Edição 1 644 -12/4/2000

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FILME

Chá com Mussolini (Tè con Mussolini, Itália/Inglaterra, 1999. Estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro) — Famoso por sua adaptação açucarada de Romeu e Julieta, o diretor Franco Zeffirelli decidiu agora revisitar episódios de sua própria vida. Na magnífica Florença dos anos 30, um grupo de senhoras inglesas passa o tempo apreciando as glórias da arte italiana e implicando com Elsa, uma americana rica e extravagante (apropriadamente vivida por Cher). Mal percebem que a ascensão do ditador Benito Mussolini vai pôr fim às boas graças em que vivem na Itália. Quem narra a história é um garoto adotado pelo grupo após perder a mãe e ser rejeitado pelo pai. Tal personagem, teoricamente, seria o próprio Zeffirelli. As paisagens são belíssimas e o elenco compensa: além de Cher, estão no filme as ótimas Judi Dench, Maggie Smith e Joan Plowright.

 

LIVROS

Frugal Gourmet para Toda a Família, de Jeff Smith (tradução de Sônia Maria Aizen e Naumim Aizen; Ediouro; 384 páginas; 53 reais) — À frente de um programa na TV americana há quase trinta anos, Jeff Smith sempre tratou a culinária de maneira descontraída. Cozinhar, para ele, mais que uma "arte", é uma maneira de reunir gente. Entre os seus diversos livros, este é o que mais insiste nessa idéia. Nele, receitas bem diversas, do hambúrguer aos mexilhões com cebolas carameladas, se alternam com pensamentos sobre a família e seus hábitos à mesa. Sem abrir mão da qualidade alimentar, Smith aceita até mesmo o uso do microondas (o que seria sacrilégio para chefs "sofisticados"), desde que seja para manter as pessoas em casa e não no fast food da esquina. Ele dedica um capítulo aos solitários, dando conselhos sobre como "evitar os enlatados". Outra característica simpática e original de seu livro é a preocupação com as crianças. O autor propõe artimanhas para atraí-las para a cozinha e ensiná-las a degustar pratos mais refinados — o que nos Estados Unidos gerou comentários maldosos, já que recentemente Smith foi acusado de pedofilia.

 


Almodóvar: um livro tão divertido quanto os seus filmes

Fogo nas Entranhas, de Pedro Almodóvar (tradução de Eric Nepomuceno; Dantes Editora; 124 páginas; 18 reais) — O badalado cineasta espanhol, que acaba de receber um Oscar, mostra com este romance de 1981 que pode ser tão divertido com as palavras quanto com as imagens. A trama é impagável: abandonado pelas cinco amantes (a cínica, a hippie, a espiã, a indomável e a ex-freira), o chinês Chu Ming Ho, magnata da indústria de absorventes, trama uma vingança diabólica contra todas as mulheres. Pouco antes de morrer, ele — que mantém um misterioso diário "íntimo-científico" — inventa uma nova espécie de absorvente, que manda distribuir de graça numa campanha promocional. Aquelas que o usam têm o ímpeto sexual multiplicado. Com isso, a anarquia se instala em Madri. Misturando truques de pulp fiction com o humor contundente e exagerado que o consagrou, Almodóvar cria uma narrativa que nada fica devendo às suas melhores comédias filmadas, como Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos e De Salto Alto.

 

Don Hunstein/Sony Classic

Gould: biografia sem "musiquês"


Glenn Gould – Uma Vida e Variações,
de Otto Friedrich (tradução de Ana Lagôa e Helena Londres; Record; 445 páginas; 45 reais) — O pianista canadense Glenn Gould morreu em 1982 aos 50 anos e virou objeto de culto. Seus discos e vídeos são relançados em profusão inédita para um concertista clássico. Seus fãs-clubes proliferam na internet. Isso vem ocorrendo não apenas porque Gould foi realmente um dos maiores músicos do século XX. Ele era também excêntrico como um ídolo pop. Tinha fobia do palco, não gostava de sexo, evitava o contato humano e usava luvas, boné e cachecol mesmo sob 40 graus Celsius. Escrita pelo jornalista Otto Friedrich, esta é a melhor biografia de Glenn Gould. O texto é fluente — evita o "musiquês" — e capricha no anedotário. Mas vai além disso. Desvenda a mente do pianista sem recorrer a clichês sobre genialidade.

 

DISCOS

Two against Nature, Steely Dan (BMG Brasil) — Afastada dos estúdios há vinte anos, a dupla americana Steely Dan surpreende neste novo disco. É que, em se tratando de retornos tardios à cena, artistas veteranos muitas vezes enveredam por um saudosismo sufocante. Ou, pior de tudo, tratam de adaptar sua sonoridade ao padrão moderninho da hora, fazendo papel ridículo. Incrivelmente, nada disso acontece aqui. O tecladista Donald Fagen e o baixista Walter Becker preferem manter-se fiéis à bem dosada mistura de jazz, rock e soul que lhes deu fama na década de 70. Acompanhados por músicos de primeira linha, eles apresentam nove faixas de um pop refinado que passa bem longe de sintetizadores, samplers e vocais entupidos de efeitos. Para quem curte um som mais elaborado.

 

Head Music, Suede (Sony Music) — As guitarras repletas de riffs melódicos e o visual para lá de andrógino não deixam dúvidas: esta é uma banda que bebe do cultuado glam rock dos anos 70. De fato, o Suede lembra muito o David Bowie daqueles loucos tempos de batom e pancake, mas sabe incorporar essa influência sem perder nadinha no quesito originalidade. Neste saboroso Head Music, o grupo mostra por que, ao lado do Oasis e do Blur, é considerado uma reserva moral do brit pop em sua safra anos 90. Não ligue para quem continua dizendo que, depois da saída do guitarrista Bernard Butler, hoje em carreira-solo, o Suede já não é mais aquele. O novo disco desmente a maldade, pois tem arranjos mais enxutos, diretos e sem afetações. A garra do vocalista Brett Anderson, por sua vez, é a mesmíssima de sempre, assim como os gritinhos que fazem a delícia dos fãs. Repare em faixas nota 10, como She's in Fashion e Savoir Faire, além da inspirada balada Down. É difícil ouvi-las sem querer aumentar o volume do CD-player.

 

VÍDEO

Divulgação
Tucci (à esq.), na comédia
Os Impostores: humor de cinema mudo


Os Impostores
(The Impostors, Estados Unidos, 1998. Fox Vídeo) — O americano Stanley Tucci era conhecido como aquele tipo de ator que dá um sabor extra a qualquer papel secundário. Recentemente, revelou uma nova faceta: é um diretor inspirado e cheio de amigos, todos eles bons atores dispostos a dar o sangue nas pequenas produções comandadas por Tucci. Sua primeira empreitada foi o sucesso alternativo A Grande Noite, que tratava das dores de cabeça de dois irmãos, Primo e Secondo, para manter aberta sua cantina nos Estados Unidos. No divertido Os mpostores ele se supera. Em clima de comédia do cinema mudo, Tucci e Oliver Platt vivem dois atores desempregados que, sem querer, viram clandestinos num luxuoso transatlântico. Naturalmente, metem-se em mil confusões a bordo. Atenção à "ponta" de Woody Allen como um diretor teatral frustrado.

 
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