O piradão de
Hollywood
O diretor
Oliver Stone continua furioso,
mas ensaia um reencontro com o público
Isabela Boscov
Diretores normais fazem
filmes. Oliver Stone, não. Ele exorciza demônios.
Só suas experiências no Vietnã (de onde
saiu condecorado por bravura) lhe valeram três filmes,
a começar por Platoon. Atormentado por uma
relação problemática com o pai, um
investidor no mercado financeiro, fez Wall Street.
Inconformado com a versão oficial de que o assassinato
do presidente John Kennedy teria sido fruto da loucura de
um único homem, pôs fogo nos Estados Unidos
com JFK A Pergunta que Não Quer Calar,
no qual expõe uma teoria conspiratória alucinada
que envolveria desde a Máfia e o FBI até militantes
anti-Cuba. Enfurecido com a polêmica em torno do filme,
foi à forra em Assassinos por Natureza, no
qual acusa a mídia de ter um fascínio obsceno
pela violência. Por isso, à primeira vista,
Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday,
Estados Unidos, 1999), que se passa no universo do futebol
americano, parece deslocado em relação às
obsessões de Stone. Mas é só impressão.
Todos os temas favoritos
de Stone estão presentes na fita que estréia
nesta sexta-feira no país. Ele filma as partidas
de futebol americano como se fossem batalhas campais. O
espectador ora se encontra entre os jogadores, levando pancada
de todos os lados, ora se vê à beira do colapso
junto com o técnico da equipe perdedora, Tony D'Amato
(vivido por Al Pacino). Também tem uma visão
privilegiada das maquinações da dona do time
(Cameron Diaz), uma patricinha inescrupulosa. A platéia
ganha ainda acesso ao vestiário. Poderia ser um hospital:
brutamontes tomam soro na veia, levam pontos, engolem quantidades
pantagruélicas de analgésicos, gemem com a
dor de fraturas e contusões. A idéia é
denunciar a sede de violência do público e
a ganância dos cartolas, que transformaram esse esporte
num espetáculo de gladiadores. Mas o diretor, como
sempre, se apaixona pelo tema e em pouco tempo já
está fazendo o espectador se eletrizar com tudo aquilo
que ele diz ser abjeto.
O filme é Oliver
Stone no que tem de mais típico. Primeiro, porque
Um Domingo Qualquer é magistral do ponto de
vista cinematográfico. Durante duas horas e meia,
a platéia é bombardeada sem trégua
por montagens alucinadas de cenas de jogo e de confrontos
entre personagens. Aos brasileiros, aliás, vale avisar
que as regras enigmáticas do futebol americano não
são obstáculo à compreensão
do filme se o jogador não está batendo,
está apanhando, e essa parece ser a única
lei que conta. Vários outros itens denunciam o autor
da obra. Por exemplo, o assunto "de macho", tratado sem
nenhuma sutileza, e o roteiro repleto de maniqueísmos,
sobre um técnico da velha-guarda que deseja transmitir
aos novatos a verdadeira filosofia do esporte. Como de costume,
também, o diretor arranca ótimos desempenhos
de seus intérpretes. Quem mais se destaca aqui é
o novato Jamie Foxx, no papel de um jogador reserva que
rouba a vaga do titular do time por causa de sua agressividade.
Liberdade condicional
O futebol americano é outro dos fantasmas
do diretor. Sem irmãos ou amigos, Stone se entretinha
durante a infância encenando partidas em seu quarto,
horas a fio. Segundo revela um livro que ele escreveu no
final da adolescência e que só recentemente
foi publicado, ele tinha outras fantasias também.
Elas envolviam sua mãe, a francesa Jacqueline, e
não eram exatamente inocentes. Aliás, se o
diretor se tornou a contradição em pessoa,
muito se deve a seus pais, ou mais propriamente ao divórcio
deles. Stone diz ter sido comunicado sobre o fato de forma
abrupta, quando tinha 14 anos. Demorou décadas para
se recuperar do choque. Na tentativa de achar um rumo, abandonou
a faculdade duas vezes, tentou se alistar como mercenário
no Congo Belga, foi dar aulas em Saigon e, finalmente, em
1967, ofereceu-se para lutar no Vietnã. A idéia,
declarou certa vez, era cometer suicídio. "Honestamente,
não achei que fosse sair vivo da guerra", disse.
Stone voltou do Vietnã
condecorado com a Estrela de Bronze e com novas predileções:
maconha, ácido lisérgico e música soul.
Quando escreveu o roteiro de Scarface para o diretor
Brian De Palma, já tinha mais intimidade com a cocaína
do que o personagem-título. Depois virou budista
e hoje, aos 53 anos, diz ter parado com as drogas mais pesadas.
No momento, porém, cumpre pena de três anos
em liberdade condicional por posse de haxixe
e bolinhas. Também está às voltas com
um processo complicado, no qual é acusado, como autor
de Assassinos por Natureza, de ter inspirado dois
jovens a cometer crimes. Volta e meia algum ator ou produtor
espinafra Stone, alegando que ele trabalha na base da intimidação.
Desde o sucesso de JFK suas bilheterias só
faziam despencar, em grande parte por causa da sua fama
de paranóico e rábido. Nixon, seu filme
mais maduro, foi visto por meia dúzia de gatos-pingados.
Para quem reinou como
o mais popular diretor de Hollywood, nos anos 80, são
golpes duros. "É claro que essas coisas doem. Não
sou feito de pedra", diz, fazendo trocadilho com seu sobrenome.
A boa notícia é que Stone não se acovardou
com tantas críticas. Continua filmando com a mesma
ferocidade de sempre. Além disso, Um Domingo Qualquer
parece estar reaproximando o cineasta e o público.
O filme já rendeu 76 milhões de dólares
nos Estados Unidos, uma quantia respeitável. Há
três anos, ele declarou que, pelas suas contas, sobravam
muito poucas pessoas dispostas a ver seus trabalhos. "Preciso
de uma nova geração de espectadores", brincou.
Parece que acabou de encontrá-la. Só resta
saber quanto tempo Stone levará para se indispor
também com ela.
Os truques de Stone
Alguns dos recursos
do diretor para envolver a platéia
Divulgação
 |
1. Cortar, cortar e cortar
Como funciona: Stone
raramente deixa a ação fluir de forma
natural. Prefere transformar cada cena num quebra-cabeça
de cortes rapidíssimos
Exemplo: entre as várias
partidas de futebol americano de Um Domingo
Qualquer, não há uma única
jogada que seja mostrada do começo ao fim,
como manda o figurino
2.
Mudar sempre o ponto de vista
Como funciona: Stone
não corta só para fazer a ação
parecer mais dinâmica. Corta para fazer com
que cada cena seja apreciada de múltiplos pontos
de vista
Exemplo: em JFK
A Pergunta que Não Quer Calar, o mesmo
trecho da história às vezes é
narrado por meia dúzia de personagens, cada
um dando sua versão dos fatos
3. Usar tipos diversos de
filme
Como funciona: o diretor
gosta de brincar com cor e preto-e-branco e com películas
e texturas diferentes
Exemplo: Assassinos
por Natureza é uma mistura radical de técnicas.
Elas vão do vídeo (quando a história
imita um programa de TV) ao amadorístico 16
milímetros, que dá um ar documental
a certas cenas da trama
|