Ponto de observação
"Vamos virar nossos mapas para
cima, para o
Cruzeiro do Sul. Vamos criar nossos referenciais,
nosso jeito de ver o mundo. Essa é a única
forma
de criar uma nação"
Poderá parecer curioso o que vou escrever às
vésperas dos 500 anos do Descobrimento: nós
ainda não descobrimos o Brasil! Os portugueses talvez,
mas nós ainda não. Sílvio Romero, já
em 1880, identificava como o grande problema brasileiro
a "imitação do estrangeiro na vida intelectual".
Manoel Bomfim, anos depois, apontava nossa "falta de observação".
Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala nos
definia pela "aptidão para imitar". Sérgio
Buarque de Holanda em Raízes do Brasil sentenciava
que somos "desterrados em nossa terra" por trazermos de
outros países nossas formas de vida.
Copiamos coisas prontas, traduzimos tudo, preferimos citar
a pensar, ridicularizamos inclusive os observadores genuinamente
brasileiros. Preferimos acreditar em Marx, Gramsci, Anthony
Giddens, Keynes ou em idéias como "Inflation Targeting".
Inteligentes no Brasil são os eruditos da cultura
alheia. Vejam, por exemplo, o mapa do Brasil. Nenhum observador
genuinamente brasileiro teria feito nosso mapa como todo
leitor está acostumado a ver. Os mapas de antigamente
apontavam para o Oriente, onde nasce o Sol. As caravanas
acordavam, apontavam o mapa na direção do
Sol, e traçava-se o caminho. Expressões como
"orientar-se", "desorientado" vieram dessa época.
Quando os portugueses começaram a navegar de noite,
perceberam rapidamente que o Sol não era um ponto
de orientação útil, e os mapas começaram
a usar a estrela Polar do Norte como ponto de referência.
Os mapas europeus são inúteis no Hemisfério
Sul, pois não é possível localizar
daqui a estrela Polar. Nosso ponto de referência é
o Cruzeiro do Sul. A partir dessa premissa, elaborei um
mapa segundo nossa epistemologia. Ele aparece no miolo deste
artigo e está disponível em tamanho maior
no meu site. Não é um mapa simplesmente diferente,
é um mapa coerente com a realidade brasileira. Parece
estar de cabeça para baixo, mas na realidade são
os mapas atuais que estão de ponta-cabeça.
Se o leitor ainda está achando o mapa estranho, é
porque está usando padrões cartográficos
europeus para enxergar o próprio país.
O que pode parecer um detalhe cartográfico é,
na realidade, o começo do enorme erro destes 500
anos. Ainda não criamos nossos próprios pontos
de referência, nossas balizas, nossos pontos de apoio.
Por isso, não temos ainda o conceito de nação,
de cidadania, justamente pelo fato de ainda não observarmos
o Brasil com nossos próprios olhos.
Nossa auto-estima é baixa, somos inseguros, sentimo-nos
confusos, perdidos no mundo globalizado. Estamos literalmente
"desnorteados". Colocar o Brasil no centro do mapa tampouco
é um ato de ufanismo da minha parte ou uma crença
de que o Brasil está no centro do universo. Qualquer
indivíduo que olhe 360 graus em sua volta fatalmente
construirá um mapa com sua cidade, ou ponto de observação,
no centro, algo que nunca fizemos.
O conhecimento humano nada mais é do que mapas
simplificados que criamos para auxiliar nosso caminho. O
sucesso recai justamente naqueles que fazem os melhores
mapas. Damos pouco valor aos pesquisadores brasileiros,
temos frases do tipo "santo de casa não faz milagres",
"ninguém é profeta em sua terra".
Vamos começar uma vida nova, de início virando
esses nossos mapas para cima, para o Cruzeiro do Sul. Vamos
criar nossos referenciais, nossos pontos de apoio, nossas
formas de ver o mundo. Essa é a única forma
de criar uma nação. Vamos finalmente descobrir
o Brasil, mas desta vez com nossos próprios olhos.
Stephen Kanitz é
administrador (www.kanitz.com.br)