necessário naquele momento. Algumas das medidas que tomou ainda funcionam, mas trouxeram problemas por terem sido impostas em lugar de serem o produto de um processo de amadurecimento social. É preciso lembrar que certas medidas eram idéias que vinham de antes, do presidente Salvador Allende, que ele depôs no golpe militar. A idéia da regionalização e a de conceder maior poder aos municípios, por exemplo. Era, de fato, necessário reformar o sistema previdenciário, como Pinochet fez. No entanto, a reforma não deu uma resposta adequada ao novo tipo de mercado de trabalho. Tampouco funcionou para as pessoas com menos recursos. Era preciso fazê-la, mas, devido à maneira como foi realizada, temos hoje uma crise no sistema de aposentadoria. Agora é preciso fazer uma nova reforma.

Veja – Quando as reformas foram feitas por Pinochet, a senhora já as considerava necessárias?
Bachelet – Fui uma grande crítica da municipalização, por exemplo. Hoje vejo que, como conceito, não era ruim. Sim, reconheço que algumas mudanças eram necessárias. Pinochet pôde fazer com facilidade porque tinha o poder absoluto. Eu acredito que em uma democracia é preciso buscar mecanismos para convencer os outros da necessidade de fazer algo. Os processos políticos, para ser bem-sucedidos, têm de contar com a vontade da cidadania, e por isso eu prefiro a democracia.

Veja – A senhora acredita que a transição para a democracia no Chile está completa ou será preciso esperar a morte de Pinochet?
Bachelet – Está completa, mas não é perfeita. Temos tarefas pendentes. É preciso reformar o sistema eleitoral, reconhecer a identidade dos povos indígenas, promover uma descentralização administrativa mais profunda, para citar só alguns dos problemas. Por isso digo que estamos em uma democracia plena mas imperfeita.

Veja – Sua mãe e a senhora foram presas e seu pai morreu nas mãos da ditadura. As feridas deixadas pela ditadura na senhora e no povo chileno já estão curadas?
Bachelet – As feridas não cicatrizam jamais. Elas se reabrem muitas vezes em momentos difíceis da sociedade e do país. É preciso aprender a viver com essas feridas, como pessoa e como sociedade. O que se deve fazer, com muita força, é tentar fechar bem a ferida. Desde que esteja limpa, porque, como médica, sei que ferida suja não se cura. Como se consegue isso? Com o que já se está fazendo: buscando a verdade, a justiça e a reparação a todas as vítimas da violência. Por outro lado, deve-se guardar a memória histórica, porque na verdade o que queremos é nunca, nunca mais ter de passar pelo que passamos. Para conseguir isso precisamos não apenas ser capazes de desenvolver a democracia do ponto de vista representativo, mas também a cultura democrática. Isso significa aprender que se o outro pensa de maneira diferente da sua não quer dizer que seja uma pessoa ruim. Apenas que pensa diferente e que parte do que defende talvez seja perfeitamente aceitável. Isso é o mais difícil de conseguir.

Veja – O que há em comum e de diferente entre a doutora Bachelet que estudou na Alemanha Oriental, comunista, e a presidente Bachelet?
Bachelet – Quando estudei na República Democrática Alemã tinha 23 anos, e agora tenho 54. Continuo sendo a mesma, no sentido de que quero o mesmo, um país mais justo. Quero um país em que as pessoas desejem fazer negócios e que eu possa apoiá-las, que os empresários se dêem bem e que os trabalhadores também tenham empregos dignos. São os mesmos sonhos que eu tinha aos 23 anos. Eu diria que sou mais velha, mais sábia e madura – todos aprendemos –, mas com a mesma energia, força e compromisso para buscar os ideais que tenho.

Veja – A senhora já estudou português. Por quê?
Bachelet – Quando era adolescente, com 15 anos, estudei português porque era fã de Roberto Carlos. Sabendo disso, o presidente Lula me presenteou com Roberto Carlos pra Sempre, uma coleção com quarenta CDs do cantor. Passada a fase da adolescência, também gostei muito de Maria Bethânia, João Gilberto, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Elis Regina. A música brasileira me fascina. Em uma das ocasiões em que me encontrei com o presidente Lula, ele se impressionou quando me pus a cantar o Hino Brasileiro.

 
 
 
 
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