FILME
Chá com Mussolini
(Tè con Mussolini, Itália/Inglaterra,
1999. Estréia nesta sexta-feira em São Paulo
e no Rio de Janeiro) Famoso por sua adaptação
açucarada de Romeu e Julieta, o diretor Franco
Zeffirelli decidiu agora revisitar episódios de sua
própria vida. Na magnífica Florença dos
anos 30, um grupo de senhoras inglesas passa o tempo apreciando
as glórias da arte italiana e implicando com Elsa,
uma americana rica e extravagante (apropriadamente vivida
por Cher). Mal percebem que a ascensão do ditador Benito
Mussolini vai pôr fim às boas graças em
que vivem na Itália. Quem narra a história é
um garoto adotado pelo grupo após perder a mãe
e ser rejeitado pelo pai. Tal personagem, teoricamente, seria
o próprio Zeffirelli. As paisagens são belíssimas
e o elenco compensa: além de Cher, estão no
filme as ótimas Judi Dench, Maggie Smith e Joan Plowright.
LIVROS
Frugal
Gourmet para Toda a Família, de Jeff Smith
(tradução de Sônia Maria Aizen e Naumim
Aizen; Ediouro; 384 páginas; 53 reais) À
frente de um programa na TV americana há quase trinta
anos, Jeff Smith sempre tratou a culinária de maneira
descontraída. Cozinhar, para ele, mais que uma "arte",
é uma maneira de reunir gente. Entre os seus diversos
livros, este é o que mais insiste nessa idéia.
Nele, receitas bem diversas, do hambúrguer aos mexilhões
com cebolas carameladas, se alternam com pensamentos sobre
a família e seus hábitos à mesa. Sem
abrir mão da qualidade alimentar, Smith aceita até
mesmo o uso do microondas (o que seria sacrilégio para
chefs "sofisticados"), desde que seja para manter as pessoas
em casa e não no fast food da esquina. Ele dedica um
capítulo aos solitários, dando conselhos sobre
como "evitar os enlatados". Outra característica simpática
e original de seu livro é a preocupação
com as crianças. O autor propõe artimanhas para
atraí-las para a cozinha e ensiná-las a degustar
pratos mais refinados o que nos Estados Unidos gerou
comentários maldosos, já que recentemente Smith
foi acusado de pedofilia.

Almodóvar: um livro tão
divertido quanto os seus filmes |
Fogo nas Entranhas,
de Pedro Almodóvar (tradução de Eric
Nepomuceno; Dantes Editora; 124 páginas; 18 reais)
O badalado cineasta espanhol, que acaba de receber
um Oscar, mostra com este romance de 1981 que pode ser tão
divertido com as palavras quanto com as imagens. A trama é
impagável: abandonado pelas cinco amantes (a cínica,
a hippie, a espiã, a indomável e a ex-freira),
o chinês Chu Ming Ho, magnata da indústria de
absorventes, trama uma vingança diabólica contra
todas as mulheres. Pouco antes de morrer, ele que mantém
um misterioso diário "íntimo-científico"
inventa uma nova espécie de absorvente, que
manda distribuir de graça numa campanha promocional.
Aquelas que o usam têm o ímpeto sexual multiplicado.
Com isso, a anarquia se instala em Madri. Misturando truques
de pulp fiction com o humor contundente e exagerado que o
consagrou, Almodóvar cria uma narrativa que nada fica
devendo às suas melhores comédias filmadas,
como Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos e
De Salto Alto.
Don
Hunstein/Sony Classic  |

Gould: biografia sem "musiquês"
|
Glenn Gould Uma Vida e Variações,
de Otto Friedrich (tradução de Ana Lagôa
e Helena Londres; Record; 445 páginas; 45 reais)
O pianista canadense Glenn Gould morreu em 1982 aos 50 anos
e virou objeto de culto. Seus discos e vídeos são
relançados em profusão inédita para um
concertista clássico. Seus fãs-clubes proliferam
na internet. Isso vem ocorrendo não apenas porque Gould
foi realmente um dos maiores músicos do século
XX. Ele era também excêntrico como um ídolo
pop. Tinha fobia do palco, não gostava de sexo, evitava
o contato humano e usava luvas, boné e cachecol mesmo
sob 40 graus Celsius. Escrita pelo jornalista Otto Friedrich,
esta é a melhor biografia de Glenn Gould. O texto é
fluente evita o "musiquês" e capricha
no anedotário. Mas vai além disso. Desvenda
a mente do pianista sem recorrer a clichês sobre genialidade.
DISCOS
Two
against Nature, Steely Dan (BMG Brasil) Afastada
dos estúdios há vinte anos, a dupla americana
Steely Dan surpreende neste novo disco. É que, em se
tratando de retornos tardios à cena, artistas veteranos
muitas vezes enveredam por um saudosismo sufocante. Ou, pior
de tudo, tratam de adaptar sua sonoridade ao padrão
moderninho da hora, fazendo papel ridículo. Incrivelmente,
nada disso acontece aqui. O tecladista Donald Fagen e o baixista
Walter Becker preferem manter-se fiéis à bem
dosada mistura de jazz, rock e soul que lhes deu fama na década
de 70. Acompanhados por músicos de primeira linha,
eles apresentam nove faixas de um pop refinado que passa bem
longe de sintetizadores, samplers e vocais entupidos de efeitos.
Para quem curte um som mais elaborado.
Head
Music, Suede (Sony Music) As guitarras repletas
de riffs melódicos e o visual para lá de andrógino
não deixam dúvidas: esta é uma banda
que bebe do cultuado glam rock dos anos 70. De fato, o Suede
lembra muito o David Bowie daqueles loucos tempos de batom
e pancake, mas sabe incorporar essa influência sem perder
nadinha no quesito originalidade. Neste saboroso Head Music,
o grupo mostra por que, ao lado do Oasis e do Blur, é
considerado uma reserva moral do brit pop em sua safra anos
90. Não ligue para quem continua dizendo que, depois
da saída do guitarrista Bernard Butler, hoje em carreira-solo,
o Suede já não é mais aquele. O novo
disco desmente a maldade, pois tem arranjos mais enxutos,
diretos e sem afetações. A garra do vocalista
Brett Anderson, por sua vez, é a mesmíssima
de sempre, assim como os gritinhos que fazem a delícia
dos fãs. Repare em faixas nota 10, como She's in
Fashion e Savoir Faire, além da inspirada
balada Down. É difícil ouvi-las sem querer
aumentar o volume do CD-player.
VÍDEO
Divulgação
 |
Tucci (à esq.),
na comédia
Os Impostores: humor de cinema mudo |
Os Impostores (The Impostors, Estados Unidos,
1998. Fox Vídeo) O americano Stanley Tucci era
conhecido como aquele tipo de ator que dá um sabor
extra a qualquer papel secundário. Recentemente, revelou
uma nova faceta: é um diretor inspirado e cheio de
amigos, todos eles bons atores dispostos a dar o sangue nas
pequenas produções comandadas por Tucci. Sua
primeira empreitada foi o sucesso alternativo A Grande
Noite, que tratava das dores de cabeça de dois
irmãos, Primo e Secondo, para manter aberta sua cantina
nos Estados Unidos. No divertido Os mpostores ele se
supera. Em clima de comédia do cinema mudo, Tucci e
Oliver Platt vivem dois atores desempregados que, sem querer,
viram clandestinos num luxuoso transatlântico. Naturalmente,
metem-se em mil confusões a bordo. Atenção
à "ponta" de Woody Allen como um diretor teatral frustrado.