O professor, a cidade
e a civilidade
Ironia
e paradoxo: as idéias certas para a eleição
municipal estão na agenda do candidato errado
Tudo é possível
neste mundo, mas se em alguma parte houvesse um campeonato
de improbabilidades, vale dizer, um concurso sobre os eventos
mais cotados para não acontecer, uma aposta
segura seria a de que o professor Roberto Mangabeira Unger
não será o prefeito de São Paulo. Dito
isto, registre-se que ele é o candidato, ou candidato
a candidato, com as propostas mais pertinentes. Unger tem
um plano radical para tirar os automóveis das ruas.
Um cinturão seria traçado em torno do centro
expandido da cidade. Para circular na área assim circunscrita,
haveria duas opções. Ou bem se pagaria, caso
se quisesse entrar com o carro particular, ou se recorreria
a uma renovada rede de transporte público, composta
de metrô de superfície, ônibus e microônibus.
As propostas de Unger valem não apenas para São
Paulo, mas para as grandes cidades brasileiras em geral, e
mesmo as médias. Conhecê-las pode interessar
mesmo a quem não mora na capital paulista.
Quem é o professor
Unger?, estará se perguntando o leitor a esta altura.
Filho de mãe brasileira e pai americano, trata-se do
espécime com quem menos se espera deparar numa eleição
municipal. Unger é um intelectual, sobretudo. Aos 22
anos já era professor da Universidade Harvard, onde
fez brilhante carreira. Paralelamente à vida acadêmica,
sempre nos Estados Unidos, onde morou a maior parte da vida,
foi dando suas estocadas na política brasileira. A
primeira foi quando, na década de 70, publicou, em
parceria com outro jovem professor, o economista Edmar Bacha,
uma proposta para a abertura do regime, então sob a
tutela militar. Mais tarde tentou uma parceria com Leonel
Brizola e, na última eleição presidencial,
com Ciro Gomes. Nada que desse muito certo. Desta vez é
candidato a candidato, em São Paulo, pelo partido de
Ciro, o PPS. Não deve dar certo, de novo, mesmo que
venha a ser realmente candidato. Nem por isso suas idéias
valem menos.
Eis outra, das expostas
num artigo de jornal (Folha de S. Paulo, 16/3/2000):
devolver um centro, ou centros, para São Paulo. "Um
dos problemas básicos de São Paulo é
ter afundado num pluricentrismo bastardo", escreveu. O centro
histórico deteriorou-se. Os novos são "pouco
mais que avenidas comerciais". Sumiram os lugares de convivência,
substituídos por esse arremedo de espaço público
que são os shopping centers. O professor propõe
uma política de instauração de "centros
verdadeiros", com a instalação de parques e
praças, a ampliação de pontos de encontro
e de embarque, a multiplicação de festas, feiras
e casas de espetáculo. Outra idéia ainda é
mobilizar a comunidade para participar de uma política
de segurança. Desarmadas, mas organizadas, e dotadas
de equipamento de comunicação, as pessoas atuariam
na prevenção ao crime, em contato permanente
com a polícia.
Não é apenas
a eleição de Unger que é improvável.
Ele é, em si, o mais improvável dos candidatos.
Para começar, fala com sotaque americano. Adivinha-se
o espanto do povinho da periferia ao dar com tal tipo pedindo-lhe
o voto. Mesmo que tivesse alguma chance, é duvidoso
que se devesse votar nele. Boas idéias são uma
coisa, viabilizá-las é outra. Viabilizá-las
depende de liderança, diálogo com a sociedade,
ampla circulação em diferentes setores e capacidade
de articulá-los para a fabricação de
consensos, qualidades do bom político que o professor
Unger, neófito que é na área, em princípio
não tem. Presta ele um serviço, no entanto,
com suas propostas para começar, porque põe
a eleição municipal nos devidos termos. Pode-se
ter por certo que na campanha que vem aí se falará
de tudo, menos do que se deve. De desemprego, por exemplo,
se falará muito. Ora, não há o que um
prefeito possa fazer contra o desemprego a não ser
empregar gente na prefeitura, o que não significa senão
dar alento ao empreguismo. A tendência a "nacionalizar"
as eleições municipais, agitando nelas os temas
mais gerais, como os de política econômica, é
irmã gêmea de outra, igualmente nefasta, que
é considerar tais eleições apenas escada
para as seguintes, estaduais ou federais.
Unger revaloriza a campanha
municipal ao propor temas de fato municipais, mas também
por propor os temas certos. Há muito ficou claro que
automóvel e cidade são incompatíveis.
Ou se salva um ou a outra. Até agora, no Brasil, trabalhou-se
para salvar o automóvel. Talvez seja chegada a hora
de salvar a cidade. Têm-se multiplicado os investimentos
em condomínios fechados e shopping centers, antíteses
da cidade, no sentido de que representam uma fuga dela e uma
proteção contra ela, na mesma medida em que
escasseiam os programas voltados para os reais espaços
urbanos. De cidade, a "civitas" romana, ou do espaço
urbano, a "urbs", derivam substantivos como civilidade e urbanidade.
Ao investir na cidade, é na civilidade e na urbanidade
que se investe. A eleição, não só
a de São Paulo, pode ser um caminho para isso, desde
que na campanha se proponham os temas certos.