Bom de tesoura e marketing
O cabeleireiro
Jassa faz a cabeça
de Silvio Santos
e de várias outras celebridades
Ricardo
Valladares
Antonio
Milena
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| "Corto
o cabelo de gente famosa de graça. Afinal de
contas, esse tipo de publicidade não tem preço"
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Doze de fevereiro de
1976. O paraibano José Jacenildo dos Santos, hoje
com 54 anos, decorou essa data por considerá-la tão
importante quanto a de seu aniversário. De certa
forma, é mesmo um segundo nascimento. Naquele dia,
ele conheceu o apresentador de televisão Silvio Santos.
Silvio andava meio descontente com seu corte de cabelo,
achatado e com costeletas, e queria dar uma melhorada no
visual. Enquanto comprava ternos numa confecção
chique de São Paulo, reparou no penteado do relações-públicas
da loja. Perguntou quem era o autor da "obra" e mandou chamá-lo
à sua casa. Para mostrar serviço, o profissional
convocado, Jacenildo, ofereceu a Silvio doze alternativas
de corte que poderiam torná-lo mais charmoso. "Ele
tinha um cabelo de suburbano. Mudei para um visual de executivo,
com topete", lembra. O apresentador gostou tanto que, durante
a entrega do Troféu Imprensa, passou doze minutos
elogiando o cabeleireiro. No dia seguinte, o paraibano tinha
a agenda de seu salão lotada por três meses.
"Meu faturamento quadruplicou e eu comecei a ser o que sou
atualmente", comemora.
Hoje, Jassa é
o cabeleireiro de várias celebridades. Freqüentam
seu salão estrelas do SBT, como Gugu Liberato e Celso
Portiolli, grandes empresários, como Olacyr de Moraes,
e socialites, como Rosane Collor. Em relação
a eles, Jassa emprega uma política também
iniciada em 12 de fevereiro de 1976: quem é famoso
não paga. Depois de ter seu novo penteado aprovado
no Troféu Imprensa, Silvio Santos deu ao cabeleireiro
um cheque com o qual seria possível comprar um Maverick
GT, o carro esporte da moda na época. Jassa rasgou
o cheque na frente do apresentador. "A propaganda que ele
fez de mim na televisão não tem preço."
Na semana passada, Assíria, mulher de Pelé,
esteve lá e também não pagou os 75
reais que Jassa costuma cobrar por um corte de cabelo. "Ela
está lançando um disco com músicas
gospel e com certeza irá citar meu nome em entrevistas",
acredita o cabeleireiro. O marido de Assíria, que
não precisa lançar disco para aparecer em
todo tipo de mídia, faz reclame de Jassa há
mais de dez anos. "Ele bate um bolão com a tesoura
e com os espetos de carne. Só não deixo ele
tirar meu topete", derrama-se Pelé, que conheceu
Jassa durante um churrasco no Guarujá. Com toda essa
propaganda, o cabeleireiro tem uma retirada mensal de 200.000
reais em seu salão. Acaba de licenciar seu nome para
uma linha de cosméticos capilares. Segundo cálculos
dos fabricantes, o licenciamento deve render a ele mais
400.000 reais por mês até o final do ano.
Jassa é mesmo
hábil com a tesoura. Com pouco mais de uma dúzia
de clec-clecs, é capaz de transformar radicalmente
o visual de uma pessoa. Foi assim com Gugu Liberato, que
agora exibe a estampa "costeleta-com-franjinha", bem mais
moderninha. O sonho de Jassa é desbastar as melenas
de Hebe Camargo. "Seria um desafio profissional. Eu a deixaria
trinta anos mais jovem", aposta. O outro talento de Jassa
é para o marketing, e vem de bem antes da popularização
dessa palavra. Ele começou a vida como engraxate.
Percebeu que poderia granjear fama na cidadezinha de Serra
de Cuité se lustrasse os sapatos dos poderosos do
lugar sem cobrar. Para compensar o custo, misturava banana
amassada na graxa assim, podia engraxar o dobro de
sapatos sem gastar mais com material. Já em São
Paulo, aonde chegou em 1965, adotou duas estratégias
para subir na vida: vestir-se sempre bem e freqüentar
os lugares da moda. Nem que para isso tivesse de usar os
ternos do irmão, dois números menores. As
calças ficavam na metade da canela, no melhor estilo
"caça-frango". Certa noite, no toalete da boate Hippopótamus,
teve a idéia de mandar fazer caixinhas de fósforos
com seu nome e telefone e dá-las aos encarregados
da limpeza, para que eles as distribuíssem entre
os clientes ricos da casa noturna. Esse tipo de expediente
ajudou a conquistar clientes no início dos anos 70.

Jassa, com Gugu e
Silvio: por dentro dos bastidores do SBT
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Jassa tem em Silvio
Santos o melhor cliente e também o melhor amigo.
Antes de gravar, o dono do SBT sempre dá uma passada
em seu salão. De quinze em quinze dias, o cabeleireiro
tinge o cabelo de Silvio com a mistura de loiro cinza e
dourado que virou a marca registrada do empresário.
Sem tintura, os cabelos do sexagenário apresentador
do Show do Milhão se mostrariam totalmente
brancos. Silvio, que é conhecido por tomar às
vezes decisões no SBT sem ouvir os executivos da
emissora, gosta de pedir a opinião de Jassa sobre
assuntos internos de sua empresa. O cabeleireiro ficou sabendo
antes dos diretores do SBT qual seria a estratégia
de Silvio para tirar Ratinho da Record. Palpitou também
na contratação de Moacyr Franco que,
desempregado, pediu que Jassa intercedesse por ele. O cabeleireiro
também aconselha Silvio a não se meter em
política. Acha que ele não dá para
a coisa. "Eu não votaria nele para presidente da
República", diz.
Casado há 29
anos com a mesma mulher, Elides, Jassa é um típico
representante daquela modalidade de clã nordestino
em que todos se ajudam. Comprou um sítio para o pai,
José Ferreira dos Santos, que está com 92
anos e sempre trabalhou como lavrador em terra arrendada.
Dez de seus dezessete irmãos seguem a mesma profissão
e se valem do prestígio conquistado por Jassa. Uniram
o possível ao rentável. Em Serra de Cuité,
formação profissional era basicamente aprender
o ofício da tesoura com o barbeiro Manoel Formigão,
uma celebridade local. Jassa, que só pôde ir
à escola com 16 anos, fez questão de que seus
três filhos Ana Cristina, de 28 anos, Sandra,
de 25, e Robson, de 21 fizessem o colegial nos Estados
Unidos. Antigo comprador de liquidações das
lojas Garbo, um magazine popular nos anos 60, ele hoje faz
seus ternos sob medida no mesmo alfaiate de Silvio Santos.
O homem que perdeu a chance de comprar um Maverick GT agora
desfila pela cidade num Jaguar XJ6, de 130.000 dólares.
Tem uma mesa fixa no restaurante La Tambouille, próximo
a seu salão, e costuma dar gorjetas de 100 reais
aos garçons. Jassa acha que não basta ser
rico. É importante também aparentar riqueza.
Como muitos de seus clientes, ele acredita que imagem é
tudo.