Edição 1 644 -12/4/2000

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O piradão de Hollywood

O diretor Oliver Stone continua furioso,
mas ensaia um reencontro com o público

Isabela Boscov

Diretores normais fazem filmes. Oliver Stone, não. Ele exorciza demônios. Só suas experiências no Vietnã (de onde saiu condecorado por bravura) lhe valeram três filmes, a começar por Platoon. Atormentado por uma relação problemática com o pai, um investidor no mercado financeiro, fez Wall Street. Inconformado com a versão oficial de que o assassinato do presidente John Kennedy teria sido fruto da loucura de um único homem, pôs fogo nos Estados Unidos com JFK — A Pergunta que Não Quer Calar, no qual expõe uma teoria conspiratória alucinada que envolveria desde a Máfia e o FBI até militantes anti-Cuba. Enfurecido com a polêmica em torno do filme, foi à forra em Assassinos por Natureza, no qual acusa a mídia de ter um fascínio obsceno pela violência. Por isso, à primeira vista, Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday, Estados Unidos, 1999), que se passa no universo do futebol americano, parece deslocado em relação às obsessões de Stone. Mas é só impressão.

Todos os temas favoritos de Stone estão presentes na fita que estréia nesta sexta-feira no país. Ele filma as partidas de futebol americano como se fossem batalhas campais. O espectador ora se encontra entre os jogadores, levando pancada de todos os lados, ora se vê à beira do colapso junto com o técnico da equipe perdedora, Tony D'Amato (vivido por Al Pacino). Também tem uma visão privilegiada das maquinações da dona do time (Cameron Diaz), uma patricinha inescrupulosa. A platéia ganha ainda acesso ao vestiário. Poderia ser um hospital: brutamontes tomam soro na veia, levam pontos, engolem quantidades pantagruélicas de analgésicos, gemem com a dor de fraturas e contusões. A idéia é denunciar a sede de violência do público e a ganância dos cartolas, que transformaram esse esporte num espetáculo de gladiadores. Mas o diretor, como sempre, se apaixona pelo tema — e em pouco tempo já está fazendo o espectador se eletrizar com tudo aquilo que ele diz ser abjeto.

O filme é Oliver Stone no que tem de mais típico. Primeiro, porque Um Domingo Qualquer é magistral do ponto de vista cinematográfico. Durante duas horas e meia, a platéia é bombardeada sem trégua por montagens alucinadas de cenas de jogo e de confrontos entre personagens. Aos brasileiros, aliás, vale avisar que as regras enigmáticas do futebol americano não são obstáculo à compreensão do filme — se o jogador não está batendo, está apanhando, e essa parece ser a única lei que conta. Vários outros itens denunciam o autor da obra. Por exemplo, o assunto "de macho", tratado sem nenhuma sutileza, e o roteiro repleto de maniqueísmos, sobre um técnico da velha-guarda que deseja transmitir aos novatos a verdadeira filosofia do esporte. Como de costume, também, o diretor arranca ótimos desempenhos de seus intérpretes. Quem mais se destaca aqui é o novato Jamie Foxx, no papel de um jogador reserva que rouba a vaga do titular do time por causa de sua agressividade.

Liberdade condicional — O futebol americano é outro dos fantasmas do diretor. Sem irmãos ou amigos, Stone se entretinha durante a infância encenando partidas em seu quarto, horas a fio. Segundo revela um livro que ele escreveu no final da adolescência e que só recentemente foi publicado, ele tinha outras fantasias também. Elas envolviam sua mãe, a francesa Jacqueline, e não eram exatamente inocentes. Aliás, se o diretor se tornou a contradição em pessoa, muito se deve a seus pais, ou mais propriamente ao divórcio deles. Stone diz ter sido comunicado sobre o fato de forma abrupta, quando tinha 14 anos. Demorou décadas para se recuperar do choque. Na tentativa de achar um rumo, abandonou a faculdade duas vezes, tentou se alistar como mercenário no Congo Belga, foi dar aulas em Saigon e, finalmente, em 1967, ofereceu-se para lutar no Vietnã. A idéia, declarou certa vez, era cometer suicídio. "Honestamente, não achei que fosse sair vivo da guerra", disse.

Stone voltou do Vietnã condecorado com a Estrela de Bronze e com novas predileções: maconha, ácido lisérgico e música soul. Quando escreveu o roteiro de Scarface para o diretor Brian De Palma, já tinha mais intimidade com a cocaína do que o personagem-título. Depois virou budista e hoje, aos 53 anos, diz ter parado com as drogas mais pesadas. No momento, porém, cumpre pena de três anos — em liberdade condicional — por posse de haxixe e bolinhas. Também está às voltas com um processo complicado, no qual é acusado, como autor de Assassinos por Natureza, de ter inspirado dois jovens a cometer crimes. Volta e meia algum ator ou produtor espinafra Stone, alegando que ele trabalha na base da intimidação. Desde o sucesso de JFK suas bilheterias só faziam despencar, em grande parte por causa da sua fama de paranóico e rábido. Nixon, seu filme mais maduro, foi visto por meia dúzia de gatos-pingados.

Para quem reinou como o mais popular diretor de Hollywood, nos anos 80, são golpes duros. "É claro que essas coisas doem. Não sou feito de pedra", diz, fazendo trocadilho com seu sobrenome. A boa notícia é que Stone não se acovardou com tantas críticas. Continua filmando com a mesma ferocidade de sempre. Além disso, Um Domingo Qualquer parece estar reaproximando o cineasta e o público. O filme já rendeu 76 milhões de dólares nos Estados Unidos, uma quantia respeitável. Há três anos, ele declarou que, pelas suas contas, sobravam muito poucas pessoas dispostas a ver seus trabalhos. "Preciso de uma nova geração de espectadores", brincou. Parece que acabou de encontrá-la. Só resta saber quanto tempo Stone levará para se indispor também com ela.

 

Os truques de Stone

Alguns dos recursos do diretor para envolver a platéia


Divulgação

1. Cortar, cortar e cortar

Como funciona: Stone raramente deixa a ação fluir de forma natural. Prefere transformar cada cena num quebra-cabeça de cortes rapidíssimos

Exemplo: entre as várias partidas de futebol americano de Um Domingo Qualquer, não há uma única jogada que seja mostrada do começo ao fim, como manda o figurino

2. Mudar sempre o ponto de vista

Como funciona: Stone não corta só para fazer a ação parecer mais dinâmica. Corta para fazer com que cada cena seja apreciada de múltiplos pontos de vista

Exemplo: em JFK — A Pergunta que Não Quer Calar, o mesmo trecho da história às vezes é narrado por meia dúzia de personagens, cada um dando sua versão dos fatos

3. Usar tipos diversos de filme

Como funciona: o diretor gosta de brincar com cor e preto-e-branco e com películas e texturas diferentes

Exemplo: Assassinos por Natureza é uma mistura radical de técnicas. Elas vão do vídeo (quando a história imita um programa de TV) ao amadorístico 16 milímetros, que dá um ar documental a certas cenas da trama